Arquivo mensal: março 2012

Bicolor

Padrão

Alilás,

Amareloucura.

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Sim. Please.

Padrão

Volta da escola

Encontram-se irmãos

Adia soneca

Lutam de espadas

Repedem desculpas

Destroem as armas

Chora de sono

Vai para o quarto

Nega dormir

Dorme com anjos

Mãe companhia

Exercício da fono

Unhas pintadas

Algumas risadas

Compartilhivros

TV e PC

Porta abre

Pezinhos no chão

Sofá recheado

Retorna o irmão

Suco e banana

Agora o bolinho

Cheiro de filho

Quero mais

Peraí

Eco contratado

Bora pro fogão que tem duas bocas crescidas pedindo mais pão

Exagérese

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Nenhuma vez me disseram o nome desse troço. Tá escrito “e-caligrafiaruím-ese”. Nas idas e vindas do agendamento, eu arrisquei todas as pronúncias que me pareceram possíveis, e só ouvia em resposta um “hum” – em todos os casos. Hoje na clínica resolveram chamar de “procedimento”. Procedimento é escovar os dentes. Estacionar o carro. Dobrar um lençol de elástico…

Clínica cirúrgica, procedimento cirúrgico, sala cirúrgica, maca cirúrgica, campo cirúrgico. E eu ali, deitadinha, durinha, sensivelzinha. Para a retirada de um cisto cebáceo.

A última vez em que aconteceu algo parecido foi na despedida do meu último terceiro molar. (O quarto, então, hehe). Uns vinte e um anos, eu devia ter. E chorei a tarde inteira tomando sorvete no sofá da sala. De pura dó de mim.

Já as primeiras vezes em que passei por algo assim… Inesquecíveis: Aos quatro anos pulava na cama obstinadamente e ouvia a ameaça “cabra maluca quebra os cornos”, como um mantra dando ritmo à molequice.  Caí de testa no baú de cabeceira. Lembro da pia do banheiro cheia de gelo e sangue, e de ter manchado a jaqueta (“capinha”) branca que minha avó tinha lavado na véspera – esse detalhe é o que faz mais efeito no Davi quando conto essa história para que ele pare de pular na cama, ou obedeça, ou saiba que eu, quando criança, também pulava na cama e desobedecia: a capinha branca recém lavada toda manchada de sangue. Dias depois, fui tirar os pontos engatinhando pela calçada, por dois quarteirões, de tanta birra que eu fiz e de tanta firmeza que minha mãe teve.

Aos cinco, operei do primeiro ssisstossebásseo, que eu denominava com o charme do ceceio anterior. Cenas de terror na sala de espera, depois de muito-muito esperar, quando a enfermeira resolveu (coitada, não foi ela que resolveu isso, eu sei) que minha hora tinha chegado. Bem aquela hora, em que minha mãe tinha ido rapidinho no carro amamentar meu irmãozinho. Eu lá no colo da minha avó, de onde não queria sair em hipótese alguma, muito menos para o colo de uma desconhecida vestida de branco, que me puxava com muita força. “Não deixa eles fazerem isso comigo, vó!” – eu gritava o mais forte possível. Ela, com suas unhas vermelhas e seu colo macio, provavelmente partida entre o dever e o querer, precisou me entregar. Logo um cheirinho fumacento de morango calou meus prantos. E depois da alta eu ganhei cachorro quente e brigadeiro.

Hoje, olhando para aquele tudo branco comecei e me sentir uma verdadeira vítima. A posição paradoxal de passividade em que a gente se encontra nesses casos é demais para mim: o corpo é meu, a coxa esquerda é minha, o cisto é meu e só o que eu posso fazer é respirar e relaxar. (Para quem gagueja isso é péssimo de se ouvir. E para quem se submete a uma e-sabe-lá-o-que-de-lesão-cística também.)

Esperei, por cinco picadas, a anestesia pegar. A partir daí, só tive que abstrair do remelexo que ocorria em minha perna para iniciar uma linda viagem pelos caminhos da imaginação. É claro que foi então que me lembrei dos detalhes acima descritos, e – especialmente na parte da capinha branca, da unha vermelha e do brigadeiro – eu solucei. O que fez a enfermeira perguntar se estava tudo bem, dizer para eu respirar e para eu relaxar. Paciência.

Conheci os pequenos furinhos interrompendo o branco eterno da parede azulejada, as bolhinhas da pintura branca do suporte da luminária. Ouvi barulhinhos que tentei, em vão, ignorar. Está cortando? Está queimando? O que ele está ligando? Cocei uma coceirinha no pescoço. Tocou meu celular. Duas vezes. Pedi desculpas – uma vez só, hehe.

Lembrei de uma vez em que o otorrino da minha paciente me disse por telefone com sua irônica voz que, sabe como é, era melhor eu não acompanhar a frenectomia dela não, porque eu podia desmaiar.  Naquela oportunidade eu tentei argumentar até onde a humilhação permitia, mas hoje eu diria, muito serenamente, “o senhor tem toda razão”.

Deitada naquela maca, vendo a hora passar, eu decidi que sim, eu era forte, eu era uma profissional da saúde muito bem formada, mas livre para optar por não espiar nada que estivesse acontecendo em frente ao Dr. Dermatologista. Foi quando um movimento ocular rebelde e insubordinado fez com que eu visse uns dedos de luva sujos de sangue. Pronto! Destruiu meu sonho. Justo quando um arco íris com fim em si mesmo emoldurava minhas lúdicas imagens de esferas perfeitas e branquíssimas saindo de dentro da minha pele e flutuando para a atmosfera, compondo com o tom salmão do meu vestido uma cena digna de Jelly Jam.  

Bem, depois de tudo terminado, doctor D. foi muito nobre em me estender sua pinça com aquela… verdadeira… bola de sebo pendurada na ponta. Mais nobre que o obstetra que negou-se a me mostrar a placenta do meu filho. Será que é porque o bebê ficou só nove meses dentro de mim, enquanto que o cisto ficou logo uns vinte anos? Hum…

Sei que, oscilando entre o lugar comum do alívio pelo fim da novela cirúrgica e o temor do que meu corpo possa vir a aprontar agora, eu muito me confortei ao rezar no começo e no final de tudo a invocação a Santo Inácio de Loyola: “Dentro de Vossas chagas escondei-me”. Certamente, é das chagas e dessa súplica ao bom Jesus que vou me lembrar sempre que olhar para essa cratera em minha perna e para a cicatriz que agora faz parte da minha história.

A horta do vô Pedro*

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Perto do centro de São Bernardo, num bairro chamado Vila Duzzi, morava um bisavô.

Velho, brincalhão, grandão e muito forte, ele gostava muito de comer feijão, de pescar na represa Billings, de consertar coisas em seu porão e de cuidar de sua horta no quintal.

No porão, tudo era escuro e tinha um cheiro fechado.

Lá, uma vez por ano, ele fazia vinho. Esse é um jeito de aproveitar a agricultura, porque as uvas são colhidas, esmagadas, misturadas com açúcar e fermentadas, e depois ficam em grandes vidros, chamados tinas, borbulhando até o vinho ficar pronto para os adultos beberem. Essas borbulhas fazem um barulho engraçado, e o vô Pedro achava que pareciam sapos.  As crianças gostavam de entrar no porão do vô Pedro para escutar os sapos coaxando. 

Na horta, tudo era iluminado pelo sol, e tinha um cheiro aberto e muito ventilado.

Lá, ele já plantou muitas coisas. Salsinha, cebolinha, manjericão e manjerona, que eram usados como temperos.  

Alecrim, boldo, louro e hortelã podem temperar também, mas ele usava principalmente para fazer chás. Uma erva chamada marcelinha galega, que ele também plantava em sua horta, dava um chá ótimo para fazer a dor de barriga passar.

Almeirão e alface eram as verduras que ele mais plantava. O almeirão, que ele chamava de “almerôn”, crescia muito bem em sua horta, e ele adorava comê-lo na salada, mas as crianças achavam um pouco amargo…

Quando as plantações estavam novinhas, com as folhinhas começando a crescer, ele dizia que era um “berçário”. Então, colocava espantalhos na horta, para os passarinhos não chegarem nem perto. Uma vez, as crianças tentaram fazer um espantalho com roupas de verdade e um chapéu velho, mas normalmente os espantalhos que ele usava eram mesmo pedaços de ferro comprido enfiados na terra, que balançavam com o vento. Um bom jeito de aproveitar as sucatas…

Também plantava limão e tomate. O Davi, bisneto do vô Pedro, aprendeu a gostar de tomates quando comeu um tomate da horta, quando ele tinha um aninho. Nesse dia, ele se lambuzou muito… e até hoje adora tomates.

Por muitos anos a horta foi em chão de terra. Depois, foram cimentados uns corredores ao redor das áreas de plantação, e ninguém podia pisar nos canteiros (isso evitava que os pés sujos de barro deixassem pegadonas de avô e pegadinhas de netos por toda casa). Os netos brincavam que os corredores eram ruas e avenidas, escreviam neles seus nomes com giz de lousa e brincavam de trânsito com suas bicicletas e motocas.

Nos finais de tarde sem chuva, ele aproveitava o ar livre regando sua horta com a mangueira, enquanto músicas antigas e instrumentais tocavam no radinho a pilha que ficava lá no alto da escada. É, o rádio ele não queria molhar… Mas se estivesse calor e alguma criança sapeca passasse por ali, era banho de mangueira na certa!

Depois, os netos cresceram e o vô Pedro ficou mais velho.  Já não era tão fácil para ele ficar ajoelhado adubando, removendo mato, plantando e colhendo. Então, foram construídas áreas elevadas para os canteiros. Assim, o bisavô pode cuidar da horta ainda por muito tempo.  

Em alguns canteiros, ao invés de horta de alimentos, havia belas flores. Algumas, o vô plantava para embelezar. Outras, apareciam ali de surpresa, plantadas pelos passarinhos e borboletas do bairro, que carregavam pólen de outros quintais. Acho que os passarinhos e insetos faziam isso em sinal de gratidão, porque deviam gostar muito de sobrevoar esses pedacinhos de natureza no meio da cidade.

Além de ervas e vegetais, o vô Pedro plantou muitas coisas boas em sua longa vida. Depois de bater por oitenta e sete anos com muita saúde e energia, o coração do vô Pedro parou, e hoje ele mora lá no Céu. Nos dias em que o seu xará, São Pedro, não manda chuva, o vô dá fortes gargalhadas enquanto rega uma bela horta nas nuvens…

 

Para Davi, Pedro, Alice, Artur, Riquelmi e Renan.

Postado em comemoração ao aniversário natalício de 90 anos do saudoso vô Pedro.

* Livro artesanal, elaborado como contribuição ao projeto “Cooperativas agrícolas: plantadores do bem”, da escola do Davi.

Visceral

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Saltitou por três dias antes de só se aguentar deitado de bruços. Numa pacata tarde resolveu render-se e, pulando miudinho, anunciou: “mamãe, preciso ir no no banheiro, rápido, rápido”. Depois de ajeitado, pediu privacidade. Bateu as perninhas até saírem voando bermuda e cueca. Começou a falar sozinho. A transpirar. A espremer os olhos, morder os lábios. A gemer. A gritar.

“Tá precisando de alguma coisa?”. “Não. Aiaiai. Dói muito. Fica comigo.”. Sentei no chão, despejei as trinta histórias de que tudo o que entra sai e de que tudo termina bem, se ainda não deu certo é porque não terminou. O suor fez uma gota na pontinha do nariz.

Bracinhos doendo por apoiar na bacia, barriga doendo, bumbum doendo. Dobrei seu tronco, berrou com medo de cair. Fiz massagem na barriga, piorou a dor. Sugeri outras inutilidades, foram mesmo inúteis.

Ele negava qualquer progresso que o aroma estivesse anunciando. Pedia ajuda mecânica, mas não possuíamos vacuoextrator.

Hiponasal, avisei que ia esperar lá fora. Com braços salgados e arrepiados, ele me segurou: precisava de mim. Fiz mais um pouco do mesmo.

Saí decidida e retornei com uma folha de jornal. “Mas eu nunca fiz isso”. “Tudo tem uma primeira vez.” “Você sempre fala isso. Jornal nãaao!”.

Carreguei-o rígido e entupido. Gritou mais, transpirou mais, olhava através de mim, dor de pavor. Joelhos estirados, negava-se a debutar sobre o anúncio de geladeiras das Casas Bahia. O penico do irmão, nem pensar. Não dispomos de moita, senhor…

Berrou muito mais. Devolvi-o ao trono. Tudo igual, menos o meu estado de espírito.

O desespero e o descontrole dele refluiram até mim pelo cordão umbilical que dizem que não existe mais. Gritei, também eu desesperada: “é só um cocôooo!!!”.

Última força. Pedra na água. Arqueado, ele voltou a respirar. “Muito bom… Quero tomar uma ducha. Quero ficar com você, mamãe.”

O sertão virou mar. O vinho, água. A hora do rush, manhã de domingo. O fogo, fumaça. A trave, cisco. O urubu, meu loro. Desenfezamo-nos.

Segredo

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Com cinquenta e quatro meses, dezoito mil e seiscentos gramas, cento e sete centímetros, ele queria subir numa pilha de dois pufes. Avisado sobre o perigo, esperou-me terminar de guardar as roupas nas gavetas apertadas para segurar minha mão.

Unhinhas compridas e sujas apertando meus dedos, sorriso emoldurado por um sujo de chá com mel: conseguiu.

Lá em cima, ficou maior que eu. Abraçamo-nos. Suadinho antes do banho, bafinho de tosse e infância.

Contei pra ele, ao pé do ouvido, que daqui a muitos anos ele vai ser mesmo desse tamanho e vamos dançar juntos quando ele terminar a escola de adultos. E que nesse dia eu vou dizer que ele era meu bebê, meu menino, e que sempre morou no meu coração. E vou lembrá-lo do tempo em que eu cortava suas unhas.

Perguntou-me preocupado se quando ele crescer eu não vou mais poder cortar as unhas dele. Respondi que vou poder cortar, sim, se ele quiser. Sorriu com seus muitos cílios e pequenos dentes.

Cantarolei uma valsa, ficamos dançando no lugar, abraçados sem pressa. Segredou quente, boquinha colada na minha orelha: “eu te amo”. Ri choramingando: “também te amo muito, pra sempre”.