Pendurada num cipó

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Desde a madrugada senti palpitações. Talvez porque acordaria cedo com hora marcada depois de muito tempo de acasos. Talvez por tantos outros quês.

A respiração curta, muitos suspiros, nuvens no cérebro, uma calma ensaiada. Vivi as primeiras horas da manhã na expectativa. A questão não era o Davi em seu primeiro dia de aula. A questão eram os meus certificados: escolhi bem a escola? Preparei bem a criança? Entendi bem qual deve ser minha postura na adaptação? Fiz bem em matriculá-lo neste momento? E a derradeira: sou uma boa mãe?

Estudante uniformizado pronto para foto. Tentou um sorriso, mas espelhou minha testa crispada. Tentou sem sucesso alinhar as sobrancelhas paralelas.

As primeiras lágrimas forraram meus olhos quando vi de relance o horário no relógio do carro. 9:37h. foi a hora de seu nascimento. Isso dava algum número exato de dias, que alguém poderia calcular. Alguém – não eu tentando me lembrar o que deveria fazer diante do farol verde.

E um ar trêmulo de orgulho entrou na antessala de meus pulmões. Todos esses anos e meu bichinho criado artesanalmente. Orgânico. Sem aditivos. Taí.  Consegui, aos trancos e tropeços. Feito.

Chegando à escola pus-me a ler para o Davi a faixa de boas vindas aos alunos. Em voz alta. E trôpega. Outra vez aquele vazamento sobre a córnea. Seria uma telha palpebral quebrada?

Mas deu tudo muito certo. Fiquei ali sentada fingindo que lia enquanto meu independente filho subiu de mochila nas costas e mãos dadas com a professora para arrumar a escrivaninha de sua república no interior do estado. Não, não! Isso será só daqui a uns 14 anos. Hoje ele foi a cem metros de mim brincar de Corre Cotia. Mas uma parte minha queria que fosse de verdade na casa da tia. Ou no cipó da casa da avó. E só.

Observei, no trânsito dos bastidores de uma escola séria, que há problemas muito mais decisivos do que minha curiosidade quanto ao tipo sanguíneo da professora. E que não tenho com que me preocupar. Ele está se divertindo, interessado no mundo novo cujo portal acabou de cruzar.

Quando reaparece, meia hora depois do combinado – e reconheço tão nitidamente mais uma semelhança com o pai! –, arregalo os olhos de orgulho e saudade. Aquele sorrisinho ao lado do qual estalo um beijo é uma resposta a muitas perguntas.

Dirijo para casa ouvindo a voz doce dar algumas notícias interessantes e cuidando para não iniciar nenhum interrogatório. Fez uma amiga. Tem duas professoras. Não sabe nenhum nome. Quer voltar para a escola. Amanhã não. Hoje.

Mando uma mensagem de texto aliviada, alegre e agradecida para o marido. Ele responde dizendo que tem orgulho de todos nós, até de mim. Assino – a lápis, como sempre – alguns certificados e sinto a elevação, a queda e o looping de uma emoção fantástica, uma sensação de missão cumprida, de gratidão. E uma exaustão enorme, que momentos depois me faz sonhar capotada entre Pedro, Davi, Cebolinha e Woody.

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  1. Aline, vc só me conhece por telefone. Fui terapeuta de sua mae algum tempo. Estou maravilhada em ler como vc retratou com delicadeza, coragem e sinceridade as emoções, e sentimentos de uma mae em relação a sua cria. Mais uma etapa e assim eles vao crescendo e desbravando esse mundão de Deus levando dentro de si a centelha divina herdada de nós (os pais), (os avós), os bisavós e assim sucessivamente . O seu texto é mágico como a vida. Parabens e agradeço a sua mãe por compartilhar comigo seu blog. Hoje alem de mae sou avó.Tudo que vc relatou vem com uma carga emocional duplicada pra nós, as avós.Parabens! Vou compartilhar com minha filha que esta me trazendo mais um bebe, mais uma obra de Deus enviada através dela e seu parceiro.

  2. Pingback: Cadeira amarela « Cotidiamo

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