Arquivo mensal: outubro 2011

Desmam(ã)e

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O menino tinha muito medo de palhaço. A mãe queria desmamá-lo. Quando ele pediu para mamar, ouviu da mãe: “Ih, filho, o palhaço mamou aí”. Chorou assustado e nunca mais pediu.

A pequena de um ano e quatro meses que “não saía do peito” foi deixada por quinze dias na casa da avó no interior, o “único jeito” de parar de mamar.

A bebê levantou a blusa da mãe querendo mamar e encontrou um band-aid. A mãe disse que não podia mais mamar, porque o peito estava machucado.

O medo para aplacar o conforto certo.

O vácuo para apagar o vínculo.

A dor para encerrar a delícia. 

Não tem que ser assim.

Primeiro mame e depois desmame. Com final feliz.

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Tchibupa

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Meu caçula fez o download das boas maneiras. Foi-se rapidamente o tempo em que ele passava o dia dizendo “pato” e “puta” – “obrigado” e “desculpa”.

Na última atualização de programa, ele instalou o “com licença” e outro dia, para o prato de comida caber na mesinha do cadeirão, afastou educadamente a Mônica de borracha e seu coelhinho Sansão acoplado, pedindo “tentsa, Monta!”.

O sotaque do seu “pufavôooi” não deixa alternativa para nenhum interlocutor.

Mas a palavra que ele considera a mais mágica de todas é “desculpa”.

Topa o dedão no pé da cadeira e solta “tchibupa” antes de erguer o pezinho até alguma boca beijante.

Assiste o irmão numa disputa acirrada por brinquedo com algum amigo e dispara, apaziguador: “tchibupa”.

Ouve seu nome completo ser pronunciado (não o “Pi”, mas o “Pe” e também o “dro”, de uma vez só!) e antes mesmo de entender do que se trata inclina a cabecinha, eleva levemente as maçãs do rosto empurrando também as pálpebras inferiores e declama: “tchibuupa…”.

E quando se trata de uma bronca já prevista, inclui um risinho no pacote, estendendo também os bracinhos em direção ao oponente.

É assim quando encharca a mamãe no banho, quando joga a comida no chão, quando distribui palmadas nervosas no cocuruto do irmão, quando teima persistentemente que não vai entrar no elevador até ser carregado com decisão para dentro deste e começar a chorar.

Antes assim, uma inclinação para o arrependimento. O irmão mais velho pende é direto para o perdão (de si mesmo): quando sente que a pressão para desculpar-se não lhe deixa alternativa, abrevia o “abracadabra”, elimina o “sim salabim” e vai direto para o “tá bom, tô desculpado”.

Programinha

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Eis que chegamos à Pinacoteca Municipal, em plena manhã de quinta feira. O guarda soltou um “pois não, senhora?” mal humorado, pronto para explicar pela milésima vez na semana que a entrada do parque de diversões é pelo outro lado.

Ou então esta pode ter sido a minha impressão, na verdade o guarda estava apenas apavorado com os meus dois guarda costas uniformizados, trajando suas camisetas do Hot Wheels e seus joelhos esfolados.

Subimos as escadas no ritmo do funcionário, e não no nosso, mas a partir do “podem ficar à vontade”, realmente ficamos. Duas exposições nos esperavam ali. Li para os meninos seus títulos, “Todas as cores do mundo” e “Hammler brincante“, e dou um doce multicolorido para quem adivinhar para qual das salas eles quiseram correr primeiro.

Vimos árvores, pássaros e pessoas xilogravados. O Davi descobriu que obras têm títulos, e perguntava cada um deles, antes mesmo de olhar para os quadros. Passamos por uma instalação com cartões de aniversário e objetos juninos, o Pi encasquetou com um chapéu de palha e foi içado por mim até encaçapar a cabecinha nele, com ajuda do Davi. Entramos na outra sala e enquanto o Pedro nomeava “póba”s e “boi”s, eu comentava como as estampas das roupas pintadas eram lindas e o Davi, neto de artista, justificava: “é porque ele quis pintar assim, mamãe”.

Antes de nossa meia horinha diferente terminar, senti os meninos como peças em exposição, interrogados, cumprimentados e elogiados pelos funcionários do local. O guarda da recepção transformou a expressão do rosto, da voz e de todo seu ser ao nos despedirmos.

Passamos pelo jardim de esculturas, que os meninos juraram que fossem brinquedos, e o Davi teve coragem para escalar o gramado íngreme até uma obra específica, “umas pernas com uma bola de espinhos”, que foi sua preferida. Minha também, já que os tais espinhos são bicos de mamadeira, e está aí um bom uso para eles.

Claro que estávamos todos ambivalentes entre ficar mais um pouco ou voltar para casa. Mas, lembrando do almoço por fazer, lancei uma proposta irrecusável: iríamos logo embora, para nós mesmos pintarmos telas, assim como os inspiradores artistas nordestino-abecedenses.

Orgulhosa por proporcionar cultura local de boa qualidade aos meus pequenos, coloco-os nas cadeirinhas do carro instigando sua memória e sua imaginação. Não estava tão difícil assim montar essa excursão digna de pré-escola com atividades correlatas e tudo. Então escuto o Davi, ansioso, dizer quais cores usaria para pintar o Super Why, seu programa preferido, assim que chegássemos. Eu querendo arrumar um programão pra eles, e o Davi querendo ficar com seu programinha de sempre. Então tá.

Escrito hoje.

Dia D

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Dia 1:

Separo as roupas dos dois

Encho a banheira

Coloco os dois

Lavo o Pedro

Lavo o Davi

Pego o Pedro e deixo o Davi brincando, após dizer todas as recomendações

Começo a vestir o Pedro

Davi: “mamãe, quero fazer cocô!”

Enrolo Pi na toalha e vamos para o banheiro colocar Davi no penico

Davi perde a vontade

Dia 2:

Separo as roupas dos dois

Encho a banheira

Coloco os dois

Lavo o Pedro

Lavo o Davi

Pego o Pedro e deixo o Davi brincando, após dizer todas as recomendações

Começo a vestir o Pedro

Davi: “mamãe, quero fazer cocô!”

Visto o Pi correndo e o carrego para o banheiro para colocar o Davi no penico

Davi perde a vontade

Dia 3:

Separo as roupas dos dois

Encho a banheira

Coloco os dois

Lavo o Pedro

Lavo o Davi

Pego o Pedro e deixo o Davi brincando, após dizer todas as recomendações

Começo a vestir o Pedro

Davi: “mamãe, quero fazer cocô!”

Visto o Pi e o deixo no quarto (chorando); vou para o banheiro para colocar o Davi no penico

Davi perde a vontade

Dia 4:

Separo as roupas dos dois

Encho a banheira

Ofereço o penico ao Davi – não está com vontade

Coloco os dois na banheira

Lavo o Pedro

Lavo o Davi

Pego o Pedro e deixo o Davi brincando, após dizer todas as recomendações

Começo a vestir o Pedro

Davi: “mamãe, quero fazer cocô!”

Visto o Pi e o deixo brincando no quarto, ele começa a chorar; vou para o banheiro para colocar o Davi no penico

Davi perde a vontade

Dia 5:

Separo as roupas dos dois

Encho a banheira

Coloco os dois na banheira

Lavo o Pedro

Lavo o Davi

Pego o Pedro e deixo o Davi brincando, após dizer todas as recomendações

Começo a vestir o Pedro

Davi: “mamãe, quero fazer cocô!”

Visto o Pi e o deixo brincando no quarto; vou para o banheiro para colocar o Davi no penico

Davi perde a vontade

Dia D:

Separo as roupas dos dois

Encho a banheira

Coloco os dois na banheira

Lavo o Pedro

Lavo o Davi

Pego o Pedro e deixo o Davi brincando, após dizer todas as recomendações

Começo a vestir o Pedro

Davi: “mamãe, quero fazer cocô!”

“Faz aí mesmo filho!”

Termino de vestir o Pedro

Silêncio

Ruído semelhante ao de uma pedra caindo na água

Davi diz alguma coisa com voz animada

Eu: “O que que foi, filho?!”

Ele: “Eu fiz cocô na água!”

Eu: “DAVIIIIIIIIIIIII!!!”

Ele: “Buáaaaaaaaaaaaa!!”

Pedro: “Buáaaaaaaaaaaa!!”

 Escrito em dezembro de 2010.

Descobertas

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Trânsito, horário, academia de ginástica, e-mail, TV a cabo. Eu não preciso de nada disso para viver.

Acabo de passar uma semana maravilhosa no interior, durante a qual minhas preocupações eram poucas além de pendurar as toalhas no varal (para depois de algumas horas tê-las cheirando a sol para o próximo banho) e lembrar-me de pegar o boné antes de sair para caminhar (na deliciosa hora em que o dia ainda é claro o bastante, mas tanto eu quanto os passarinhos cantando já sabemos que se encaminha para seu final).

Fiz duas descobertas além da “obviedade” do primeiro parágrafo. A primeira é que o que me incomoda não é acordar cedo, e sim começar o dia, desde seu primeiro instante, em função das necessidades e vontades de outros.  Então, bem que posso acordar mais cedo e ter um tempo só meu para escolher a roupa, escrever, ler, olhar pela janela.

A outra é que adoro fazer os meninos dormirem. Essa é, na verdade, uma revolução – porque a tarefa de fazer filho dormir (inúmeras vezes, por dia e por noite, inclusive) já foi meu terror. Para isso basta que eu esteja alimentada, banhada e relaxada, como pude estar todos estes dias. É uma delícia vestir pijamas, beijar bichos de pelúcia e filhos, contar histórias e ouvir doces vozes completando finais de palavras, olhar de novo e de novo para as mesmas figuras e lembrar sem querer como era bom entrar no mundo mágico de cada imagem, deitada em minha cama de criança, todas as noites, pouco antes de Morfeu me pegar no colo.

E depois apagar as luzes, contar histórias decoradas, ser corrigida nos atos falhos (“…não tinha com quem dormir…” – “brincar, mamãe! Não tinha com quem brincar!”), misturar Davi e Pedro nos enredos, recapitulando o dia bem vivido, as pitangas e as cigarras, a areia e o sorvete, transformar história em prece, agradecer a Deus com a voz e com o rosto, deitada em minha cama, sem temer o sono que se apossa também de mim. Então, um cochilo depois, escutar a imobilidade dos corpinhos cansados e o soprinho de duas respirações compassadas, e decidir se quero levantar para terminar o dia – vendo a novela, fazendo a unha, folheando um romance, comendo mais um pouco ou usando o banheiro – ou se quero ficar ali mesmo, entregue à companhia dos meus companheirinhos adormecidos e do sono reparador no fim de um dia já acabado.

Para a vovó

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Vovó Neusa querida

Somos seus dois brilhantes

Que nas conquistas da vida

Seguem contigo adiante

 

Professora de tantas crianças

Sempre dedicada a ensinar

Enriquece a nossa infância

Ensinando-nos a amar

 

Reluz nosso coração

Diante do teu amor de avó

Receba nosso abração

E um beijo apertado que só

 

Para minha sogra. Escrito ontem.

Acompanhou um par de brincos com strass, uma gargantilha de corujinha e uma pulseirinha com pingente de coração.

Safra especial

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Cê tenta imaginar um bom vinho
Um bom prato
Um bom papo
 
Cê tenta encontrar um cidadão
Um senhor
De bom humor
 
Cê tenta escutar de novo
Um assobio
No qual confio
 
Cê tenta fazer o bem
Ser alguém decente
Qual São Vicente
 
Cê tenta escrever um conto
Soprar bolhas de sabão
Atender “pois não?”
 
Cê tenta comemorar mais um ano
Ao som de um piano
De muitos miados
 
Cê tenta agradecer essa vida
Um espetáculo
Entrada Franca

 

Para Tio Zé, escrito há um ano.