Visceral

Padrão

Saltitou por três dias antes de só se aguentar deitado de bruços. Numa pacata tarde resolveu render-se e, pulando miudinho, anunciou: “mamãe, preciso ir no no banheiro, rápido, rápido”. Depois de ajeitado, pediu privacidade. Bateu as perninhas até saírem voando bermuda e cueca. Começou a falar sozinho. A transpirar. A espremer os olhos, morder os lábios. A gemer. A gritar.

“Tá precisando de alguma coisa?”. “Não. Aiaiai. Dói muito. Fica comigo.”. Sentei no chão, despejei as trinta histórias de que tudo o que entra sai e de que tudo termina bem, se ainda não deu certo é porque não terminou. O suor fez uma gota na pontinha do nariz.

Bracinhos doendo por apoiar na bacia, barriga doendo, bumbum doendo. Dobrei seu tronco, berrou com medo de cair. Fiz massagem na barriga, piorou a dor. Sugeri outras inutilidades, foram mesmo inúteis.

Ele negava qualquer progresso que o aroma estivesse anunciando. Pedia ajuda mecânica, mas não possuíamos vacuoextrator.

Hiponasal, avisei que ia esperar lá fora. Com braços salgados e arrepiados, ele me segurou: precisava de mim. Fiz mais um pouco do mesmo.

Saí decidida e retornei com uma folha de jornal. “Mas eu nunca fiz isso”. “Tudo tem uma primeira vez.” “Você sempre fala isso. Jornal nãaao!”.

Carreguei-o rígido e entupido. Gritou mais, transpirou mais, olhava através de mim, dor de pavor. Joelhos estirados, negava-se a debutar sobre o anúncio de geladeiras das Casas Bahia. O penico do irmão, nem pensar. Não dispomos de moita, senhor…

Berrou muito mais. Devolvi-o ao trono. Tudo igual, menos o meu estado de espírito.

O desespero e o descontrole dele refluiram até mim pelo cordão umbilical que dizem que não existe mais. Gritei, também eu desesperada: “é só um cocôooo!!!”.

Última força. Pedra na água. Arqueado, ele voltou a respirar. “Muito bom… Quero tomar uma ducha. Quero ficar com você, mamãe.”

O sertão virou mar. O vinho, água. A hora do rush, manhã de domingo. O fogo, fumaça. A trave, cisco. O urubu, meu loro. Desenfezamo-nos.

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Uma resposta »

  1. Aline:
    Li sua cronica e achei muito bonito. Parabens. Conheço você desde pequena. Sou amiga de sua tia Celina e de sua mãe. Continue escrevendo para que possamos nos deliciar com textos inteligentes como este. Não são todas as pessoas que conseguem colocar no papel aquilo que seus pensamentos criam. Mais uma vez…parabens.
    Mare

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