Arquivo mensal: setembro 2011

Bódibaiábadôi

Padrão

Hoje levantei incrédula: dormi a noite toda e acordei com a sensação de ter acabado de sair do chão da sala, em meio aos brinquedos, para onde voltaria dentro de instantes, recém acordada por uma vozinha bebezal rouca declamando: “Meu meia! Meu meia tirô! Ôta tá, ôta não tá!”.

Há uma semana reduzimos drasticamente a televisão aqui em casa. Os resultados são palpáveis: o Davi, viciado mor, está muito mais criativo, disposto, espontâneo, divertido. Só volta ao comportamento padrão de exigente, reclamão, desanimado e desmotivado depois de assistir a horinha de desenho que eu permito – aliás, da qual necessito para fazer o jantar.

Estamos nos divertindo muito juntos, nos conhecendo melhor, brigando muito e nos perdoando mais. Há períodos em que ficamos tão absorvidos na atividade que levo um susto ao olhar para o relógio. Há outros em que mudamos tão freneticamente de atividade que a casa parece um campo de batalha hipercolorido, cheio de peças de plástico, retalhos de papel, bonecos acumulados sob almofadas, panos de todos os tamanhos estendidos e embolados, figurinhas coladas nos lugares mais improváveis, migalhas de bolacha e pedaços abandonados de frutas pelos cantos.

Nas duas situações me pego escapando e vindo para o computador: meus e-mails são o contato mais estável com o mundo externo; o blog tem me instigado muito; tenho textos em pdf para ler para um curso toda semana.

Às vezes, os meninos deslancham apertando botões barulhentos ao meu redor, fuçando em livrinhos, rabiscando com canetinha papéis de rascunho e os próprios corpos. Geralmente, finjo que participo, ajudando a abrir uma caixa aqui, oferecendo um potinho de giz de cera ali, recortando bem em cima da linha acolá.

Mas, quase sempre, depois de alguns minutos, desligo o monitor e volto para o chão, onde começo instintivamente a realizar os pedidos deles, guardar e arrumar o que estiver ao meu alcance.

Eles têm que aprender a brincar sem mim e tenho esperança de que surja neles essa criatividade independente e ajuizada que o coletivo das mães só pode idolatrar. Mas é evidente que é muito difícil para esses serzinhos em miniatura abdicarem de uma presença tão acessível, tão facilitadora – e tão gostosa. Ao menos por enquanto.

Hoje fomos para a casa do vovô e tentava me concentrar numa leitura em meio aos barulhos lá autorizados e à agenda mental da rotina diária, quando o Pi se aproximou insistente. Eu já havia explicado várias vezes a ele nos últimos instantes que precisava ficar no computador um pouco. Mas ele garantia que meu colo era essencial naquele momento. E repetia, incansável: “Bódibaiábadôi! Bódibaiábadôi! Bódibaiábadôi!”.

Parei de impedir e de explicar, deixei que subisse, pezinhos descalços, boca suja de lanche da tarde. Sentou no meu colo, de costas para mim, pegou minhas mãos, levou ao teclado, juntou as suas mãozinhas sobre a mesa e ficou tamborilando os dedinhos em bloco, olhando para a tela. Quando ele aprender a falar “minha meia saiu”, provavelmente dirá com todas as letras: “po-de-tra-ba-lhar-no-com-pu-ta-dor. Só quero ficar um pouco aqui no seu colo enquanto isso, mamãezinha”. Então, seja bem vindo meu loirinho cheiroso…

Escrito hoje.

Anúncios

Três estratégias para as crianças esquecerem que não querem comer

Padrão

1)      “Finas Fatias”

Ingredientes: uma maçã e uma boa faquinha, uma bisavó, uma neta e dois bisnetos.

Modo de fazer: Ofereça a maçã às crianças após terem comido muito pão de queijo na casa da bisavó, no momento em que o caçula começa a chorar pedindo o pão de mel que comeu na semana passada e que hoje não tem. Eles recusarão a maçã. Lembre-se, então, que o caçula aceita muito melhor a maçã quando esta é cortada em lâminas. Alardeie: “então… teremos, tchan, tchan, tchan, tchan! Finas fatias!” Deixe que as crianças comecem a comemorar e, quando comer uma simples meia lua transparente de maçã começar a perder a graça, comece a esculpir corações “representando o meu amor por você”, formas geométricas,  letras do alfabeto.

Resultado: comem permanentemente até que a brincadeira acabe (em geral devido ao fim do estoque de maçãs ou à preguiça do escultor) e você ainda ganha um elogio admirado da sua avó, o que deixa tudo muito melhor.

2)      “Eu, eu, eu!”

Ingredientes: os pratos de comida, pai, mãe e dois filhos cansados.

Modo de fazer: Levem as crianças ao parque de diversões, depois saiam juntos para almoçar, passeiem no shopping e não priorizem as sonecas. Na hora do jantar, quando os dois estiverem gritentos e chorentos, decididos a recusar colheradas de qualquer composição, encarregue cada adulto de empunhar a colher de um dos filhos e declame com voz misteriosa: “a próxima colherada vai só para a criança queeeee… pulou no pula-pula do Mickey!” Varie os enunciados com provocações do tipo: “…sabe o que tem dentro do baú do tesouro!”, “…não teve medo do dinossauro grande!”, etc. Observe a expressão do seu marido iluminar-se a cada colherada aceita.

Resultado: eliminado o mau humor, o apetite é diretamente proporcional ao gasto de energia ao longo do dia e inversamente proporcional ao sono dos participantes.

3)      “Ouvindo vozes”

Ingredientes: danoninhos*, mãe e dois filhos.

Modo de fazer: Ingenuamente apresente às crianças, na hora do lanche, a bandeja de danoninhos inteira e deixe que escolham a cor desejada. Destaque os potinhos e, se necessário, abra-os. Guarde os demais e espere que comam comecem a resmungar, reclamar e chorar pedindo o(s) sabor(es) já guardado(s). Então, franza a testa teatralmente, olhe para a geladeira e diga que está ouvindo um sonzinho estranho vindo dali. Mantenha sua expressão neutra e tão imóvel quanto possível e, com voz agudizada, diga: “Oi! Olá-á! Eu sou o danoninho verde! Não vou sair daqui! Tô aqui na geladeira, fechado! Só saio outro dia!” e assim por diante. Atenção: é importante que o discurso seja cuidadosamente planejado, evitando os sons bilabiais, como: “Tô aqui preso”, “só saio amanhã”, o que prejudicaria o desempenho de ventríloquos amadores.  

Resultado: enquanto as crianças estiverem distraídas, ouvindo o personagem fantástico e dialogando com ele, será consumido o danoninho inicialmente escolhido. Em seguida, há grandes chances de ser também consumido o danoninho falante.

 *Faz-se necessário explicar porque alguém poderia precisar de alguma estratégia extraordinária para que as crianças comam danoninho: existem bandejinhas com sabores sortidos, e, obviamente, no instante seguinte à abertura dos potinhos escolhidos para aquela refeição, eles mudam de ideia quanto ao sabor. Alguns pais, especialmente os que estejam de dieta, podem desejar que seus filhos consumam o potinho já aberto.

Escrito em setembro de 2011.

Cutucão

Padrão

Hoje percebi exatamente o momento em que mudei de postura, da irritação para o deleite.

O Davi estava embaixo da mesa do restaurante, no meio da refeição, desamarrando minha sapatilha, puxando meu pé, atrapalhando o meu almoço, ignorando todos os pedidos do pai para ficar sentando e comer direito.

Foi quando, de repente, me permiti sentir o calor da sua mãozinha macia no peito do meu pé direito e percebi que perceptivo ele é para encontrar um lacinho tão pequeno ali no meu sapato, na penumbra daquele espaço.  Que engraçado ele fazer tanta força puxando a minha perna e eu poder facilmente mantê-la imóvel.

E me veio a constatação prévia de que, daqui a pouco, não só ele não caberá debaixo da mesa, como terá força para me deixar pendurada pela perna se assim desejar e não desobedecerá o pai em assuntos tão mixurucas. Isso se tivermos a sorte dele ir almoçar conosco. O que provavelmente ele faça mais interessado nas Bloomin’ Onions do que nos meus pés, ainda que eu esteja usando sapatilhas com lacinho.

Então deixei a memória sensorial carimbar na minha pele a suavidade das almofadinhas fofas dos dedinhos dele e posso descrever, sem ter visto, o seu olhar atento e sapeca puxando a ponta do cordãozinho de couro fake.

Obrigada, Davi, por ter cutucado a mamãe. Por dentro.

 

Escrito hoje.

Desconfigurada

Padrão

Não, não tomei sol demais.

Não vim correndo do metrô.

Não, não estava chorando.

Não bati o rosto.

Não fiz cirurgia.

Não fiz botox.

Não é tratamento dermatológico.

Não, não. Não sou a mulher do Homem Elefante.

 

Linguiça, berinjela, pão de alho.

Pelo de gato, poeira, perfume.

Níquel, maquiagem vencida.

Colchão emprestado, sabão em pó novo.

Casamento de irmão, tombo de pai, a tal da Suiça.

Não, não, nada disso.

 

Minha alergia é por brincar de massinha com os meninos.

A alergia e a alegria.

 

Escrito hoje.

“Seis anos!”

Padrão

Ao chegarmos em Bofete, o Davi foi logo perguntando: “onde está o pomar de laranjas?”. Soubemos e vivenciamos pelo paladar que não é época de laranjas, que as mangas preparam-se para abundar em dezembro, que as pitangas e amoras estão no auge de sua lúdica safra e o principal: que existem os ingás. Como eu pude passar 31 anos de minha existência, e tantos deles jogando stop, sem conhecer o ingá? 

Hoje pela manhã fomos passear no pomar. Minha sogra ontem nos contava que quando criança tinha uma tartaruga à qual montava e que era tão moleca que fazia as tarefas da escola em cima de uma árvore. Esta manhã, com seus sessenta-e-sejamos-discretas-mas-parece-muito-menos, demonstrou ao Davi e a quem mais quisesse ver como se sobe numa árvore. Os primeiros passos e braçadas foram realizados, os demais, indicados.

O Davi e o Pedro têm, no pomar, uma mangueira cada um. Aos pés de cada árvore existe, respectivamente, uma plaquinha com uma joaninha e outra com uma tartaruga. Fixamos nossos esforços alpinistas na mangueira do Pi. Depois de dar as instruções, e já começando a ouvir alguns protestos entre excitados e apavorados, a vovó acalmou o Davi dizendo que ele só subiria na árvore quando tivesse uns cinco ou seis anos.

 A psicologia reversa foi muito efetiva e o baixinho começou com os porquês e com as contrapropostas. Então coloquei-o num galho confortabilíssimo, a cerca de um metro e meio de altura, com locais demarcados para assento e para apoio de cada uma das mãos. Logo começaram os gritos de súplica: “seis anos! Seis anos!”…

Já em terra firme e mais calmo, ele alegou que era muito duro para o bumbum. Se sentar no penico já é um problema para suas carninhas até então acostumadas com o fofo da fralda, que dirá um galho d’árvore.

Há pouco ocorreu outro episódio intestinal. Ou melhor, não ocorreu. Mas o Davi garantiu que quando tiver vontade de novo ele vai chamar “o papai, ou a mamãe, ou o vovô, ou a vovó, ou o Pedro. Porque o Pedro não? Porque ele não pode me ajudar?”

Escrito em dezembro de 2010.

E como você faz se eles dormem no carro?

Padrão

Essa pergunta é uma das “top dez”. Ouço muito frequentemente, mas toparia ouvir ainda mais, caso significasse que eles obrigatoriamente dormiriam no carro a cada vez que isso me fosse perguntado – e especialmente que não acordariam ao serem colocados na cama.
Minhas respostas usuais:
“Um no carrinho e outro no colo”.
“Interfono chamando o Digo (pode ser substituído por algum santo vizinho do ap.44) e ele me ajuda”.
“Como sempre”.
“Tô acostumada”.
Às vezes o dia foi tão longo antes desse questionamento que eu tenho ímpetos de dar respostas mais criativas, como:
“Ah, acordo os dois pra eles me ajudarem a subir com as malas”.
“Deito meu banco e durmo também”.
“Espero o zelador achar e entregar junto com a correspondência”.
“Deixo lá e pego amanhã de manhã”.
Mas, para fins científicos (aceitando servir de fonte para alguma pesquisa antropológica do próximo século, que investigue o impacto da tecnologia rudimentar edifício-carro-elevador na vida das famílias), serei aqui bem específica:
a) manobro com cuidado especial para não bater o carro nas colunas, evitando acordá-los;
b) estaciono na vaga, sendo que, caso o carrinho de bebê esteja no porta-malas, deverá ser deixada folga da parede permitindo abertura da porta;
c) desligo o carro, mantendo o rádio ligado;
d) abro o carrinho de bebê em local seguro, próximo do carro, calculando a rota por entre as colunas para que não entale quando estiver carregado;
e) pego o copo d´água e o “amigo” do Davi (bicho de pelúcia pré-selecionado que o acompanhará durante a noite, pode também ser outro objeto, como um pedaço de papel laminado, um canudo, o token do tio), coloco-os na bolsa do carrinho;
f) tiro o cinto de segurança do Davi , pego-o no colo, sento-o no carrinho;
g) fecho as portas deste lado do carro, dou a volta;
h) abro a porta do acompanhante, pego as sacolas e as penduro nas manoplas do carrinho;

h’) caso o volume das sacolas impeça que eu empurre o carrinho com segurança ou caso seu peso ultrapasse os 15 Kg correspondentes ao peso do Davi, uma ou mais sacolas ficará em minhas costas e/ou braços e/ou pescoço; caso o conteúdo das sacolas seja não-perecível, elas poderão aguardar a chegada do cônjuge conhecido como “papai”; caso haja certa urgência na chegada das sacolas no apartamento, elas deverão ser deixadas em local visível para que o cônjuge atine pegá-las – leia-se: sobre o capô do carro ou no meio da vaga da frente;

h”)atenção: não inverter a sequencia de colocação das cargas descritas em “f” e em “h”, evitando assim que o carrinho tombe;

i) levo o carrinho até o hall dos elevadores e, dependendo do andar em que estiverem, aciono o botão;
j) volto correndo para o carro e ponho a chave de casa entre os lábios;
k) ouço atentamente se há algum veículo chegando ou saindo da garagem, e em caso positivo, verifico se pertence a algum vizinho barulhento ou conversador, o que pode adiar a continuidade dos procedimentos até o desaparecimento completo do mesmo;
l) desligo o rádio e fecho a porta do acompanhante;
m) abro a porta do Pedro, tiro o objeto que estiver em suas mãos (em geral uma bola, mas pode também ser um cadeado, uma escumadeira plástica ou um CD);
n) tiro o cinto de segurança do Pedro (este é um momento crítico para a continuidade ou não do sono), tiro o cabelo de meu ombro direito, pego o Pedro no colo, deito-o no ombro, fecho a porta do carro;
o) ando até o hall dos elevadores (caso algum vizinho surja a partir deste momento, ele será tratado de forma não-verbal, mesmo porque estou com a chave na boca);
p) abro a porta do elevador, seguro-a com o pé esquerdo, abro bem as pernas, troco a mão que apoia o Pedro da direita para a esqueda e manobro o carrinho com a mão direita até que ele entre no elevador, entro no elevador (este procedimento é significativamente facilitado caso chegue o elevador de serviço, cuja porta mantém-se aberta);
q) “apétusseis”, aguardo a chegada no andar desejado (caso o elevador pare antes em algum outro andar, não há motivo para preocupação, porque como já fico encostada na porta, de costas, com uma carequinha loira ao lado, qualquer um vê que não dá para entrar);
r) desço de ré, empurrando a porta com as costas, puxo e manobro o carrinho, até que deixe a porta do elevador livre para que se feche;
s) manobro o carrinho até que fique de frente para a porta de casa;
t) tiro a chave da boca e abro a porta;
u) tiro um pé do sapato e uso para segurar a porta de casa (caso o sapato seja muito leve ou faça barulho no piso de madeira ou esteja me incomodando desde o meio-dia, tiro os dois pés);
v) entro com o carrinho em casa, afasto o(s) sapato(s), acendo alguma mínima luz, fecho a porta;
w) levo o Pedro para o quarto, fecho a janela (caso se aplique), deito-o no berço (momento crítico principal);

w’) a experiência de ter que ninar o Pedro por minutos a fio chacoalhando seu bumbum no berço até que volte a dormir ou ainda amamentando-o por período ainda maior, provocou a supressão do procedimento algumas vezes adotado de manter o Davi no hall do andar, o que suprimiria completa ou parcialmente os itens “u” e “v”);

x) volto para a sala, retiro silenciosamente as sacolas das manoplas do carrinho, retiro a água e o “amigo” do bolso do carrinho, coloco-os na cama do Davi;
y) pego o Davi no colo, levo-o para o quarto, deito-o na cama, cubro-o;
z) fecho a porta do quarto;
aa) faço o Sinal da Santa Cruz.

Escrito em abril de 2011.