Arquivo mensal: junho 2012

Chapéu de cowboy

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Esta tarde, meu filho abraçou-me com uma força incomum. Escondeu o rostinho sofrido em meu ombro e tentava bravamente não chorar enquanto os alegres amiguinhos da escola, todos de camisa xadrez, como ele, aproximavam-se para dizer “oi, Davi Belini!”.

Aceitava meus beijos e respondia “não” a todas as minhas perguntas, mesmo quando eu indagava alguma questão tentadora demais sobre alguma daquelas criancinhas, todas de jeans, como ele. Muitas delas sorrindo para fotos, algumas outras escorregando exibidamente no chão com suas botinhas country. Quase todas de sorriso no rosto e chapéu de cowboy na cabeça.

Há alguns meses fomos ao circo, eu, ele e o irmão. Foi uma noite inesquecível. Enquanto cheirava a doce cabeleira loira do Pedro, sentando em meu colo, eu podia segurar a mãozinha direita do Davi ou abraçar seu ombrinho magro. Rimos juntos de piadas bobas, gritamos juntos por sustos ruins e também por sustos bons, que nos fizeram rir em seguida. Arregalamos nossos olhos no escuro exagerado, habituamo-nos a falar ao pé do ouvido, única forma de nos escutarmos com todo aquele barulhão. Compartilhamos daquela atividade cultural, e, assim, pusemos mais um tijolinho na parede de companheirismo da nossa relação. Naquela noite ele precisou ter quatro anos, nada mais. Estava no circo: roubando pipocas do senhor ao lado, na maior cara de pau, sentindo o coraçãozinho acelerado diante do globo da morte, sorrindo para mim ao perceber o erro do malabarista, rindo às gargalhadas diante do palhaço que se fazia de bobo. Precisou ter quatro anos, nada menos, tendo que suportar minhas negativas a todo comércio de bugigangas, tendo que andar rápido de mãos dadas até o estacionamento na noite escura, tendo que manter-se apenas ao meu lado na arquibancada, pois a vaga sobre mim já estava ocupada por alguém com a metade de sua idade.

Naquela noite especial o vi bater palmas envolvido no ritmo da música, cotovelinhos indo juntos para frente e para trás.  O vi levantar as mãos quando sua resposta à pergunta do apresentador era positiva. O vi imitar os palhaços, com seu corpinho que até então eu chamaria de envergonhado mor. Cheguei a ouvi-lo cantar em coro o refrão da música nova. E, muito admirada, o vi dançar de corpo e alma no corredor central do circo: foi então que reconheci que aí, dentro desta criancinha tão amada, existe a coragem de um leãozinho, que para dar seus primeiros passos requer o olhar protetor, confiante e cheio de serenidade da mamãe. Sim, sim. Para conseguir fazer isso a mamãe tem que ser mesmo uma leoa.

Num final de tarde, semana passada, sentada no chão de seu quarto, eu segurava no ar a cintura esticada de sua calça de pijama, enquanto ele, cabelo molhado ainda despenteado, peninhas de fora, cantarolou dançandinho alguma coisa sobre “alô galera, bate a mão e bate o pé”*. Engoli e histeria e perguntei absorta como é que ele conseguia bater só a pontinha do pé no chão. Mostrou-me, numa boa. Então comentei, despretensiosamente, que isso parecia uma dança de festa junina que eu fiz uma vez quando era pequena. E ele continuou me dando as dicas, que depois eu devia ter ido bem pro lado direito até bater palma, e depois bem pro lado esquerdo. “Ah, é. Assim, né, filho?”. Não, era beeem mais pro lado, “assim”, ele me mostrou. E assisti. Fiquei assistindo com exclusividade um trecho da primeira dança junina do meu pimpolho. De camarote.

Nem naquele dia, nem hoje, ele usou o chapéu branco de cowboy que fomos juntos comprar. Com o aproximar-se da data da festa, o chapéu foi se tornando o símbolo do desafio, e foi se apagando a fulminante chama da paixão, outrora acesa dentro de uma lojinha abarrotada da Marechal. Hoje, na hora de pôr o chapéu – “jogue a paixão pra fora”*! -, ele reconheceu que não havia a menor possibilidade de dançar e nem de manter-se tranquilo com a inevitável pressão a este respeito.

Esta tarde, a dúzia de crianças alegres que divide há seis meses suas manhãs com meu pequerrucho dançou, “todo mundo envolvido na folia”*, de jeans, camisa xadrez, chapéu de cowboy e sorriso no rosto. O jeans, o xadrez e até um cinto com fivela de cavalo o Davi também vestia. O chapéu, já sabemos que não. Falta falar sobre o sorriso no rosto: apareceu, limpo e do tamanho certo, quando, do lado de cá do palco, ouviu a música acabar, percebeu ter tido respeitado seu limite e, ao final dos aplausos, recebeu um beijo verdadeiramente orgulhoso pela bela dança que ele ensaiou junto com os amigos durante as últimas semanas.

* “Bate o pé” – Rionegro e Solimões

A ladra

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Quinta-feira chuvosa, dois filhos no carro, tentando entender o que vai fazer o carro da frente e, ao mesmo tempo, encontrar uma estação de rádio que pegue bem em pleno Centro de São Bernardo. Enquanto isso, debatemos o tema “hidratação” (sim: água tem que beber, para hidratar o corpo, mas água não hidrata muito a pele; hidratante hidrata a pele, mas não pode beber, nem se quiser hidratar o estômago).

O farol fecha. Aproxima-se um artista (?), rosto colorido. A ampla boca de palhaço desenhada a batom contrasta com a boca real: pequena, desdentada, esforçando-se por um sorriso animado.

Além de tudo o que (não) me passa pela cabeça, invadem-me dois pensamentos: (a) em quanto tempo o farol vai abrir? (b) que consciência referente a esta abordagem têm meus filhos neste momento? Vejo-me abrindo uma fresta do vidro, ao que o ator agradece e eleva um sacão de pirulitos.

– Obrigado, minha jovem, vamos ajudar este palhaço? Um pirulito por um realzinho ou então a moedinha que a senhora tiver, só pra colaborar, não tem problema não!

Ebulição de pensamentos: “Ajudar esse palhaço a quê? Não vai dar tempo de perguntar, preciso decidir sem essa informação, antes que comecem a buzinar. Embaixo dessa tinta azul é uma cicatriz? Acho que as moedas acabaram… Os meninos já viram os pirulitos? Será que esse pirulito presta? Onde foi que ele arrumou isso? Será que é roubado? Porque ele não está de peruca, ia ajudar a proteger da garoa… Eles vão me questionar mais se eu comprar ou não comprar? Mas o homem vai me dar um só? Tô perdida.”

Em sete segundos encontro três moedinhas mixas e, vendo o farol esverdear, coloco-as na palma da mão do palhaço, gritando: “Mas vou precisar de dois, senão vai ser uma choradeira danada!”. Ele, com uma expressão atônita, abre o saco para que eu retire os doces.

Preocupo-me imediatamente com os acordos que começo a fazer com os meninos e sigo viagem.

– Eba, mamãe! Mas porque você nunca compra isso?

– Porque eu sempre acho que moço assim tem que trabalhar no circo ou na loja de pirulitos, mas só hoje eu comprei.

O caçula entende mal o trecho sobre o “moço”, e contribui:

– O monstro deu o pilo?

– Que monstro, filhinho? O moço! O moço com a cara pintada, ele é um palhaço, não um monstro. Ele que deu o pilo.

Rindo do Pedro, seja por ter entendido assim a monstruosa caracterização do rapaz, seja pela imensa intimidade com os doces que lhe permite abreviar “pilolito”, revejo mentalmente todas as cenas, e, enquanto reescuto a voz do vendedor, rio rouca de mim mesma: ele queria um real por pirulito e recebeu 65 cents por dois. Pra não dizer que o roubei, concluo que obtive um belo desconto nessa transação…

Gusta

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Ela tinha olhos nas costas e muitos pares de tamancos.

Um verde profundo no olhar, cabelos lisos permanentemente disfarçados pela permanente.

Sobre suas calcinhas, digo que eram gigantescas – eu as amarrava nas laterais quando, por algum acidente, precisava pegar emprestadas – e que, na minha humilde opinião,  nunca funcionaram como buchinha no banho. Eu preferiria a espuma generosa de uma esponja, como estava acostumada, mas na casa da vó o banho era com sabonete esfregado no “paninho”.

Duas coisas me faziam ter ataques de riso: seu rosto espremido por uma gargalhada que a fizesse molhar os olhos e tirar os óculos; seus pés sem o esmalte vermelho. O segundo motivo eu não sei explicar, mas me fazia rir muito, muito. Suas unhas dos pés viviam vermelho ambulância, e vê-las ao natural era no mínimo constrangedor…

Tinha tudo planejado, organizado, preciso e bem feito – com antecedência. Não suportava que a esperassem: bem antes da missa das quatro começar já estava de batom e spray nos cabelos; na Marginal Tietê já segurava nas mãos a chave do portão de casa.

Calculava que precisaríamos de nada mais, nada menos do que trinta e dois pãezinhos – para ela os moreninhos! Não gostava que interferissem em suas panelas – afinal ela mesma não interferia no porão de ninguém…

Dirigia. Primeiro, um fusquinha bege. Depois, um gol bordô, como ela mesma escolheu. Aceitou me acompanhar nas primeiras voltas depois de tirada minha carta, e até hoje repito como um mantra seu sábio “deixe que buzinem”.

Não deixava o dito pelo não dito e ensinava minuciosamente como se lavava alface, como se estendia a toalha da mesa, como se fazia o sinal da santa cruz, como se “totchava” o pão no molho sem sujar as mangas e como se enxugavam as pocinhas no chão do quintal… (esta foi uma estratégia para entreter seis netos entediados num dia feio).

Participava da novena de Natal todos os anos – apesar dos netos que por vezes a acompanhavam tumultuando as reuniões e rindo dos cânticos tocados nas vitrolas das vizinhas.  Rezava o terço diariamente. Tinha padres muito amigos, músicas preferidas e sabemos nós que Nossa Senhora lhe deu a mão e cuidou do seu coração, da sua vida e do seu caminho até o fim.

Cozinhava bem, muito, rápido. E por mais que eu tenha muitas cenas emocionantes para me lembrar, é sentir agora, nesse ar de quinze anos depois, o cheiro de pizza das noites de sábado e o sabor da carne com laranja dos domingos especiais que me faz assumir os soluços e me render à saudade. Que nunca, nunca, vai acabar.

 

*15/06/1926

+15/10/2000

Canção, novela… romance.

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Ouvir rádio hoje foi mais interessante. Algumas declarações de amor, algumas lamentações de amor, muitas músicas de bailinho da vassoura. A esposa que deixou um bilhete surpresa para o marido dentro do carro, já às cinco da manhã; o radialista que despertou sua companheira com um beijo e um enigma.

Na academia só para mulheres foi instigante observar o movimento das conversas: quando alguém, apaixonada, começava a contar sobre os planos para mais tarde, muitas outras revelavam suas ideias, de românticas a picantes. Quando alguém, frustrada, reclamava que o marido ia jogar bola esta noite, muitas outras entortavam a boca e revelavam suas próprias decepções, de esquecimentos a presentes de grego. As mesmas interlocutoras teceriam conversas muito diferentes, dependendo do estímulo.

Há algumas semanas observei, compenetrada, dois casais durante a missa. Um deles evidentemente de namorados: o rapaz acariciava o ombro da companheira, a abraçava e falava em seu ouvido, mesmo que ela tentasse guardar silêncio ou ficar ajoelhada por um pouco mais de tempo que ele. A expressão corporal da moça, que eu só vi de costas, me disse que ela queria um pouco mais de introspecção e menos paparico. Não deixou de ser receptiva ao namorado, mas me pergunto: porque será que eu li seu pedido por oxigênio e ele não leu? Supus que, dentro de alguns anos, senão meses, senão minutos… a paciência da moça poderá se acabar. E a por vezes inoportuna ternura do rapaz poderá ressentir-se disso.

O outro casal revezava passeinhos, balangadas e passadinhas de fralda no rosto de seu primeiro bebê fofucho. Embasbacados, os dois, com aquela criancinha amada. Mas, enquanto o pai babava litros, a mãe parecia querer um pouco de ordem e de funcionalidade. Sacava os objetos de dentro da bolsa sem precisar olhar para as mãos, arregalava os olhos quando o pai sacolejava o bebê de um jeito que lhe parecesse menos conveniente. Mas ele não soube disso, porque não olhou para ela, não a percebeu; naquela cena só tinha olhos e braços para a filha. Tanto que quando a menininha passou para o colo da mãe, tão entusiasmado abaixou-se para beijar sua barriguinha, que bateu com força a cabeça no nariz da esposa, que, com as mãos ocupadas, nem pode segurar a dor que seus olhos crispados exprimiram. O marido nem percebeu: não pediu desculpas, não a acariciou, não a pegou no colo. Fiquei imaginando que, se isto ocorresse há algumas semanas, ou meses, ou anos, a mulher – que ainda viria a carregar no colo a filha que carregava no ventre, ou que ainda viria a carregar no ventre a filha que carregava na alma – poderia estar sendo consolada, cuidada, admirada e mimada pelo seu companheiro babão.

Avançando ou retrocedendo a fita de nossos discursos, manipulando o tempo do filme de nossos momentos, tentemos perceber nós mesmos o que fazemos com nossos amores e como tratamos quem mais nos importa. Talvez valha a pena recuperar os episódios iniciais de nossas novelas, para inspirar próximos capítulos instigantes e construir o tão desejado final feliz.

“Coequinhas”

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O lance é pegar amor pela cueca. Desejar uma cueca verde do fundo do coração. Ir ao bazar comprar um trio de cuecas novas, porque nele vem uma verde, ainda que seja verde musgo e dois números maior que o necessário. Carregar a sacolinha até chegar em casa. Querer – e conseguir – vestir sem lavar. Esse é o espírito da coisa.É claro que é um saco levar no banheiro a cada meia hora – ainda mais porque nada garante que no minuto 32 não venha a escapar algo mais.  E muito mais chato do que trocar fralda é trocar cueca, calça, meia, sapato e tapete. A cada trinta e dois minutos.

Uma cueca molhada de xixi fica triste. Já uma cueca feliz de verdade é bem sequinha e limpa. Daí que um pouco de mente aberta facilitou todo o resto. Alguém já pensou em pôr a cueca por baixo da fralda? Porque ninguém nunca me falou isso? Para mim essa ideia foi uma revolução.

Depois que o menino pega amor pela cueca, basta haver uma cueca em primeiro plano e, em teoria, todas as demais vestimentas serão preservadas. Na prática, porém, não se compromete a higiene de toda a casa-cadeirinha do carro-casa dos outros-etc, se houver uma fralda por cima da cueca.

E à cueca predileta do dia pode ser dada maior carga dramática… Ele quer a “coecalanja”?  Se estiver lavando, terá que escolher outra. Quer a “coecamalela”, para combinar com a meia?  Se estiver secando, terá que fazer outra opção. E trocar de meias também, por que não? Então é melhor fazer xixi no banheiro e não na “coecazulcala”. Estamos entendidos?

O problema é que, em se tratando da personalidade forte do Pi, quem se destaca é sempre a… “COECAPETA”.

A criança pinta o primeiro quadrado com a cor da cueca que acabou de vestir. Na próxima ida ao banheiro, se estiver seca, desenha-se um rosto feliz e pinta-se o próximo quadrado da mesma cor, até que se troque a cueca. Se a cueca for molhada, desenha-se um rosto triste e completa-se o próximo quadrado com a nova cor.