Arquivo mensal: maio 2012

Molequices e lindezas

Padrão

Disputaram aos empurrões um dente de leão solitário na grama rala do parquinho. Falei pro Davi ficar tranquilo que o Pedro só cospe, não sopra. Ele esperou sua vez e fez voarem uns poucos pelinhos de flor. Leão bem banguelinha aquele…

Correram pro tambor rotativo, ou como quer que se chame. Gritaram muito, de excitação, ciúme, medo e frustração. Do meu banquinho de cimento dei muitas instruções e de tão ineficazes comecei a rir. Veio até mim o Davi, curioso, querendo um pouco daquela graça.

“Primeiro sobe no toquinho, filho.” Expliquei, expliquei, e ele, como bom homenzinho sem olhos de lince, não enxergou. De tanto não enxergar, convenceu-se de que eu só podia estar brincando, e que o que eu chamava de toquinho era o Pi. Esmagando os ombrinhos do irmão, justificou-se: “a mamãe me mandou subir em você”.

A tentativa de totem humano, que eu precisei desfazer, inspirou-os a jogar capoeira. Episódios de abuso de poder. E de total desconhecimento dos princípios daquela arte. Então foram apostar corrida.

O Davi decidiu querer a medalha de prata muito mais do que a de ouro, e teve que fazer mímica de corrida atrás do irmão, que de tanto sentir-se pressionado com as mãos do adversário na nuca, caiu de joelhos no meio do caminho. “Vem aqui que eu te levanto, filho.” E ele veio, andando.

Brincam e brigam muito, irmãos de verdade. E é aqui que entra o flash-back: ontem à noitinha o Pi teve uma birra histórica e deixei-o expressar-se do lado de fora do banheiro em que terminava de dar banho no Davi. Recebi do ensaboado um olhar de privilegiado, alguns sorrisos e – prêmio máximo – alguns relatos da escola.

Já no quarto, berraria mais branda, achei por bem sentar o pequeno no meu colo e pentear seu cabelinhos molhados, enquanto ele soluçava “não-que-ro-pa-rar-de-cho-rar!”. Dois afagos na cabecinha e pronto. Então o Davi soltou as sinceras palavras: “Ah… Não sobrou mais nada de mãe pra mim…”.

Aos poucos fui substituindo o filho do colo e, em instantes, era a cabecinha do grande que eu afagava, questionando: “será que não sobrou mesmo nadinha de mãe pra você?”. Então levantei o olhar e vi bem perto de nós o loirinho com o rosto ainda marcado pelo choro: “Davi, você é filho dela. E ela é sua mãe.”

Lindos, não? E, àquela hora, garanto: também muito cheirosos.

Marta, Marta

Padrão

Lendo historinhas da Blíblia* antes dos meninos dormirem, detivemo-nos na passagem de Zaqueu (Lc 19).

Porque tinha tanta gente? Porque ele subiu na árvore? Porque ele era baixinho? Porque Jesus foi na casa dele? Porque ele desceu correndo?

Ah… Foi aí que eu me peguei respondendo por mim! Enumerei tudo o que faria antes de receber o Mestre em casa: essas roupas aqui para guardar, cama para arrumar (ainda, quase na hora de desarrumar de novo!), brinquedos para recolher, janelas para abrir bem, perfuminho de ambientes, um bolo delicioso no forno, quem me ajudaria com o suco?

A expressão impactada deles contrastou com minha expectativa de que brigariam para coar o suco de Jesus, assim como brigaram para coar seus próprios sucos horas antes.

Por quê? Foi o que o Davi me perguntou, verdadeiramente curioso. Por que você ia fazer tudo isso?

Como sempre, eu, reflexamente, comecei a responder. Ah, porque eu ia querer preparar tudo muito bem pra receber a visita de… Filhinho, o que você ia fazer se Jesus viesse aqui em casa?

Pedir pra ele trazer a mãe dele.

Engoli.

Pra gente poder brincar juntos. Se o pai dele viesse também, ia dar pra gente jogar um jogo bem legal, todo mundo junto.

Reengoli. Jesus, tão homem quanto meu marido, provavelmente nem perceberia mesmo a montanhinha de meias do avesso ali no canto. E poderia passar a visita toda sem se dar conta das manchas na toalha. Mas adoraria divertir-se espetando o Pula Pirata. (Tá bom, vai, montando um celeiro de Lego, que é um pouquinho mais legal). Ou apostando corrida com dois menininhos fofos e uma coleção de Hot Wheels.

Davi queria a companhia, a convivência com sua amada Maria (“que eu rezo todo dia de manhã no caminho da escola, né, mãe?”), queria sua companhia, aproveitar o tempo na presença da Sagrada Família. E, de brinde, em sua fala também me dizia que ama brincar com mães e pais em geral…

Acariciei a bochecha dum iluminado filho enquanto o outro pedia pra falar, palhacento:

Será que Jesus ia comer uma banana estragada?

Não, Pi, opinou rindo o irmão, ele ia comer só uma banana feita de amor…

Um pouco mais infantil, mas ainda surpreendente.

Aline, Aline, “tu te preocupas e andas agitada por muitas coisas, porém uma só coisa é necessária…”**

______________________________

*OLESEN, C. “Minha primeira Bíblia: histórias da Bíblia para crianças”. Il: MAZALI, G. São Paulo: Ciranda Cultural, 2006.

**Lc 10, 41

Primeiros pensamentos na manhã de ontem

Padrão

Nossa, o Davi está acordando pela terceira vez na madrugada? Mas a voz dele tá tão perto dessa vez… Ah, ele ta aqui no meu quarto! Será que já ta na hora de acordar? Que bom que amanhã é sábado. Peraí, mas a Nina não chegou… E ela veio ontem! Será que hoje é quinta? Não, ontem foi sexta. E hoje é sábado… Ai, é sábado e eu já acordei, droga!

Atemoia

Padrão

Primeiro, eu percebi a contração desnecessária dos músculos da minha testa. Em seguida, olhei no espelho retrovisor do carro e vi minha cara de má. Por quê?

Então, parada no sinal, respirei fundo e tirei a corcunda, e resolvi começar o exercício de reconhecer a positividade.

E não é que a luz do farol combinava direitinho com aquelas flores bem vermelhas e peludas da árvore exatamente atrás dela? Bonito! Bonitas todas as árvores, e no meu caminho são muitas.

Que interessante os muros das casas vizinhas comporem a cara da rua sem que haja alguma reunião municipal para isso, e os cachorros atravessarem na faixa de segurança (por vezes com mais responsabilidade que os pedestres). E aquele jardineiro descendo da escada, às oito da manhã, a que horas será que ele subiu?

Achei legal andar a pé do estacionamento até a academia e gostei de contar moedas para completar um real. Até a dor na perna esquerda me fez feliz por senti-la ativa.

Dei-me o direito de deixar o carro na vaga da vizinha por dez minutos; comemorei encontrar meu filho de cueca seca; passei batom violeta; abri a janela do quarto para a luz do dia animar meu marido.

Decidi comprar atemoia pela primeira vez e resolvi zerar a quilometragem do carro porque hoje me pareceu um bom dia para ver quanto ele está rendendo.

Pareceu também um bom dia para matricular as crianças no esporte e aproveitar a tarde arremessando-as na piscina de bolinhas do clube. O Davi corre com o polegar dos pés um pouquinho levantado e o Pi trança tanto as pernas ao correr, que poderia acabar dando meia volta. Eles dois babam e tem os dentes mais lindos do mundo. O eco da voz deles dentro do tubogã me faz sorrir inspirando e gosto da moldura que o capuz dá ao rostinho deles. São muito fraternos e proíbem injustiças da minha parte – o que hoje eu recebi com muita gratidão, porque de que me adianta ser injusta?

Não fui eu que fiz as uvas do nosso lanche estarem doces, nem fui eu que desenhei as sobrancelhas dos meninos. Não fui eu que me dei dois filhos homens, não fui eu que determinei a cota de sensibilidade à qual teria direito, não fui eu que graduei a ternura do sol desta tarde.

O que eu precisei foi lembrar que não sou simplesmente uma cara séria e um monte de tarefas a cumprir e que meu coração quer mais do que apenas cada coisa em seu lugar.