Arquivo mensal: fevereiro 2012

Verde até o último fio de cabelo

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Então, como a tarde está linda e eu cansei da irritação que me causa uma pasta comunitária de documentos, saí com os meninos para comprar novas pastas no bazar.

O Pedro quis a verde, mas não menciono isso pelo fato de que a cor tem sido sua preferência nacional e o critério para escolher o giz de cera, a gelatina, as roupas, sapatos, brinquedos e, inclusive, a cor do cabelo. (Outro dia, no espelhão do elevador, com mãe e pai resmungando os cabelos brancos, o Davi declarou que estamos ficando velhos. E eu, prontamente, disse que não, cabelo branco é uma coisa normal, todo mundo tem, até o Pedro, que é bem novo. E antes que ele pudesse soltar sua risada esperta, o Pi vociferou: “meu cabelo não-é-ban-cô! É vei-djí!!”.)

Menciono que o Pi escolheu a pasta verde para que todos visualizem esta réplica do Piu-Piu sambando pelas calçadas arrebentadas e defecadas dos arredores de casa com uma pasta-aba-elástico-verde-bandeira defronte seu tronquinho. E mão suada obediente dada à mãe.

O Davi aceitou devolver a sua pasta transparente para a sacola quando impus tal condição para continuarmos o passeio. Ele queria atravessar a rua, para chegar onde “nunca fui na vida”. Sei. O bom foi que o caminhão das frutas meio que quebrou nessa hora e, enquanto o motorista rastejava de costas no asfalto para resolver a questão, tivemos tempo de seguir o som do “morango vermelhinho barato, barato”. Compramos. “Obrigado, mamãe, por ter comprado morango vermelhinho pra mim”.

Daí, fiz milk shake pra um, o outro preferiu in natura. Kalaro que eu quis tudo. E eis que, dada a primeira mordida no morango vermelhinho, t.o.d.o.s os pelos do meu braço levantaram vôo. Azedo. O Pi riu da minha careta. Com os olhos cheios de lágrimas mostrei o braço e ele, de boca aberta, disse: “Ah. Que pena…”. O Davi ficou impressionado com a quantidade de pelos que tenho – e eu tinha esquecido que é mesmo impressionante. Quase tão impressionante quanto a quantia de cabelos brancos…

Com bigode de milk shake, o Pi pediu colo. Peguei-o. “Você é meu nenezinho?”. “Não, sô u Pêdu Gebélli”. Mais lágrimas nos meus olhos, mas agora não por conta do azedo, e sim do doce extremo. “Vussê ta fiíz?”, perguntou meu pequeno, com olhos espremidos, nariz franzido, sorriso exagerado. Beijei seu cabelo verde até não poder mais e respondi que sim.

Se ele é o Pedro Gerbelli, está explicada a cor preferida.

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Atchim, tchim!

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Algumas coisas deram certo demais da conta hoje.

Dancei Zouk na academia. Quem? Eu. A mesma pessoa que por anos foi magnetizada pelas cadeiras mais escondidas nos bailinhos. A mesma pessoa que só consegue permanecer em uma pista de dança em festa de casamento se estiver com uma ou mais crianças no colo.

(Então aproveito a oportunidade para contar que ontem, na mesma academia, eu joguei um basquetebol daqueles. Quem? Eu! A mesma pessoa que passava horas desmarcada dentro do garrafão na quadra da escola, pulando com os braços para o alto e declamando os nomes das colegas que passavam a bola entre si enquanto me ignoravam.)

Achei uma larga vaga para estacionar o carro exatamente em frente ao consultório de nossa médica, pela primeira vez em três anos. E na sombra.

Acertei o caminho das Perdizes para a Vila Pires, apesar das obras, das placas tortas, do calor, do falatório, choratório, gritatório, reclamatório e – especialmente – do perguntatório no banco de trás.

Agarrada a um fino fio de esperança de ter em casa o remédio que o Davi precisa tomar amanhã ao despertar, sentei diante da transbordante caixinha das letras B, I, K, L e M. Um riso bufado escapou quando li logo o rótulo do terceiro frasquinho que peguei nas mãos: medicamento certo, potência certa, forma certa, dentro da validade.  

“Atchim, tchim”. Isto quer dizer “assim, sim”, “muito bem”, “certo”, “bingo”, “aê, hein!”.

Exame alienígena

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Tio médico: Vocês são Gerbelli! Seu pai é psiquiatra?

Aline: Não…

Alien: Certamente que não, nem aqui nem em Xangai, mas que ele é pratecamente um adevogado, ah, isso ele é.

Tio médico: Primeiro o Davi, senta aqui.

Davi senta quase de costas para o médico.

Tio médico: O Davi tem algum problema de saúde? Toma algum remédio? Reclama de algum problema ortopédico?

Aline: Não. Não. Não.

Ausculta o peito. Tira os sapatos, tira as meias, mostra os pés.

Tio médico: Hum… Tá precisando secar melhor o pezinho esquerdo, por causa dessas bolhinhas.

Alien: Oi? O direito não?

Tio médico: Agora o Pedro.

Pedro: Não quero.

Aline: Senta aqui.

Pedro foge e se esconde atrás da bicicleta ergométrica.

Aline: Então é a vez da mamãe.

Tira os sapatos, tira as meias, mostra os pés.

Tio médico: Você vai fazer exame também?

Alien: Apenas agora que estou descalça essa importante questão me ocorre!

Aline: Eu entro na piscina com ele na aula de bebês.

Tio médico: Ah… Mas você não nasceu em 2007, essa data tá errada? Ah, tá, é ele né… Você tem algum problema de saúde? Toma algum remédio?  Algum problema ortopédico?

Aline: Não. Não. Não.

Enquanto respondo, o Pedro se aproxima e é capturado por mim. Tiro seus sapatos, meias, solto um viiiiixi de espanto sobre a condição das frieiras.

Tio médico:  Tá com uma descamaçãozinha, né?

Aline: Então… é uma luta!

Ausculta Pedro, ausculta a mim. Enquanto isso o Davi foge com os sapatos e as meias do irmão. Devolve a prestações. Quando me vejo calçada e sem ninguém no colo, percebo que os dois estão quase montados na bicicleta ergométrica.

Tio médico: Vai parar por aí?

Alien:  Como assim cê fala, parar aqui na cadeira? Não, vamos pra natação… Já vou tirar eles daí. Ah, tá, em quantia de filhos!

Aline: Eu não gostaria de parar, mas por enquanto não vamos ter mais, não.

Tio médico: Hum… Você quer uma menina.

Aline: Olha… Eu quero, mas mesmo que só existisse menino eu teria mais um.

Tio médico: Ah, você quer ser mãe novamente.

Alien:  Quanta sensibilidade!

Aline: É.

Tio médico: Isso é uma coisa que o homem nunca sente.

Alien: Olha, tirando por lá em casa, é exatamente a parte homem que não quer ser mãe novamente.

Tio médico: Assina aqui.

Aline: Essa parte de gestação, parto, amamentação me encanta muito.

Tio médico, já guardando as fichinhas: Isso que eu falo que o homem nunca vai saber.

Eis que surge uma brecha para eu soltar meu verbo… Alguma coisa naquela consulta me deixou à vontade. Talvez o alívio por não ser filha de psiquiatra.

Aline: O Pedro nasceu em casa, foi uma experiência maravilhosa.

Tio médico: Ele?! – pega as fichinhas novamente. Inspira e vai: E foi tudo bem? Não teve nenhuma intercorrência? Ele não teve nenhum probleminha?

Aline: Sim. Não. Não.

Tio médico: O médico estava presente?

Aline: Uma parteira.

Tio médico: E você não teve nenhum problema de períneo?

Aline: Tive uma laceração de segundo grau, pequenininha, bem menor que a episio gigante do parto do Davi.

Tio médico: E quem fez a sutura, a parteira?

Aline: É. Mas se eu pudesse voltar eu deixaria sem suturar.

Tio médico: Ah… Nos Estados Unidos isso tudo é muito comum.

Alien: Pra você “o Estados Unidos” é igual “o exterior?” Não vou te dizer que na mente espacial do Davi seja assim, mas na do Pedro bem que pode ser…

Aline: É, né? Na Europa, na Holanda… Vamos meninos!

Ninguém se move. Seria mais fácil arrastar a bicicleta ergométrica.

Aline: Então tá, cês vão ficar aí, né?

Tio médico: Cês vão ficar aqui ajudando o tio a examinar os pés das pessoas?

Alien:  Cês vão ficar aqui ajudando o tio a perguntar sobre os períneos das pessoas?

Os dois saem correndo do consultório.