Arquivo mensal: abril 2012

Davi e Pedro?

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Há trinta anos um tinha cabelo grosso e o outro loiro aguado

Os dois se abraçavam fraternalmente

O mais novo imitava o mais velho

Choravam de ciúme e injustiça

Assistiam juntos

Dormiam em camas vizinhas

Dividiam milimetricamente o suco e o chocolate

Um ganhava pela força e outro pelo choro

Um chutava a gol, prepotente, e o outro agarrava, subserviente

O pequeno vidrava na sabedoria do grande

O grande babava no despachamento do pequeno

E eu asistia tudo

Cortava o barato deles

Caia na gargalhada junto

Não entendia nada

Era a menina intrusa

A menina preferida

A maior de todos

Que tanto os amava

Que não aguentava as teimosias

Nem as birras

Nem a crueldade que eles conseguiam ter juntos

E que (mesmo que só quando ninguém estivesse olhando) ganhava o privilégio do amor deles.

Que nem hoje…

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(O avô chega apressado na natação e pergunta para a recepcionista: “O Luis Ricardo e o Vitor já chegaram?”. Totalmente compreensível, Pá.)

Eu sei que não pode

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Estacionar na guia rebaixada

Ferver creme de leite

Ameaçar filho e não cumprir

Usar sapato branco com calça preta

Tirar caca do nariz no farol

Errar na concordância

Dormir de maquiagem

Bater em criança

Deixar panela de pressão no fogo alto

Tirar casquinha

Convergir sem dar seta

Andar com tênis desamarrado

Rasurar zona azul

Dar troco errado

Espremer espinha

Comer só carboidrato

Passar trote

Largar torneira aberta

Responder para os mais velhos

Misturar melancia com vinho

Dormir em serviço

Mandar no marido

Quebrar pontinha de samambaia

Deixar o buço virar bigode

Caligrafia ilegível

Falar mal dos outros

Chegar atrasado

Olhar direto pro sol

Passar na frente da televisão

Roubar revista da sala de espera

Esquecer janela aberta

Puxar pelinha

Ler no escuro

Raspar calota

Perder prazo

Reclamar de barriga cheia

Fazer tudo tão certinho

Chamei pra fazer sopa, mas ele fez uma salada.

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A: Pi, vem ajudar a mamãe a fazer sopa?

P: Tá.

A: Qual o nome disso?                                   (abobrinha)

P: É… Francisco.

A: KKKKK… Francisco, meu amor? É abobrinha!

P: Ah.

A: E isso, como chama?                                (mandioqiuinha)

P: É… cenoura.

A: Quase, lindão; é mandioquinha. Ó a cenoura aqui.

P: Ah.

A: E isso, como chama?                                  (chuchu)

P: Pêra!

A: Pêra? KKKKK… Parece uma pêra, né? Pronto, tá tudo na panela.

P: Você viu a camomila que o Davi plantou? Já brotou…

A: Ãhn?

A: Aqui, ó.

P: Ah!! Tá. Agora quero vê a Camila.

O vendedor de sonhos

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O vendedor de sonhos

Davi. Alex?nO Davi Alex é um menino adorável de 10 anos. O conheci na venda onde trabalha, uma lojinha simples, onde ele vende lápis coloridos. Não unicamente os coloridos, como ele mesmo ressalva, também os brancos e pretos.

Fui até lá porque precisava de lápis amarelos, e ele me apresentou uma cuidadosa variedade, que incluiu desde o bege até o rosa médio. Enfatizei que estava interessada mesmo nos amarelos e ele respondeu tranquilamente que sabia disso, e que aqueles dois ao lado eram rosa, mas estavam lá porque eram quase amarelos.

Muito satisfeita com meus bastões canário, ouro e limão, pedi quanto lhe devia e ele pensou, preenchendo o tempo com um rumor, com a boca torta e o indicador no queixo, me olhando de esgueio, até dizer: “zero”. “Puxa, são de graça?”, eu repliquei, eufórica. “Sim, porque hoje é o meu aniversário”. “Meus parabéns!”, soltei empolgada, ao mesmo tempo em que tomei sem perceber a liberdade de estalar-lhe um beijo na bochecha direita. Ele reagiu encabulado, porém não limpou a bochecha com as costas da mão, como algumas vezes já espero que faça meu filho mais velho.

Foi aí que me lembrei dele, e comentei com o aniversariante que meus filhos adoram festas de aniversário. Nessa hora, meu caçula, Pedro, chegou à venda, com cara de travesseiro e muito emocionado. Peguei-o no colo para me ajudar nas compras, mas ele não quis nada, apenas bolo de aniversário.

Então meu vendedor predileto disse que, se eu quisesse, poderia levar até minha casa o convite para a festa desta noite. Achei ótimo e, antes de me despedir, comentei que justamente as duas não cores que ele vende ali são as prediletas do meu outro filho, Davi. Ele sorriu largamente e disse que Davi também é seu nome. Encantada com as coincidências da vida, perguntei seu sobrenome.

Foi então que, pela primeira vez, ele, ainda com muita maturidade, demonstrou alguma dependência e pediu licença para ir até a cozinha descobrir. Esticou o pescoço e, apoiado no batente da porta, ainda com as perninhas para fora do ambiente, cochichou alguma coisa com seu silencioso pai. Retornou em seguida, dizendo: “Batício, meu nome é Davi Batício”.

Como os clientes caíssem na risada, ele retornou logo à cozinha, em tempo de dissolver o engano, e murmurou ao pai invisível que “isso deve estar errado, eles estão rindo muito”. E, de volta à venda, disse que seu real sobrenome é Alex, Davi Alex.

Recebi Davi Alex em casa, minutos mais tarde. Muito gentil, ele levou de presente para seu xará os lápis branco e preto. Eu queria muito que os dois se conhecessem, mas no único momento em que meu filho apareceu, meu convidado havia sumido. Tentei de todas as formas que os dois se encontrassem, mas ambos ficavam desconcertados demais quando isso estava prestes a acontecer e eu, rindo como uma adolescente, não conseguia promover evolução. Exceto por um instante, em que apertaram a mão um do outro, mas – talvez seja efeito do desconcerto – pareceu-me que Davi Alex deu duas esmagadas no nada enquanto cantarolava sorrindo.

Antes de se despedir, Davi Alex me contou que o bolo de sua festa seria de chocolate com muita cereja e, mais surpresa ainda, fiquei com as coincidências da vida, porque na atual temporada este é o sabor predileto do meu filho Davi.

Logo em seguida, ao cair da noite, levei meus dois filhos ao aniversário. O Pedro ficou ao meu redor, um tanto quanto desambientado, bem como nos sentimos quando… não somos os donos da brincadeira. O Davi sumiu assim que chegou o anfitrião, convidando para brincar de pula-pula na bola azul. Deve ter se entretido lá pra dentro, porque não mais o vi até a hora dos parabéns.  

Antes do bolo, porém, o Pedro foi bem servido com carne feita no forno a lenha e com janta. Claro, Davi Alex já está completando seu décimo aniversário, mas bem se lembra que é essa a sequência que as mães solicitam para os filhos pequenos. Só não foi muito feliz em chamar seu convidadinho de “o pequenininho”, enquanto falava comigo, pois isso despertou o senso de justiça do Pedro, que perdeu a compostura declarando que “pequenEninho, não!” ele é grande, e que até fez xixi no banheiro esta manhã.

Impasse facilmente resolvido, já que meninos de dez anos não criam caso com crianças de dois. Fomos à sala do bolo e, gentileza atrás de gentileza, Pedro pôde assoprar sua própria vela, ao lado do aniversariante da noite.

Só não sou capaz de identificar se esse menino fotografado deliciando-se com o bolo e cerejas é o Davi Alex ou se é meu filho… Talvez a câmera fotográfica tenha ficado confusa… ou tão comovida quanto eu pelas entusiasmadas palmas descompassadas que acompanharam os parabéns…

Bolsa

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Estojo com giz de cera, cordão de clipes e a trava da cadeirinha do carro

O celular (ligado!)

Óculos escuros

Necessaire com batom no talo e um paninho que usei na pré-escola

Um cardigã amassado

Sacola ecológica

Agenda em branco até o final de março

Dois cupons de promoção

Carteira com fotos, notinhas e orações

Um absorvente

Um pacote de lenços

O Shrek

A sombrinha

Uma luva de lã tamanho P virada do avesso

A chave de casa

O Woody.

(Cadê o chapéu dele?)

Cenas de solidariedade por ocasião da Páscoa*

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A imagem do escuro/claro foi a tônica com o Davi nesta Páscoa. Ele entendeu muito bem que às três horas da tarde na sexta-feira santa, quando Jesus morreu, ficou tudo escuro e “chuva, e céu preto e monstros e fantasmas”; a manhã da ressurreição, por outro lado, foi cheia de luz “e as pessoas ficaram felizes porque têm Jesus no coração”.

Tendo introduzido o tema da luz e das sombras, posso contar que durante esta quaresma o lustre de nossa sala queimou, e fomos ao supermercado, eu e os meninos, comprar uma lâmpada para reposição. Depois de passar três vezes pelo mesmo corredor respondendo a infinitas perguntas sobre pneus, lanternas e porque crianças não podem ganhar brinquedos para cachorros, resolvi perguntar para uma moça se ela sabia onde ficavam as lâmpadas.

Enquanto ela me respondia “bem ali”, apontando para algum ponto exatamente debaixo do meu nariz, percebi que ela vestia uma camiseta do uniforme da escola onde estudei durante oito anos. Perguntei o nome dela e me vi abraçando-a, enquanto exclamava “a minha professora de Educação Física!”.

Apresentei meus filhos a ela, e ela a meus filhos. O Pi pouco mudou, continuou sentado no carrinho com sua carinha branca. O Davi começou a piar enquanto eu pedia que ele dissesse “oi”, e a rosnar quando a moça começou a explicar os atrativos da escola para crianças de seu tamanho. Levemente frustrada, me despedi.

Reencontramos-nos minutos depois, na fila do caixa, quando a professora estacionou seu carrinho atrás de nós. Uma senhora pagava sete ou oito contas em nossa frente, o Davi começou a comentar sobre os ovos de Páscoa que forravam a loja, a apontar para seus eleitos, a pedir um deles – o azul – e a fazer uma cena inesquecível de birra. Eu mantive a calma, na verdade estava mais preocupada com a contrariedade por passar por isso às vistas de uma professora que há anos eu não via, do que em driblar os maus modos do menino. 

Quando o constrangimento pela gritaria do Davi, já deitado no chão, após ter usado todos os seus argumentos sensatos (como me dizer “mamãe, estica seu braço e pega o ovo pra mim, você precisa ter coragem!”), transbordou de mim e chegou à minha mestra, ela comentou algo sobre a demora da fila e levou seu carrinho de compras para outro caixa, bem longe dali. Semi-ufa.

Mas a birra continuou e contagiou o irmão. Os dois chorando-gritando, eu começando a considerar impossível passar todos os itens do carrinho pelo caixa, ensacolá-los  com o Pi no colo, pagar e chegar até o carro sem danos à  integridade física de ao menos um de nós. Perguntei à senhora de nossa frente se ainda tinha muitas contas para pagar e ela respondeu, educada, que “não, só mais essas três”. Devo ter feito uma cara de pavor, embora tenha procurado manter minha expressão neutra.

Instantes depois, vi que a senhora mexia os lábios olhando para mim. (Exato, poderia ter dito que ouvi a senhora falando comigo, mas de início não ouvi absolutamente nada além do berreiro de minha prole). Cheguei mais perto e detectei que ela havia interrompido seu pagamento e se oferecia para me ajudar. Começou a pôr meus itens na esteira antes que eu pudesse aceitar. Enquanto isso começou a contar para o Davi que “todos aqueles ovos de Páscoa na verdade estão vazios, porque o coelhinho ainda está fazendo o chocolate, que está mole e só fica pronto na Páscoa”.

Nunca me senti tão bem em relação a uma história engrupidora de menores; os dois pararam de chorar, eu primeiro endossei tudo o que minha consciência permitiu (a outra parcela transformei em “é mesmo?”s), enquanto ela empacotava nossas coisas.  Terminei de pagar e encher o carrinho me desfazendo em gratidão, ela distribuiu “de nada”s sinceros e ainda completou dizendo que “não somos nada sozinhos” e que “nessa vida é um por todos”. Fez todo o sentido e eu tive uma certeza muito encaixada de que também agirei assim quando as crianças choronas da fila não forem as minhas.

Saí de lá sorrindo e serena, tocada com a humanidade que tinha acabado de me encontrar. 

Voltando à luz e às trevas: muito embora tivessem dormido apenas oito horas e durante este período acordado, ao todo, cinco vezes, os meninos despertaram ao primeiro raio de sol nesta manhã de Páscoa. Amamentei o Pedro enquanto fazia planos ousados de levá-los comigo à missa das sete.

Desejamo-nos Feliz Páscoa, encontramos os ovos e cenouras de chocolate que o coelhinho deixou em nossa sacada ao lado da cenoura que deixamos para ele. Engolimos alguns bombons (o Pedro também experimentou os restos da cenoura suja de terra, provavelmente a única coisa saudável que comeria neste dia), nos vestimos, nos despedimos do papai e de seu tornozelo torcido e levamos os brinquedos que vieram nos ovos de Páscoa para a missa.

Nos primeiros minutos dentro do carro o Davi me lembrou de que ainda não tinha feito xixi. Aturdida, conferi com ele se daria para aguentar até a Igreja. Ele consentiu e eu confiei. Chegamos ainda antes da homilia – eu, um coelhinho de pelúcia, as únicas crianças menores de sete anos de toda a Igreja e uma mala maior que uma delas.

Logo no penúltimo banco estava o vovô, que recebeu o Pedro resmunguento de “mamãínn” enquanto eu levava seu irmão mais velho ao toilette. A tia-avó organista nos acompanhou – e segurou o coelho – enquanto o Davi se aliviava reclamando do cheiro de banheiro. 

De volta à Igreja, ele educadamente desejou “Feliz Páscoa” baixinho a todos os conhecidos que encontrou e estabelecemo-nos no banco em que vovô e Pi nos aguardavam. Uma senhorinha fez questão absoluta de ceder seu lugar a nós e manter-se em pé até o final da missa. Mais tarde justificou-se, incluindo nas explicações sua “diverticulite nos intestinos”.

 Não entrarei em detalhes quanto à bagunça e aos ruídos que os meninos originaram durante os minutos de celebração que se seguiram, nem ao menos descreverei os malabarismos que me vi fazendo durante a consagração, em pé no corredor central com um filho no colo (querendo jogar para o alto a bola que segurava) e o outro filho no banco (chorando porque não estava grudado em mim).

Bastará dizer o quão encabulada fiquei após os cristãos idosos que nos rodeavam terem abaixado em média três vezes cada um para recolher os folhetos/peças de brinquedo/sapatos que os meninos compulsivamente deixavam cair.

Achei por bem sair da Igreja com as cuias (a mala ficou com o vovô) e deixar que os pequenos brincassem num cantinho do átrio com as mil pecinhas que haviam levado. Foi aí que uma nova cena marcante de solidariedade teve lugar.

Um senhorzinho, que se apresentou como alfaiate do padre, abaixou ao meu lado e me disse que agora eu não sei, mas um dia saberei; ele tem um bisnetinho que entra em casa correndo e perguntando se “o f*%$ da p&#@ do bisavô dele já foi para a alfaiataria”. (Por uma fração de segundos fiquei em dúvida se o senhor estava reclamando da ingratidão dos seus descendentes, mas logo percebi que não).

Mostrou-me sua carteira com a imagem da Sagrada Face, disse que as crianças são a melhor coisa do mundo, reforçou que um dia, quando eu tiver meus netos, eu saberei, e terminou desejando Feliz Páscoa e dizendo – já teria sido muito bom se ele não tivesse terminado assim, mas devo enfatizar que ele disse  – que viu a forma carinhosa como eu entrei com os meninos na Igreja.

Nesse instante, o embaraço, o cansaço e a ponta de arrependimento por ter levado meus filhos à missa das sete deram lugar à gratidão, à consciência de comunidade e à clareza (com todo peso da palavra após estas linhas) do que é a Páscoa.

 

*Escrito na manhã de Páscoa de 2011.