Molequices e lindezas

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Disputaram aos empurrões um dente de leão solitário na grama rala do parquinho. Falei pro Davi ficar tranquilo que o Pedro só cospe, não sopra. Ele esperou sua vez e fez voarem uns poucos pelinhos de flor. Leão bem banguelinha aquele…

Correram pro tambor rotativo, ou como quer que se chame. Gritaram muito, de excitação, ciúme, medo e frustração. Do meu banquinho de cimento dei muitas instruções e de tão ineficazes comecei a rir. Veio até mim o Davi, curioso, querendo um pouco daquela graça.

“Primeiro sobe no toquinho, filho.” Expliquei, expliquei, e ele, como bom homenzinho sem olhos de lince, não enxergou. De tanto não enxergar, convenceu-se de que eu só podia estar brincando, e que o que eu chamava de toquinho era o Pi. Esmagando os ombrinhos do irmão, justificou-se: “a mamãe me mandou subir em você”.

A tentativa de totem humano, que eu precisei desfazer, inspirou-os a jogar capoeira. Episódios de abuso de poder. E de total desconhecimento dos princípios daquela arte. Então foram apostar corrida.

O Davi decidiu querer a medalha de prata muito mais do que a de ouro, e teve que fazer mímica de corrida atrás do irmão, que de tanto sentir-se pressionado com as mãos do adversário na nuca, caiu de joelhos no meio do caminho. “Vem aqui que eu te levanto, filho.” E ele veio, andando.

Brincam e brigam muito, irmãos de verdade. E é aqui que entra o flash-back: ontem à noitinha o Pi teve uma birra histórica e deixei-o expressar-se do lado de fora do banheiro em que terminava de dar banho no Davi. Recebi do ensaboado um olhar de privilegiado, alguns sorrisos e – prêmio máximo – alguns relatos da escola.

Já no quarto, berraria mais branda, achei por bem sentar o pequeno no meu colo e pentear seu cabelinhos molhados, enquanto ele soluçava “não-que-ro-pa-rar-de-cho-rar!”. Dois afagos na cabecinha e pronto. Então o Davi soltou as sinceras palavras: “Ah… Não sobrou mais nada de mãe pra mim…”.

Aos poucos fui substituindo o filho do colo e, em instantes, era a cabecinha do grande que eu afagava, questionando: “será que não sobrou mesmo nadinha de mãe pra você?”. Então levantei o olhar e vi bem perto de nós o loirinho com o rosto ainda marcado pelo choro: “Davi, você é filho dela. E ela é sua mãe.”

Lindos, não? E, àquela hora, garanto: também muito cheirosos.

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