Missa do galo

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Chegamos atrasados à missa das 18:00h. Sentamo-nos no último banco, perto de onde já estavam alguns da família – da de sangue e da de coração.

O Davi tanto fuçou no celular do tio que deve ter desejado Feliz Natal a meia agenda. O Pedro mexeu em tudo e ocupou todas as posições que teve ideia, mas suas risadas não podiam sequer competir com a barulheira das perguntas, comentários e gargalhadas do irmão.

Começaram a revirar a mochilinha: argola de cortina, caderno da fono, copo d´água, paninho de boca, um soldadinho, meus óculos escuros (!), o chaveirinho-lanterna de galo. Foi esse mesmo que o Pedro preferiu. Só depois de ouvir o brinquedo cacarejar feliz pela terceira vez foi que percebi que aquela luzinha azul e o inconfundível som vinham das mãos do meu crianço. Não é mesmo a primeira vez na liturgia que o galo canta três vezes para Pedro…

Pedi que parasse e ele consentiu. Então comecei a achar muita graça, cada vez mais graça… De todas as missas do ano, estávamos naquela que admitia já em seu título a brincadeira.

Ouvimos, professamos, confraternizamos, comungamos. Boa parte de nós já estava ao lado do presépio, fugindo do calor e do final da missa em si, quando o padre convidou as crianças para ajudarem a levar o Menino Jesus ao altar. Um grupinho de umas doze rodeou a imagem do Dono da Festa e foi atrás delas que meu dois titubeantes seguiram pelo corredor central. O mais velho conduzindo o mais novo pelo pescocinho. E eu entre fotografando e soluçando.

A Providência Divina encarregou-se de repetir o convite que me fez há dois natais, quando o Pi representou um nenê Jesus com 48 dias de vida: “consagre-os a Mim. O que você espera? Porque se inquieta com o que não é necessário? Escolha agora a melhor parte. Escolha por si e escolha por eles. Vamos, confie-os novamente a Mim”.

As crianças colocaram a imagem do Salvador na manjedoura e, ao som de aplausos, os irmãozinhos foram os últimos a subir ao altar. A igreja cantou Noite Feliz. Os dois ficaram bem atentos ao lado da imagem. O Pi de mãozinhas postas, imitando o celebrante. Eu entre lágrimas assistindo. Até que o Davi achou por bem pegar o Menino no colo. A assembléia gargalhou. O padre acudiu.

Mais uma estrofe da canção, e o Pi decidiu que era sua vez: puxou o Jesusinho pelo pé. O padre, já ali perto, rearrumou o nenê na cama. Ele tentou uma segunda vez. E uma terceira, “esse aí era o meu lugar aquela vez, peraí que eu vou trocar”, pode ter pensado. Eu chacoalhava de emoções, no outro extremo da nave central. O povo ria comigo. Até que uma ministra foi escalada para escoltar os fieizinhos sapecas, que, aprontando ou não, mantinham a pureza compenetrada no olhar.

E eu achando que a maior das travessuras tivesse sido o galinho cocoricando…

Mais aplausos. E, se ter-se feito recém-nascido, como um dia a cada um de nós que ali estavam, pelo mais puro dos amores, não for digno de uma robusta salva de palmas, nada mais merece ser aplaudido.

Meus mocinhos desceram os degraus do altar com sucesso, o moreno mais uma vez conduzindo o loiro, até que chegaram até seus honrados pais. Correu primeiro o maior, e ganhou um beijo. Depois o pequeno imitou, mais um beijinho também. Emoção, gratidão, a bênção final e… Feliz Natal!

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