Missa das sete

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Os meninos acordaram cedo, muito cedo. E eu fui logo convidando para a missa das sete.

O Pi respondeu que sim, empolgado, antes de entender do que se tratava. E, partindo do princípio de que tudo o que o irmão tem ele quer igual ou maior, o Davi também aceitou vibrando. Trocamos de roupa correndo, passei um paninho molhado nuns três olhos e meio e entreguei uma barrinha de cereal na mão de cada um.

No caminho, o Davi percebeu que era cedo: “mãe, só tem um grão de sol”. “É, filho, é a missa das sete”. Mas, na primeira curva do caminho o dia anunciou sua generosa luz. E ele: “mãe, tem muito sol na minha cara”. “Mas filho, não tinha um grão de sol só?” “Não, agora tem uma tigela de sol! Vai demorar muito pra chegar nessa missa das sete igrejas?”.

Só achei vaga de idoso para estacionar. Mas se algum amarelinho chiasse, haveria de existir algum velhinho disposto a simular sua entrada no carro, só pra me ajudar, não? Velhinho ali não faltaria. 

Corremos até a igreja. O Pi, sacolejando no meu colo, começou a rir e, logo em seguida, a gritar: “eu vou cair!!”. Achei melhor sossegar o balancê, porque seria essencial que eles ficassem com o fogo apagado ao menos por uma hora.

Entraram comportados. Sentaram quietos e esperaram. Uns trinta segundos. E então começaram a perguntar. Cadê a outra barrinha? Porque aquela luzinha está acesa? Posso deitar aqui? Quem é esse santo? E a pedir. A água. O colo. Que eu contasse história. 

Logo o tio avô subiu ao altar, para cantar o salmo. “Ó lá o tio Zé, filho”. “Não tô vendo”. “Ali em cima, perto da mesa do padre. Ó a careca dele lá”. “Ah, já vi. Ele tá cantando”.  “Viu, Pi? O tio Zé cantando lá em cima? Escuta. Ó, vai descer a escada. Tchaaau, tio Zé, tchaaau!” Ele abanou mãozinha na direção correta, certamente havia encontrado.

“Ah, eu vi o vovô”. Uai, e que eu tanto procurei ainda não achei… É mesmo! Jura que a gente conseguiu chegar antes dele? Uia! Ufa: chegou reforço. Mas nem precisou, eles estavam macios. Ao menos enquanto durou o lanchinho. E as minhas respostas catequéticas.

Antes que derrubassem o folheto, ou a água, ou o cofrinho de cerâmica que o Davi levou – sim, acreditem, ele levou um porquinho de cerâmica dentro da mochila – chegaram os momentos mais dinâmicos da celebração. Expliquei o ofertório da solidariedade e ouvi: “Isso é doação”.  Fiz a oferta e escutei: “Da próxima vez que a moça passar com essa sacolinha eu que quero pôr o dinheiro”.

E chegou a hora da comunhão. Meus batedores andaram por aquele corredor em fila indiana, por ordem de tamanho, compenetrados e tranquilos. Até que o Pedro viu alguma coisa que fez seus neuroninhos acenderem e deu meia volta, afoito: “A tsua bolsa! A tsua bolsa! Tá lá!” Apontei a bolsa no meu ombro e ele relaxou. Impediram um pouco o tráfego, mas, chegando à frente do padre, encantaram-se com alguma outra coisa.

Comunguei e me deparei com uma das cenas mais lindas que já vi: os dois de mãos dadas, em pé, de frente para o órgão e para os microfones.  E para aquela coleção de cabecinhas brancas que cantava sorrindo para eles. Contemplaram-se uns aos outros. Olhar profundo, silêncio e música.

Caminhemos, alma em festa

Ao encontro do Senhor!

É Jesus que está chegando,

É Natal no coração.

Tanto me alegrei, tanto agradeci, tanto me fez bem aquele momento. Aquelas duas mãozinhas unidas. O tempo parou. Agachei perto deles e vieram um sentar no meu colo e outro apoiar-se em nós dois.

Mostrei a pontinha do primeiro degrau do altar e pedi que fossem até lá. Ficamos sentados ali por alguns instantes, até que o Pedro resolveu correr em disparada até a nave central. Ciente de que poderia ter sido mais grave, capturei-os de volta para nosso banco.

Fomos embora logo, o dia estava cheio. Mas agora, certamente não estava apenas cheio de compromissos e horários, mas de Graça e de Bênçãos.

 

Escrito em 27.11.11

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