Arquivo mensal: dezembro 2011

Missa do galo

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Chegamos atrasados à missa das 18:00h. Sentamo-nos no último banco, perto de onde já estavam alguns da família – da de sangue e da de coração.

O Davi tanto fuçou no celular do tio que deve ter desejado Feliz Natal a meia agenda. O Pedro mexeu em tudo e ocupou todas as posições que teve ideia, mas suas risadas não podiam sequer competir com a barulheira das perguntas, comentários e gargalhadas do irmão.

Começaram a revirar a mochilinha: argola de cortina, caderno da fono, copo d´água, paninho de boca, um soldadinho, meus óculos escuros (!), o chaveirinho-lanterna de galo. Foi esse mesmo que o Pedro preferiu. Só depois de ouvir o brinquedo cacarejar feliz pela terceira vez foi que percebi que aquela luzinha azul e o inconfundível som vinham das mãos do meu crianço. Não é mesmo a primeira vez na liturgia que o galo canta três vezes para Pedro…

Pedi que parasse e ele consentiu. Então comecei a achar muita graça, cada vez mais graça… De todas as missas do ano, estávamos naquela que admitia já em seu título a brincadeira.

Ouvimos, professamos, confraternizamos, comungamos. Boa parte de nós já estava ao lado do presépio, fugindo do calor e do final da missa em si, quando o padre convidou as crianças para ajudarem a levar o Menino Jesus ao altar. Um grupinho de umas doze rodeou a imagem do Dono da Festa e foi atrás delas que meu dois titubeantes seguiram pelo corredor central. O mais velho conduzindo o mais novo pelo pescocinho. E eu entre fotografando e soluçando.

A Providência Divina encarregou-se de repetir o convite que me fez há dois natais, quando o Pi representou um nenê Jesus com 48 dias de vida: “consagre-os a Mim. O que você espera? Porque se inquieta com o que não é necessário? Escolha agora a melhor parte. Escolha por si e escolha por eles. Vamos, confie-os novamente a Mim”.

As crianças colocaram a imagem do Salvador na manjedoura e, ao som de aplausos, os irmãozinhos foram os últimos a subir ao altar. A igreja cantou Noite Feliz. Os dois ficaram bem atentos ao lado da imagem. O Pi de mãozinhas postas, imitando o celebrante. Eu entre lágrimas assistindo. Até que o Davi achou por bem pegar o Menino no colo. A assembléia gargalhou. O padre acudiu.

Mais uma estrofe da canção, e o Pi decidiu que era sua vez: puxou o Jesusinho pelo pé. O padre, já ali perto, rearrumou o nenê na cama. Ele tentou uma segunda vez. E uma terceira, “esse aí era o meu lugar aquela vez, peraí que eu vou trocar”, pode ter pensado. Eu chacoalhava de emoções, no outro extremo da nave central. O povo ria comigo. Até que uma ministra foi escalada para escoltar os fieizinhos sapecas, que, aprontando ou não, mantinham a pureza compenetrada no olhar.

E eu achando que a maior das travessuras tivesse sido o galinho cocoricando…

Mais aplausos. E, se ter-se feito recém-nascido, como um dia a cada um de nós que ali estavam, pelo mais puro dos amores, não for digno de uma robusta salva de palmas, nada mais merece ser aplaudido.

Meus mocinhos desceram os degraus do altar com sucesso, o moreno mais uma vez conduzindo o loiro, até que chegaram até seus honrados pais. Correu primeiro o maior, e ganhou um beijo. Depois o pequeno imitou, mais um beijinho também. Emoção, gratidão, a bênção final e… Feliz Natal!

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Cai não cai

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Faltam três dias para o Natal.

Passei a tarde com três meninos.

Dois filhos e um afilhado me puseram em contato com várias nuances do meu temperamento, da que derrete ao ouvi-los enumerar “palavras de amor” num jogo que inventamos, à que tem vontade de implodir cada um deles quando fazem voar pelos ares da sala já suficientemente badernada os componentes do “Cai não cai”.

Quem teve infância sabe de que se trata: um brinquedo encantado, bolinhas de gude, varetas pintadas, um tubo com passagens secretas, um mecanismo que parece mágico. Hoje, repaginado: o que para mim é Disney demais, para eles é super legal. Um brinquedo que oferece tantos riscos – de perfuração, asfixia, sumiço das peças sob o sofá, entre outros – e, consequentemente, faz a mamãe ficar junto brincando o tempo todo, está no topo da escala de atraência.

Para ter calma, conte até três.

Mas vou precisar de mais três chances…

Enquanto eu tirava do alcance alguma coisa mais proibida, eles tiravam da caixa a nave de Buzz Lightyear e todos os seus cacarecos. As varinhas e as mini bolas pulando pelo chão, alegres, coloridas, como adestradas pulgas gigantes. E as duas, mamãe e madrinha, berrando a plenos pulmões.

Deixa, não deixa? Pode, não pode? Dá, não dá? Quer, não quer? Vai, não vai? Fica, não fica? Fala, não fala? Cai, não cai? Caiu. Tentou saltar pirueteando da corda bamba a tarde toda, até que tropeçou no chão encerado e em seguida escorregou numa das pedras do caminho.

Sorte que os tigres tristes são apenas três.

Na hora da chuva, o menino do sobrado, desacostumado ao sexto andar, apareceu dizendo “vi uma coisa branca no céu!”. Um disco voador? Seu rostinho desbotou ainda mais. O foguete do Buzz? Um sorrisinho coloriu o rosto pálido. Era só um raio. Para quem já havia ouvido tantos trovões…

Sorte que os três reis magos enxergaram a estrela guia.

Mas… A bem da verdade… nós também a enxergamos algumas vezes, ao longo da tarde.

Primeira comunhão

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Fazendo hora extra no horário de verão. Se já houvesse anoitecido, ele estaria dormindo, exausto pelo dia bem aproveitado, com gosto de infância. Mas seduziu a mãe e conseguiu mais uma rodada de quebra-cabeças antes de encerrar o expediente. Enquanto isso, comeu todos os pedacinhos de uma pêra picada. Intercalava às mastigações sorrisos com os olhos.  Continuando assim, pretendia atingir todos os seus objetivos: quem sabe a mamãe ficaria ali, olhando para ele embasbacada, levando garfadinhas de fruta à sua boca mimada ao longo de toda a noite? Quem sabe sequer se poria o sol brilhante, que há pouco avermelhara seus olhinhos claros e o fizera pedir para apagarem “essa luz”?

Terminaram o quebra-cabeças. A cena do presépio mostrava as figuras principais da noite natalina, e ele apontou o menino de cachinhos dourados dizendo, muito animado: “o bebezinho!”. Repassaram a história, em sua seguinte versão:

– Essa é Maria e esse…

Josésus!

– E esse aqui?

O menino Jesuso!

– Eles foram para Belém e perguntaram, “tem lugar pra gente?”

– Teeeeem!

-Não… não tem… E foram em outra casa, “tem lugar aqui?”

– Teeeeeem!

Pulinhos enfáticos sobre a cadeira, algumas falas gritadas de excitação.

– Então… foram dormir na casinha do…

– Cavalo!

– E o que aconteceu naquela noite?

-Apareceu o nenê!!!

– E a estrela guia…

-Bilô no tséu!

Boca bem aberta, canininhos de leite recém despontados tingidos pelo leite recém tomado.

– O nenê Jesus nasceu!!!

– Eu quero comê ele.

– Você quer comer o menino Jesus?

– Quero comer o pezinho dele.

Talvez tenha sido sugestionado pelo calendário de dezembro, que guarda um bombom em cada uma das vinte e quatro janelinhas. Talvez pelo carrossel que o encantou no restaurante esta tarde, em que um tubarão exibindo seus brancos dentes afiados instigou que saísse mordendo tudo o que via pela frente. Talvez tenha realmente querido alimentar-se daquela história que já lhe e tão familiar, e que há dois anos ele protagonizou na Missa do Galo.

Seduzida, apaixonada, aceitando as horas extra a mim impostas pelo caçula dos imperadores, sentindo talvez um pedacinho do amor que sentiu Maria por aquele bebezinho na manjedoura, só posso desejar que o meu montador de quebra-cabeças continue almejando vorazmente preencher-se do Santíssimo e com essa mesma pureza faça, uma dia, sua primeira comunhão.

Luz do luar

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Que lua linda me acompanhou agora há pouco! Redonda, brilhosa; branca destacada no preto limpo do céu. Igual à lua da noite do meu casamento.

Dirigi sorrindo. Cantei quase todas as músicas do rádio, letra certa, afinado e sem esforço. Tarde da noite. Usando salto. Rímel. Perfume.

Trouxe para casa um potinho de carne de panela pro marido e dois bolinhos pros meninos. E um estoque de assuntos.

Descobri, nesta noite, muitas coisas sobre mim. Observei-me sem minhas muletas (de 85cm e de um metro e cinco).

Reconheci minhas saudades. Ocupei espaços em que há muito não entrava.

Comi bem. Cheguei à conclusão de que sou crítica com tudo, tudo, menos com comida. Em seguida constatei que não: sou crítica com tudo, tudo mesmo, menos com comida boa.

Ouvi minha própria voz. Ouvi como alguns assuntos me inflamam, e como sou radical, e parcial, e rígida, e contraditória. E como deveria escutar mais.

Senti cheiro de pipoca, cerveja, cigarro e brigadeiro de erva-doce.

Tive vontade de parir de novo, numa noite de luar. De sair para jantar. De ir ao cinema. De ir ao circo. Ao teatro. De rir gargalhadas. De chorar lembrando histórias. De tomar garoa. De andar em bando. De dirigir sozinha ouvindo MPB.

As luzes de Natal e as luzes de freio deixam as noites de luar mais bonitas.

O X da questão

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Ela tem paciência.

Ela escuta o menino.

Ela o respeita ao extremo.

Ela confia no potencial dele.

Ela aguarda.

Ela controla a própria ansiedade.

Ela torce por ele, mas não o pressiona.

Ela o admira em seus limites.

Ela o enxerga para além deles.

Ela deixa que tenha o seu espaço.

Ela suporta a bagunça.

Ela apenas observa a sujeira.

Ela devolve suas perguntas.

Ela não interrompe seus processos.

Ela permite que ele seja o que é.  

Ela é sua primeira amiga.

 

Qual a diferença entre AXLINE* e ALINE?

Apenas um X. O X da questão.

 

*AXLINE, Virginia M. Dibs: em busca de si mesmo. Rio de Janeiro: Agir, 1990. 16ª ed.

Recomendo fortemente este livro, original de 1964, a todos os interessados no desenvolvimento infantil. E às pessoas sensíveis, que admirem o ser humano. Com muita gratidão à autora e a fonoaudiólogas especiais com quem tive o prazer de trabalhar, especialmente à Lili.

Cookies de banana

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Tínhamos meia dúzia de bananas totalmente pintadas de preto. Então decidi que mais tarde faria uns cookies de banana com aveia, para aproveitá-las.

 Qual não foi minha surpresa quando cheguei da academia e descobri que quatro delas haviam sido milagrosamente consumidas pela manhã? Só porque as frutas da casa resumiam-se a dois limões, três fatias de abacaxi (sobraram as mais azedas) e quatro ameixas pretas – mas essas não contam, porque estavam na geladeira, sinônimo de invisibilidade.

Ok, a receita leva mesmo duas bananas. Mãos lavadas à obra! Davi, de novo, não quer lavar as mãos. Me garante que consegue sim mexer a massa mesmo com as mãos sujas. A contragosto, os dois tiveram suas mini mãozinhas lavadas – sem argumentações da minha parte e da parte do Pi.

Dessa vez decidi que não ia gritar durante nossa sessão culinária. Duas providências viabilizariam a intenção: (a)pedido expresso de auxílio a Nossa Senhora, (b) planejamento de atividades para manter os meninos entretidos e não gritando ou me pedindo coisas.

Mas eles são muito rápidos. E muito do contra. A brilhante idéia de dar as bananas para o Pi descascar originou choro sentido, porque não deixei  que ele as comesse. Então ele também não as descascou.

A brilhante idéia de dar batatas para o Davi lavar ocupou-o por tão poucos instantes que eu nem tive tempo de esquecer o que eram aquelas batatas molhadas – que nenhuma relação travavam com cookies de banana, a bem da verdade.

E assim foram as respostas às minhas propostas: ou faziam rápido demais (leia-se mal demais), ou recusavam-se a fazer. E sempre, sempre, a tarefa do irmão parecia muito mais legal. E a da mamãe, então, nem se fala.

[Mas ontem tive uma autopercepção de limite tão satisfatória – quando disse para o Davi: “cola você usa com as suas avós, com a mamãe não dá”- que resolvi mergulhar nessa aventura de perceber os meus limites e decidi que os ovos sou eu que quebro. Fim.]

Alguns momentos iluminados salvaram-se de pedidos, resmungos, poses desastrosas sobre banquinhos e cadeirão e roubo de objetos das mãos alheias:

– o momento em que os dois ficaram comendo Honey Nut’os (tá, tá, vai);

– o momento em que os dois ficaram comendo fatias de pepino japonês (!!!  Depois do sucrilhos!!!  E repetiram muito!!! E o Pi teve ‘aiai dói baída!’ mas nem me senti mal com isso!!!);

– o momento em que o Pi fez uma torre com as forminhas de silicone que eu pedi que ele distribuísse na assadeira;

– o momento em que o Davi “montou”, ups, “untou” a forma;

– o momento em que o Pi me ajudou a colocar os ingredientes medidos na tigela (obs: este momento deve ser considerado apenas a partir do ponto descrito, excluir os instantes anteriores, em que ele fazia bolhinhas de saliva por reação ao nojo que sentiu do fermento em pó);

– o momento em que o Davi ajudou a espalhar a farinha sobre a forma untada dando nela batidinhas fofas com o lado da mão (obs: este momento deve ser considerado apenas a partir do ponto descrito, excluir o instante anterior, em que ele espirrou sobre a forma untada, que teve que ser lavada e novamente untada);

– o momento em que os dois educada e pacientemente mexeram a massa dos biscoitos com um garfo, ao som de “eu! Eu! Eu! Eu! É meu! Té pomê!” e “mas afinal essa massa é mesmo muito dura hein, mamãe!”

Enfim, os cookies ficaram prontos e cheirosos.

Muitas outras coisas deram certo. O almoço foi simultaneamente confeccionado. E saiu. E eles comeram a comida e não os cookies.E já temos o lanche da tarde prontinho.

Bom saber: Nossa Senhora dá plantão ao final das manhãs de segunda-feira.

Escrito em setembro/2011.