Arquivo mensal: novembro 2011

Pega de calças curtas

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Está calor há dias e eu cansei de ser prisioneira da calça comprida. Combinei de deixar os meninos com meu pai e ir à depilação.

Meio-dia, malas arrumadas, todos almoçados, não fiz ninguém dormir com a intenção de que durmam no carro. Vamos embora.

“Para onde, mamãe?” pergunta o mais velho. Respondo só nomes de ruas, para não excitá-lo com o destino verdadeiro, onde os chocolates, grampeadores e permissões gerais são uma diversão.

Repenso a minha decisão – não saber o destino correto pode ser em si excitante, então completo: “mas a mamãe esqueceu de dizer que é muito longe e vocês vão dormir no carro”. Decido que foi a frase final, a partir de agora só o rádio funcionando como sonolento ruído de fundo.

“Ai, as comidas!” Nada feito, esqueci os jantares dos dois, que passei a manhã preparando. Telefono para a empregada, dou as instruções, reformulo duas ou três vezes cada frase e respondo duas perguntas. Deverá dar certo.

Fazemos o retorno e começam os porquês. O caçula se agita com a voz do irmão. Será que vão dormir? A empregada traz a térmica conforme o combinado, podemos continuar. Foi previdente não marcar horário na depilação.

A gasolina entra na reserva. Ótimo, vamos abastecer e, enrolando mais um pouquinho os bichos, quem sabe o sono vem. O frentista lava o parabrisa, o Davi se esquece do vidro e ri ao imaginar a água molhando a mãe. Respondo mais perguntas. Paciência se ele não dormir, o mais importante é o sono do bebê.

As perguntas param, o Pedro toma o turno com sua cantoria. Olho para trás e confirmo: o Davi dormiu. Ok, só falta um.

Telefono para o vovô descer e me ajudar a carregar os filhos e as bagagens via elevador. O ruído dos talheres ao fundo me faz suspeitar: ele estava almoçando fora. Devia ter dito que “mal combinei de deixar os meninos com meu pai”. Decido dar mais voltas com o carro, quem sabe o Pedro pega no sono. O choro começa. Vai acordar o irmão! Decido voltar, me perco pelas ruas sem saída do bairro, como sempre.

Lágrimas e gritos depois, chegamos à garagem – excepcionalmente eu trouxera o controle do portão! Subir até o apartamento era impossível, então enquanto esperávamos, o Pedro mamaria/pararia de chorar e pegaria no sono. Quando o avô chegasse estudaríamos o que fazer, de acordo com os tempos-base que eles costumam dormir. Mas o Pedro acha que estar no carro fora do bebê conforto é como estar em um parque de diversões, nem mama, nem – muito menos – dorme. Preciso de outro plano: andar de carro um pouco mais. Vamos para a casa da minha mãe, onde não tem elevador para complicar.

Chegando lá descubro que ela está em casa, tem tempo para fazer o Pedro dormir, pode tomar conta do Davi até que acorde. Posso sair com o carro dela, assim não precisamos mexer no dorminhoco, que a essa altura certamente acordaria. Aviso meu pai de que não temos hora para ir. Tarde demais, ele já está indo para casa, pediu para embrulharem o almoço.

Apresso-me em sair para a depilação. Mas… o barulho do portão abrindo acorda o Davi, que me vendo através dos vidros dos dois carros choraminga: “mamãe, quero ficar com você!”.

Despeço-me da vovó, seria inviável fazer um dormir com o outro acordado e manhoso. Retomamos o plano anterior e voltamos para a casa do vovô. Quase chegando, decido investir em dar mais voltas pelo caminho, funciona: o Pedro, depois de chorar e de cantarolar já entregue, adormece.

O carro do vovô está na vaga da frente, ele não acreditava mais na visita dos furões. Enquanto manobro os dois carros o Davi se aflige e fica mais reclamão. Quer descer sozinho da cadeirinha. Quer saber porque tem uma placa com o menino descendo a escada. Tudo isso com a mamãe pedindo o impossível silêncio. Brigamos ao entrar no elevador. Ele chora alto, o irmãozinho abre os olhos. Penso em sentar no chão e chorar também eu, mas aproveito um sopro de inspiração e decido balançar o bebê conforto do Pi, ele fecha novamente os olhinhos. Pego Davi no colo, desculpa filhinho.

Chegamos ao apartamento, o vovô, que já terminava de almoçar, leva um susto. Tiro os telefones da tomada, fecho as cortinas, deixo o pequeninho em paz no quarto. O Davi pode comer quantos chocolates quiser, volto em uma hora.

Quarenta minutos depois estou de volta, não tinham horário para a sobrancelha. Mas minhas pernas finalmente me permitem usar calorentos vestidos. Embora, a propósito, o tempo tenha virado hoje e por mais uns dias as calças devam ser a mais sensata opção.

 

Escrito em setembro de 2010. Postado com meus agradecimentos ao Vitor, à Maluca e à Nayroca, que com este texto começaram a pedir o blog. 😉

Rebimboca da parafuseta

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Esta tarde dormi logo uns sete minutos ao lado do Pedro na casa do meu pai até que o telefone tocou. O bebê surpreendentemente manteve-se dormindo, mas eu não tenho certeza sobre mim… A impressão que tive foi de estar acordada, mas deve ter sido um sonho, daqueles mais malucos. Ouvia nomes estranhos, uma conversa sem pé nem cabeça…

Um empresário do ramo de transportes de veículos, da sala de sua casa, tenta localizar seu motorista num telefone público do Mato Grosso. O neto de três anos assiste televisão no sofá, ao lado. Alguém num posto de combustível de beira de estrada de prefixo 65 atende. Que fizesse o favor de procurar um rapaz pequeno, franzino. Não, não é criança, é pequeno; não, não é fortão, é franzino. Franzino é magrinho. Alguém tem a brilhante ideia de perguntar o nome do cidadão. Que ele retornasse a chamada a cobrar. O telefone toca novamente. Mas porque raios não atendia o celular? A linha cai. O cartão telefônico em Campo Grande está prestes a esgotar. Mas não já tinha sido avisado que era para ligar a cobrar? Três telefonemas e quatro bufadas descontroladas depois, tem início uma conversa detalhada sobre mecânica de caminhões. A flange ou a tampa? A peça é algo como um copo sem fundo. (Não deveria ser algo como um tubo?) Redonda ou cilíndrica? A flange não quebra. O retentor não se encontra em fornecedor nenhum, mas o sensor de velocidade já está em mãos. A flange ou a tampa? Mas a flange não quebra. A Mercedes Benz só trocou a flange de um caminhão em toda sua história no Brasil uma vez, no Rio Grande do Sul.  A F L A N G E O U A T A M P A? Alguém tem a brilhante ideia de fotografar a peça. A foto chega por e-mail. Novos telefonemas. Contatam-se fornecedores, amigos de motoristas, mecânicos, comerciantes do mercado paralelo. Alguém pergunta se o empresário está passando bem, não é comum que ele fale assim tão baixo. (Oi?) Ele imbui-se do mais minucioso espírito descritivo e começa: é como um relógio, no sentido anti-horário, tem um parafuso às dez horas da noite, um às sete horas da noite (e se fosse às dez ou às sete da manhã?), um às cinco da tarde; são seis ou sete parafusos, não se sabe ao certo, afinal a peça está quebrada. Mas não era a flange que era impossível de quebrar? Alguém tem a brilhante ideia de encaminhar ao vendedor a foto por e-mail. Sim, a peça foi localizada. Começa a série de telefonemas e anotações obsessivas numa folha de papel para organizar a obtenção das peças. Centenas de reais por pedaços de ferro. Ferro não, alumínio fundido.  FuNdido! Uma hora e vinte e cinco minutos de passeio pela cidade atrás das peças, pequenos pacotes, apertos de mãos, uma caixa em consignação, uma peça com 90% de desconto, outra entrega no final do dia. Tudo cabe numa sacolinha que sairá de viagem às 3:30h. da manhã e andará 1000 Km até seu destino, o tórax de um cavalo de um MB quatro dígitos quaisquer.

No dia seguinte o menino de três anos, neto do empresário em questão, brinca no quintal. Uma nuvem encobre o sol, ele exclama: “Ah, vai chover, putz América!”

 

Escrito em fevereiro de 2011.

Que beleza!

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Em cima da cama: duas blusas do avesso, duas calças, três cintos, 90% dos colares e pulseiras da casa – os outros 10% pendurados nos filhos e nos brinquedos deles. Cinco pares de sapato forrando o chão. Uma mulher semi-vestida e irritada andando pela casa, procurando zerar as tarefas pendentes antes de sair, enquanto torce para ter alguma visão milagrosa do look do sábado. Cada vez mais atrasada.

O marido pergunta se pode ajudar em algo. Escuta que, por favor, desapareçam. Mas ela estava linda, porque tirou aquela roupa? E ela argumenta com algumas questões vã filosóficas e emenda algo sobre a flacidez. Eles desaparecem.

Minutos depois, ela recupera a última gargantilha (na cintura do pequeno) e, já calçada, põe a bolsa nos ombros. Vamos?

Aproxima-se do marido, com a cabeça baixa. Abraçam-se e sussurram particularidades. Assim permanecem. Sentem o calor de um corpinho que se apóia neles, um bracinho no bumbum de cada um, o rosto nas barrigas. Escutam passinhos saltitantes em sua direção e o brado: “TI-A-MÓ!” Começam a gargalhar, ainda abraçados. O pequeno abraça por cima. Os quatro declaram seu mútuo amor e riem.

Enquanto apanham as malas e as chaves, o mais velho resume: “agora o que importa não é a roupa, é o amor!”. Ela sorri. Está linda.

Oras, bolas!

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Fiz uma sessão extra de cócegas com ele de cabeça para baixo. Logo depois do lanche, é verdade, mas aquela cara branquela de ator mirim estava irresistível. Pronto. Refluxo imediato. A cara virou cara de pata choca e ele começou a mastigar. E a rir. E disse: “eu comi uma bulllinha”.

Tirei suas meinhas por um instante, só para morder os pés, antes de sair para a consulta médica. Ele começou a mancar e a reclamar que “aiai, tem uma bulllinha”. Horas depois, durante o exame, fui mostrar para a doutoura a unhinha preta e cadê-la? Deve ser no outro pé. Não, era nesse mesmo. Repõe a meia, retira a outra. Nada, em pé nenhum. A unhinha resolveu partir.

Cheguei do supermercado com as benditas caixas de papelão, que são tudo o que uma mãe multicarregada não precisa para carregar a mais. Ele quis “bulllinha, na minha boca!”: os pães de queijo? As uvas? Os tomatinhos? As carolinas recheadas? Sim, porque eu precisava saber quais dos pacotes deveria esconder prioritariamente. Mas é claro que a argumentação sedutora de uma boquinha gulosa e sorridente venceu a parada.

Oras, bolinhas, Pi, tudo com você é fofo, não?

Põe a mão na cabeça que vai começar…

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Muitíssimo agradecida a Deus eu conto que meus meninos estão recuperando sua saúde de ouro. Ainda estão olheirentos, catarrentos, tossilentos, magrelinhos e chorões demais, mas hoje tiveram um dia muito mais próximo do normal. Foi tão bom ver o Davi pulando pelado na cama antes do banho! Fiquei tão feliz naquela hora que a pressa de vesti-los novamente deu uma trégua e, ditando a coreografia, cantei com eles músicas de qualidade duvidosa. Vi que o Pi não estava muito participativo, acho que era preguiça. Deixei-o lá, embaraçando meus terços e forjando nós nos meus cordões de Santa Filomena, a fralda verdinha quebrando o branco inteiriço da cabeça aos pés. Quando já colocava o Davi na banheira quentinha escutei vinda do quarto a doce voz com seu sotaque inconfundível: “uebolêtsantsan, uebolêtsan…”.