Primeira comunhão

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Fazendo hora extra no horário de verão. Se já houvesse anoitecido, ele estaria dormindo, exausto pelo dia bem aproveitado, com gosto de infância. Mas seduziu a mãe e conseguiu mais uma rodada de quebra-cabeças antes de encerrar o expediente. Enquanto isso, comeu todos os pedacinhos de uma pêra picada. Intercalava às mastigações sorrisos com os olhos.  Continuando assim, pretendia atingir todos os seus objetivos: quem sabe a mamãe ficaria ali, olhando para ele embasbacada, levando garfadinhas de fruta à sua boca mimada ao longo de toda a noite? Quem sabe sequer se poria o sol brilhante, que há pouco avermelhara seus olhinhos claros e o fizera pedir para apagarem “essa luz”?

Terminaram o quebra-cabeças. A cena do presépio mostrava as figuras principais da noite natalina, e ele apontou o menino de cachinhos dourados dizendo, muito animado: “o bebezinho!”. Repassaram a história, em sua seguinte versão:

– Essa é Maria e esse…

Josésus!

– E esse aqui?

O menino Jesuso!

– Eles foram para Belém e perguntaram, “tem lugar pra gente?”

– Teeeeem!

-Não… não tem… E foram em outra casa, “tem lugar aqui?”

– Teeeeeem!

Pulinhos enfáticos sobre a cadeira, algumas falas gritadas de excitação.

– Então… foram dormir na casinha do…

– Cavalo!

– E o que aconteceu naquela noite?

-Apareceu o nenê!!!

– E a estrela guia…

-Bilô no tséu!

Boca bem aberta, canininhos de leite recém despontados tingidos pelo leite recém tomado.

– O nenê Jesus nasceu!!!

– Eu quero comê ele.

– Você quer comer o menino Jesus?

– Quero comer o pezinho dele.

Talvez tenha sido sugestionado pelo calendário de dezembro, que guarda um bombom em cada uma das vinte e quatro janelinhas. Talvez pelo carrossel que o encantou no restaurante esta tarde, em que um tubarão exibindo seus brancos dentes afiados instigou que saísse mordendo tudo o que via pela frente. Talvez tenha realmente querido alimentar-se daquela história que já lhe e tão familiar, e que há dois anos ele protagonizou na Missa do Galo.

Seduzida, apaixonada, aceitando as horas extra a mim impostas pelo caçula dos imperadores, sentindo talvez um pedacinho do amor que sentiu Maria por aquele bebezinho na manjedoura, só posso desejar que o meu montador de quebra-cabeças continue almejando vorazmente preencher-se do Santíssimo e com essa mesma pureza faça, uma dia, sua primeira comunhão.

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