Descobertas

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Trânsito, horário, academia de ginástica, e-mail, TV a cabo. Eu não preciso de nada disso para viver.

Acabo de passar uma semana maravilhosa no interior, durante a qual minhas preocupações eram poucas além de pendurar as toalhas no varal (para depois de algumas horas tê-las cheirando a sol para o próximo banho) e lembrar-me de pegar o boné antes de sair para caminhar (na deliciosa hora em que o dia ainda é claro o bastante, mas tanto eu quanto os passarinhos cantando já sabemos que se encaminha para seu final).

Fiz duas descobertas além da “obviedade” do primeiro parágrafo. A primeira é que o que me incomoda não é acordar cedo, e sim começar o dia, desde seu primeiro instante, em função das necessidades e vontades de outros.  Então, bem que posso acordar mais cedo e ter um tempo só meu para escolher a roupa, escrever, ler, olhar pela janela.

A outra é que adoro fazer os meninos dormirem. Essa é, na verdade, uma revolução – porque a tarefa de fazer filho dormir (inúmeras vezes, por dia e por noite, inclusive) já foi meu terror. Para isso basta que eu esteja alimentada, banhada e relaxada, como pude estar todos estes dias. É uma delícia vestir pijamas, beijar bichos de pelúcia e filhos, contar histórias e ouvir doces vozes completando finais de palavras, olhar de novo e de novo para as mesmas figuras e lembrar sem querer como era bom entrar no mundo mágico de cada imagem, deitada em minha cama de criança, todas as noites, pouco antes de Morfeu me pegar no colo.

E depois apagar as luzes, contar histórias decoradas, ser corrigida nos atos falhos (“…não tinha com quem dormir…” – “brincar, mamãe! Não tinha com quem brincar!”), misturar Davi e Pedro nos enredos, recapitulando o dia bem vivido, as pitangas e as cigarras, a areia e o sorvete, transformar história em prece, agradecer a Deus com a voz e com o rosto, deitada em minha cama, sem temer o sono que se apossa também de mim. Então, um cochilo depois, escutar a imobilidade dos corpinhos cansados e o soprinho de duas respirações compassadas, e decidir se quero levantar para terminar o dia – vendo a novela, fazendo a unha, folheando um romance, comendo mais um pouco ou usando o banheiro – ou se quero ficar ali mesmo, entregue à companhia dos meus companheirinhos adormecidos e do sono reparador no fim de um dia já acabado.

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