Arquivo mensal: janeiro 2012

Mais um ano que se passa

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Nesta tarde de sol quente,

encomendada de presente,

a quem merece imensamente,

o privilégio a gente sente:

nós duas e nossos meninos,

passeando pelo condomínio,

sentimento do mais genuíno,

uma declaração eu assino.  

Que os dois pares de olhinhos abstêmios não me vissem, mas precisei pôr um dedo de Coca Cola num copinho descartável. Engoli com sofreguidão. Quase engasguei, o nariz coçou, os olhos, envesgando, lacrimejaram. Há dezoito ou vinte anos meu organismo respondia mais suavemente a essa solução de cafeína, gás carbônico e pó de pirlimpimpim – ou o que quer que fosse – e eu ria de chorar, gargalhava de rolar e enchia outro copo. Numa noite de janeiro, linda como a de hoje.

Naquele episódio, além da alegria, o sono certamente contribuía para o espetáculo. Mas esta noite, passadas duas décadas, o sono ficou mais evidente na geração seguinte. Davi cantarolava com o queixo apoiado dentro do prato sobre uma rodela de calabresa. A madrinha aniversariante, deleitando-se ao som de um afinadinho “Smoke on the water”, selecionava histórias para contar aos nossos três pequenos. Os dois mais elétricos pulavam nos assentos, sobre pedacinhos de mussarela e papéis de Sonho de Valsa. O terceiro rendia-se, deitado em duas cadeiras.

Numa linda noite do final de janeiro, como hoje, minha vida mudou. Uns nove quilos atrás, uns nove anos mais leve, eu conhecia o homem da minha vida. Naquela noite, a vontade de nunca mais ir embora usava como desculpas a folga do domingo e a certeza da amizade. Por muitos meses, alguns anos, nossos maridos formaram conosco um quarteto inseparável. Hoje estiveram cuidando de seus assuntos, dando a nós a tremenda oportunidade de curtirmos uma à outra e de detectarmos, muitíssimo satisfeitas, que os filhos já permitem que sentemos juntas e em paz, enquanto se afundam por si sós num mar de dinossauros sem braço, carrinhos sem roda e bolos sem mais nenhuma cereja.

Quanto à vontade de não mais ir embora, foi transmitida geneticamente aos estômagos do meu par de meninos: um deles reclamando com premência o presente que há algumas horas entregara à madrinha – um anel tão lindo quanto bijouteirento, cujo brilho prateado conquistou-o definitivamente na vitrina do bazar. O outro, comendo o que lhe oferecessem, rindo até dos escorregões, tentando argumentar sobre lua e estrelas.

Não é apenas por encerrar as férias. Não é apenas por ser em Janeiro-de-Belas-Noites. É por ser a comemoração do nascimento de uma grande amiga. Uma amiga que batizou-se no colo de minha mãe, e no colo de quem batizou-se meu filho. Uma amiga com quem compartilhei, no altar, ouvindo a mais linda das Ave Marias, olhares a Nossa Senhora da Assunção. E também, entregando nossas perdas e nossos ganhos, nossas dores e nossas gratidões, compartilhei outro dia mesmo olhares a Nossa Senhora da Boa Viagem rodeada por cavalos, cavaleiros e pelas bandeirinhas que nossos meninos agitavam ao som do Hino e de quase axés.  

Nesta noite – não há trinta anos, quando meus pais me levavam para comer gelatininhas multicoloridas e cantar parabéns em quentes tardes de janeiro –, nesta precisa noite, dirigi pela Anchieta levando meus filhos para casa depois de abusar do horário, e escutei Ira tocar no rádio. “Mais um ano que se passa… envelheço” – eu também. “Essa vida é jogo rápido”. É sim. Um jogo que dá muito gosto jogar.   

Escrito hoje. Para a Moira.

Nada? Tudo!

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O que a tia Andrea ensina?

Ensina a encorajar

Ensina a superar

Ensina a paciência

Ensina a persistência

Ensina a cantar

Ensina a respeitar

Ensina a Dona Aranha

E a parar de manha

Ensina os caras de pinguim

A pularem do trampolim

Ensina a bater perna

Com dedicação materna

Ensina menino e menina

E a mãe a organizar a rotina

A esperar na mesa

A boiar que é uma beleza

A enfrentar o mergulho

A ter de si mesmo orgulho

A valorizar a maternidade

A lidar com a realidade

A dar tempo ao tempo

Grande ensinamento

A entender cada criança

A nadar com confiança

Meu(s) doce(s) bebê(s)

Confio a você

Com um forte abraço e um beijo te diremos

Nosso carinho é pra você

 Davi, Pedro e Aline.

15 de outubro de 2011.

 

Uma homenagem à melhor professora do Mundo de Davi e Pedro.

Imagem: retrato em chocolate feito à mão por Cecília Vertamatti (18x24cm).

Pendurada num cipó

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Desde a madrugada senti palpitações. Talvez porque acordaria cedo com hora marcada depois de muito tempo de acasos. Talvez por tantos outros quês.

A respiração curta, muitos suspiros, nuvens no cérebro, uma calma ensaiada. Vivi as primeiras horas da manhã na expectativa. A questão não era o Davi em seu primeiro dia de aula. A questão eram os meus certificados: escolhi bem a escola? Preparei bem a criança? Entendi bem qual deve ser minha postura na adaptação? Fiz bem em matriculá-lo neste momento? E a derradeira: sou uma boa mãe?

Estudante uniformizado pronto para foto. Tentou um sorriso, mas espelhou minha testa crispada. Tentou sem sucesso alinhar as sobrancelhas paralelas.

As primeiras lágrimas forraram meus olhos quando vi de relance o horário no relógio do carro. 9:37h. foi a hora de seu nascimento. Isso dava algum número exato de dias, que alguém poderia calcular. Alguém – não eu tentando me lembrar o que deveria fazer diante do farol verde.

E um ar trêmulo de orgulho entrou na antessala de meus pulmões. Todos esses anos e meu bichinho criado artesanalmente. Orgânico. Sem aditivos. Taí.  Consegui, aos trancos e tropeços. Feito.

Chegando à escola pus-me a ler para o Davi a faixa de boas vindas aos alunos. Em voz alta. E trôpega. Outra vez aquele vazamento sobre a córnea. Seria uma telha palpebral quebrada?

Mas deu tudo muito certo. Fiquei ali sentada fingindo que lia enquanto meu independente filho subiu de mochila nas costas e mãos dadas com a professora para arrumar a escrivaninha de sua república no interior do estado. Não, não! Isso será só daqui a uns 14 anos. Hoje ele foi a cem metros de mim brincar de Corre Cotia. Mas uma parte minha queria que fosse de verdade na casa da tia. Ou no cipó da casa da avó. E só.

Observei, no trânsito dos bastidores de uma escola séria, que há problemas muito mais decisivos do que minha curiosidade quanto ao tipo sanguíneo da professora. E que não tenho com que me preocupar. Ele está se divertindo, interessado no mundo novo cujo portal acabou de cruzar.

Quando reaparece, meia hora depois do combinado – e reconheço tão nitidamente mais uma semelhança com o pai! –, arregalo os olhos de orgulho e saudade. Aquele sorrisinho ao lado do qual estalo um beijo é uma resposta a muitas perguntas.

Dirijo para casa ouvindo a voz doce dar algumas notícias interessantes e cuidando para não iniciar nenhum interrogatório. Fez uma amiga. Tem duas professoras. Não sabe nenhum nome. Quer voltar para a escola. Amanhã não. Hoje.

Mando uma mensagem de texto aliviada, alegre e agradecida para o marido. Ele responde dizendo que tem orgulho de todos nós, até de mim. Assino – a lápis, como sempre – alguns certificados e sinto a elevação, a queda e o looping de uma emoção fantástica, uma sensação de missão cumprida, de gratidão. E uma exaustão enorme, que momentos depois me faz sonhar capotada entre Pedro, Davi, Cebolinha e Woody.

Missa das sete

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Os meninos acordaram cedo, muito cedo. E eu fui logo convidando para a missa das sete.

O Pi respondeu que sim, empolgado, antes de entender do que se tratava. E, partindo do princípio de que tudo o que o irmão tem ele quer igual ou maior, o Davi também aceitou vibrando. Trocamos de roupa correndo, passei um paninho molhado nuns três olhos e meio e entreguei uma barrinha de cereal na mão de cada um.

No caminho, o Davi percebeu que era cedo: “mãe, só tem um grão de sol”. “É, filho, é a missa das sete”. Mas, na primeira curva do caminho o dia anunciou sua generosa luz. E ele: “mãe, tem muito sol na minha cara”. “Mas filho, não tinha um grão de sol só?” “Não, agora tem uma tigela de sol! Vai demorar muito pra chegar nessa missa das sete igrejas?”.

Só achei vaga de idoso para estacionar. Mas se algum amarelinho chiasse, haveria de existir algum velhinho disposto a simular sua entrada no carro, só pra me ajudar, não? Velhinho ali não faltaria. 

Corremos até a igreja. O Pi, sacolejando no meu colo, começou a rir e, logo em seguida, a gritar: “eu vou cair!!”. Achei melhor sossegar o balancê, porque seria essencial que eles ficassem com o fogo apagado ao menos por uma hora.

Entraram comportados. Sentaram quietos e esperaram. Uns trinta segundos. E então começaram a perguntar. Cadê a outra barrinha? Porque aquela luzinha está acesa? Posso deitar aqui? Quem é esse santo? E a pedir. A água. O colo. Que eu contasse história. 

Logo o tio avô subiu ao altar, para cantar o salmo. “Ó lá o tio Zé, filho”. “Não tô vendo”. “Ali em cima, perto da mesa do padre. Ó a careca dele lá”. “Ah, já vi. Ele tá cantando”.  “Viu, Pi? O tio Zé cantando lá em cima? Escuta. Ó, vai descer a escada. Tchaaau, tio Zé, tchaaau!” Ele abanou mãozinha na direção correta, certamente havia encontrado.

“Ah, eu vi o vovô”. Uai, e que eu tanto procurei ainda não achei… É mesmo! Jura que a gente conseguiu chegar antes dele? Uia! Ufa: chegou reforço. Mas nem precisou, eles estavam macios. Ao menos enquanto durou o lanchinho. E as minhas respostas catequéticas.

Antes que derrubassem o folheto, ou a água, ou o cofrinho de cerâmica que o Davi levou – sim, acreditem, ele levou um porquinho de cerâmica dentro da mochila – chegaram os momentos mais dinâmicos da celebração. Expliquei o ofertório da solidariedade e ouvi: “Isso é doação”.  Fiz a oferta e escutei: “Da próxima vez que a moça passar com essa sacolinha eu que quero pôr o dinheiro”.

E chegou a hora da comunhão. Meus batedores andaram por aquele corredor em fila indiana, por ordem de tamanho, compenetrados e tranquilos. Até que o Pedro viu alguma coisa que fez seus neuroninhos acenderem e deu meia volta, afoito: “A tsua bolsa! A tsua bolsa! Tá lá!” Apontei a bolsa no meu ombro e ele relaxou. Impediram um pouco o tráfego, mas, chegando à frente do padre, encantaram-se com alguma outra coisa.

Comunguei e me deparei com uma das cenas mais lindas que já vi: os dois de mãos dadas, em pé, de frente para o órgão e para os microfones.  E para aquela coleção de cabecinhas brancas que cantava sorrindo para eles. Contemplaram-se uns aos outros. Olhar profundo, silêncio e música.

Caminhemos, alma em festa

Ao encontro do Senhor!

É Jesus que está chegando,

É Natal no coração.

Tanto me alegrei, tanto agradeci, tanto me fez bem aquele momento. Aquelas duas mãozinhas unidas. O tempo parou. Agachei perto deles e vieram um sentar no meu colo e outro apoiar-se em nós dois.

Mostrei a pontinha do primeiro degrau do altar e pedi que fossem até lá. Ficamos sentados ali por alguns instantes, até que o Pedro resolveu correr em disparada até a nave central. Ciente de que poderia ter sido mais grave, capturei-os de volta para nosso banco.

Fomos embora logo, o dia estava cheio. Mas agora, certamente não estava apenas cheio de compromissos e horários, mas de Graça e de Bênçãos.

 

Escrito em 27.11.11

Álvares Cabral?

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Ele vem correndo torto. O terreno irregular aumenta sua ginga. Às vezes as bochechinhas balançam emoldurando um sorriso raio de sol.

Camiseta manchada com protetor solar, fralda cheia, sandálias coloridas. Os joelhos decorados completam o visual: rodela bordô de um lado e casca quase marrom do outro.

Especialmente corado, cabelos de angilim, poucos, lisos, longos, quase brancos. Brilham à luz do final da tarde menina de verão.

Aperta uma bola verde murcha sob o bracinho direito. Vai sem muito rumo.

Cruza comigo e solta um melado “quéru vussé!”. Prosseguimos de mãos dadas. Vamos ao pomar conhecer a plantação nova que fizeram com os avós há pouco.

Craquelando o tapete de folhas secas com seus passinhos aventureiros, percebe uma plaquinha de “aqui tem gente feliz”. “Uma tataúuuga!”, exclama. Cutuca, descasca, balança a plaquinha.

Enxerga um pedaço de melancia em decomposição. Aproxima-se, quer mexer. Voam insetos minúsculos, uma nuvem deles. Afasta-se. Avista outra plaquinha rodeada por mangas verdes, amarelas e também pretas de tudo. “Óia! Ôta miancíiiia!”. Refere-se à joaninha pintada a mão.

Tento despistá-lo do pomar. Em boa hora o irmão convida para um pega-pega. Corro atrás de um e sou perseguida pelo outrinho, que vai gritando: “vo-tseis-num-mi-pé-gão!!”.

Pede colo e assim que levanto seus quilinhos de branco amor ele exclama, derretido em surpresa: “’ávui di natáu!!”. Foi uma das dezenas de pinheiros da paisagem próxima que seus olhinhos de puro cristal avistaram.

Não é só ele que se pega descobrindo uma América por minuto. Sou eu também. Obrigada, Pizinho, por me emprestar seus santos olhinhos.

Febre

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 Na última tarde do ano, convivemos com um Davi corado, suado, lindo, interessado nos presépios, Papais Noeis e capivaras do condomínio onde passamos os feriados, e emotivo além da conta. Está com febre. Mas não parece estar doente.

Passo bons minutos da tarde lendo com ele nosso livrinho de fonologia. Entre “assar” e “achar”, “ganso” e “gancho”, damos boas gargalhadas de alegria e concluímos que ficamos “cheios” de orgulho pelas suas aquisições.

Horas mais tarde, depois da soneca, 38º C instalados, me vê carregando a sacola laranja na qual viajaram os tênis de festa. “Essa sacola é do uniforme da minha escola nova, que eu já vou amanhã, porque amanhã é o ano que vem”. Ah, a febre começa a explicar-se.

Passa as últimas horas do ano despenteado de suor, roupinha branca amassada sob um cobertor de soft, deitadinho no sofá da varanda. Sorri às vezes, participa do que pode, até que come. Mas o que quer mesmo é recostar-se num adulto quente e querido.

Dorme no andar de baixo do meu colo. No andar de cima está o irmão. Dois rostos lindos e angelicais, olhos brilhantes bambos ao som da minha voz cantante: “Meu amor, essa é a última oração…Pra salvar seu coração/Coração não é tão simples…nele cabe até o meu amor”.

Rosna ao ser pego no colo pelo pai, resmunga ao ser colocado na cama, choraminga bravo ao vestir o pijama. Não quer dormir ainda, não sob o temor dos fogos de logo mais. Ficamos com ele. Logo os gemidinhos de contrariedade dão lugar ao estalido da boca chupando os dedos e ao ressonar ruidoso de exaustão. Não acordam nem com os rojões do vizinho às doze badaladas.

Amanhece o primeiro dia do novo ano. A companhia dos pais prolonga o soninho. Manhã já iluminada, vejo seu rostinho descansado sorrir para mim e escuto sua doce voz anunciar: “Bom dia mamãe. Feliz ano novo. Não tô mais com febre. E olha, eu já sei falar “shhh”.

Febre explicada. Essa foi das boas. Que as outras que vierem em 2012 sejam assim tão bem intencionadas.