DeclAMAções

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Há alguns dias, emissões inequívocas vem escapando de seus “lábeus”.  Geralmente no carro, rompendo longo silêncio.

Comecei a observá-las com mais diversão no dia em que escutei, vindo do banco de trás, o CPF do pai cantarolado baixinho, continuamente.

No dia seguinte, brotou do silêncio absoluto em nossa volta para casa: “não quero pôr gasolina comum”.

No outro dia, observando alguma coisa em algum jardim do caminho, soltou: “regador não é mangueira”.

No outro, equilibrou o Cascão no braço do cadeirão e ordenou: “Fica aí dzi pé, sentadzinho!”.

Numa noite, afirmou: “Eu tenhu medu du iscuro, mas iscuro não existe”.

E na noite seguinte, com pai e irmão também no carro, perguntou: “puquê dzi noitsi a zentzi passia intêro?”. Pedimos três repetições. Continuamos não entendendo. Ele, exigindo uma resposta, gritou: “Pegunta pa mim!” Então o sexto sentido materno sussurrou no meu ouvido que se referia ao fato de estarmos ali família inteira.

Hoje eu tentava acordar o irmão para a tão esperada missa vespertina do Lava Pés, quando ele apareceu calçado, dizendo: “eu puis sandália, eu tô lindo”. Tentou um pouco solucionar a correia solta, irritou-se, silabou “GI – FI – ÇÔ!!!”, desistiu e veio até mim: “eu pidi azuda”.

Sandálias calçadas, desapareceu, fuçou onde não devia e, num arroubo de consciência, voltou dizendo: “eu não vou mecei em nada, eu só mecei na póita da casa”. Forçando naturalidade eu indaguei: “e você é adulto ou criança?”. Contrariado, prevendo o efeito da retórica da mamãe, assumiu com as exatas seguintes palavras: “Nem adulto, nem quiança. Sou um minino bávu e sátu”.

Porém, ingênuo quem realmente acreditou que ele não é criança. Como se classifica alguém que grita mais que o coral de idosas em quinta feira Santa para informar à Igreja toda que “o Bolêro tá icondido nu colai!”. Sendo que este mesmo alguém, minutos antes, tratou de ocultar-se embaixo do banco e embaraçar no colar colorido da mamãe braços e pernas do valente arqueiro…

Mas ele mesmo logo o admitiu, após a comunhão. Começou perguntando “o que você tá comendo?”, ao que eu, por reflexo, quase respondi “Jesus”. Só que, imaginando o desdobramento da conversa, que era acompanhada por toda a silente assembléia, optei por reproduzir a resposta que muito ouvi durante minha infância: “a bolachinha da paz”. “Ah. Também quero”. “Primeiro você precisa ter dez anos e fazer a primeira comunhão”. Como eu voltasse à posição de contrição a cada linha do diálogo, apesar das muitas risadinhas comunitárias – que eu não condeno –, ele resolveu calar. Apenas estendeu a mim os dois dedinhos magrelos, indicando a idade. Então redecidiu falar com energia: “Quiança não podzi comê bolacinha da Igueza, quiança podzi comê bolacinha da minha casa i assiti tevisão na minha casa i VDD, i í nu cólu e dá a mão”.

Criança pode tudo isso mesmo. E, nesse caso, até adulto pode rir como criança. E foi o que eu e muitos fiéis fizemos juntos.

 

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