Mais um ano que se passa

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Nesta tarde de sol quente,

encomendada de presente,

a quem merece imensamente,

o privilégio a gente sente:

nós duas e nossos meninos,

passeando pelo condomínio,

sentimento do mais genuíno,

uma declaração eu assino.  

Que os dois pares de olhinhos abstêmios não me vissem, mas precisei pôr um dedo de Coca Cola num copinho descartável. Engoli com sofreguidão. Quase engasguei, o nariz coçou, os olhos, envesgando, lacrimejaram. Há dezoito ou vinte anos meu organismo respondia mais suavemente a essa solução de cafeína, gás carbônico e pó de pirlimpimpim – ou o que quer que fosse – e eu ria de chorar, gargalhava de rolar e enchia outro copo. Numa noite de janeiro, linda como a de hoje.

Naquele episódio, além da alegria, o sono certamente contribuía para o espetáculo. Mas esta noite, passadas duas décadas, o sono ficou mais evidente na geração seguinte. Davi cantarolava com o queixo apoiado dentro do prato sobre uma rodela de calabresa. A madrinha aniversariante, deleitando-se ao som de um afinadinho “Smoke on the water”, selecionava histórias para contar aos nossos três pequenos. Os dois mais elétricos pulavam nos assentos, sobre pedacinhos de mussarela e papéis de Sonho de Valsa. O terceiro rendia-se, deitado em duas cadeiras.

Numa linda noite do final de janeiro, como hoje, minha vida mudou. Uns nove quilos atrás, uns nove anos mais leve, eu conhecia o homem da minha vida. Naquela noite, a vontade de nunca mais ir embora usava como desculpas a folga do domingo e a certeza da amizade. Por muitos meses, alguns anos, nossos maridos formaram conosco um quarteto inseparável. Hoje estiveram cuidando de seus assuntos, dando a nós a tremenda oportunidade de curtirmos uma à outra e de detectarmos, muitíssimo satisfeitas, que os filhos já permitem que sentemos juntas e em paz, enquanto se afundam por si sós num mar de dinossauros sem braço, carrinhos sem roda e bolos sem mais nenhuma cereja.

Quanto à vontade de não mais ir embora, foi transmitida geneticamente aos estômagos do meu par de meninos: um deles reclamando com premência o presente que há algumas horas entregara à madrinha – um anel tão lindo quanto bijouteirento, cujo brilho prateado conquistou-o definitivamente na vitrina do bazar. O outro, comendo o que lhe oferecessem, rindo até dos escorregões, tentando argumentar sobre lua e estrelas.

Não é apenas por encerrar as férias. Não é apenas por ser em Janeiro-de-Belas-Noites. É por ser a comemoração do nascimento de uma grande amiga. Uma amiga que batizou-se no colo de minha mãe, e no colo de quem batizou-se meu filho. Uma amiga com quem compartilhei, no altar, ouvindo a mais linda das Ave Marias, olhares a Nossa Senhora da Assunção. E também, entregando nossas perdas e nossos ganhos, nossas dores e nossas gratidões, compartilhei outro dia mesmo olhares a Nossa Senhora da Boa Viagem rodeada por cavalos, cavaleiros e pelas bandeirinhas que nossos meninos agitavam ao som do Hino e de quase axés.  

Nesta noite – não há trinta anos, quando meus pais me levavam para comer gelatininhas multicoloridas e cantar parabéns em quentes tardes de janeiro –, nesta precisa noite, dirigi pela Anchieta levando meus filhos para casa depois de abusar do horário, e escutei Ira tocar no rádio. “Mais um ano que se passa… envelheço” – eu também. “Essa vida é jogo rápido”. É sim. Um jogo que dá muito gosto jogar.   

Escrito hoje. Para a Moira.

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