Arquivo mensal: agosto 2012

Feito com amor

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Perguntei pra mulherada na academia como é que se reparte um bolo em dois, pra rechear. A história do fio de linha é linda, mas nem sempre tem final feliz.

Chegando em casa, tentei conduzir a fome de um culinarista mirim e duas receitas diferentes no mesmo forno – e o almoço ficou pra janta…

Mas, entre uvas desgranadas e purê de mandioquinha, tive a grande ideia de dividir a massa do bolo em duas formas iguais, obtendo, vinte e cinco minutos depois, duas finíssimas solas de sapato de relevo acidentado sabor chocolate. Brincadeira, pegaram só um pouquinho na assadeira e nem quebraram muito na hora de desenformar.

Muitas horas se passaram sem que eu pudesse dar prosseguimento à tarefa. Caiu a noite. Mas eu sabia que preparar as partes moles seria mais condizente com meu talento de formiga profissional. Recheio e cobertura renderam menos do que eu esperava, mas que doce lar não tem uma lata sobressalente de leite condensado?

Suspirando de orgulho misturei as cerejinhas picadas ao brigadeiro de cacau. “Tá bom que não reduzi o açúcar, mas acrescentei levedo de cerveja pra enriquecer a vitamina”. “Esse caldinho da cereja não tem nada de saudável, mas completei a medida do trigo com integral, vai”.

Montar o edifício hipercalórico foi realmente desafiador, porque os dois maluquinhos (que até então tentavam desvendar na sala ao lado as fronteiras da dor e do prazer em suas lutas corporais) resolveram brigar de espadas entre os ingredientes tentadores espalhados pela cozinha.

Dei um pote degustação para cada um e exigi que ficassem em seus lugares, enquanto eu terminava.

“Porque esse bolo tá assim?” perguntou a boquinha lambuzada de um rostinho lambuzado emoldurado por longos cabelos loiros lambuzados.

“Assim… torto? Porque é o primeiro bolo de aniversário de verdade que a mamãe faz”.

“Eu quero comer”.

“Você já está experimentando as partes do bolo desmontadas, esse montado é pro Davi levar na escola amanhã; ninguém vai comer hoje, só amanhã. Davi, se alguém perguntar quem fez esse bolo, o que você vai falar?”.

“Que foi você… Não é?”

“É sim, filho. E você vai falar que eu fiz com quê?”

“Com cereja!”

“Não, querido, com amor.”

“Mas ó a cereja aqui!”

Abandonei a conversa para ajeitar a obra na geladeira antes que terminasse de desmoronar. Ainda não tenho a menor ideia de como vou fazer para transportá-la para a escola amanhã sem nenhum desastre, mas ao menos esta noite minha geladeira poderia ser fotografada para encarte de supermercado.

E eu vou dormir me sentindo bem melhor que a Sarah Jessica Parker naquele filme* em que ela pegou piolho da filha! Até porque não tenho filha. E piolho nenhum teria coragem de emigrar da cabeleira do Pi, lotadinha de brigadeiro daquele jeito…

 

 

* “Não sei como ela consegue” (2011). (A mãe executiva promete à filha que fará com suas próprias mãos uma sobremesa para a festa da escola; atrasa-se numa viagem de negócios, chega tarde da noite e compra numa loja de conveniência uma torta pronta, um pirex e açúcar de confeiteiro; tenta forjar um doce caseiro, mas não engana a ninguém.)

Noites de quarta-feira

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Quero jogar bola com o papai dentro de casa de noite! Ah… Esquece…

Hoje eu só vou tomar banho quando o papai chegar! Ah… Esquece…

Vou deixar meu desenho separado pra mostrar pro papai depois. Ah… Esquece…

Vamos jogar um jogo em família quando o papai chegar? Ah… Esquece…

Posso esperar o papai assistindo desenho? Ah… Esquece…

 

Ah, eu odeio o dia que o papai tem squash!

É!! Esse “esquece” é “satão”!!!

 

Ativando o sucesso na amamentação

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Sou uma ativista da amamentação? Com meus dois filhos fui. Com eles “ativei” nosso sucesso na amamentação a cada mamada.

Quando, logo após o primeiro parto, perguntei se poderia amamentar e ouvi que não, iria ter muito tempo para isso; quando, deitada na cama hospitalar em que pari, senti náuseas fortíssimas ao tentar ficar sentada e prolonguei o jejum do meu pequeno sonolento por mais alguns minutos; quando o recebi depois no quarto, banhadinho e desperto, e decidi ir ao banheiro “me preparar” para uma solene mamada e ao retornar encontrei-o dormindo tranquilo no bercinho e não o perturbei; quando depois levei uma bronca da enfermeira por não ter aproveitado o momento em que ele teria mamado “super bem”.

Quando expus os peitos gigantes e quentes aos colegas de trabalho do meu marido, que nas visitas insistiam em falar com ele sobre o chefe e sobre futebol, enquanto eu tentava entender a causa daquelas agulhadas, avaliar a pega, marcar os minutos, tomar água sem mudar a posição do Davi e relaxar.

Quando persisti ao descobrir que a dor de cabeça lancinante que me acordou e a febre que eu sentia eram uma mastite aos doze dias de maternidade. Quando lutei sentada na cama, chorando para mãe e esposo, com broche de filho preso a vácuo, a dor nas costas, no períneo e nos mamilos. Disseram-me que então tirasse um pouquinho o nenê dali, para ajeitar melhor. Depois de muito ensaiar, gritei: “assim eu vou cair!” e quatro braços desavisados me ampararam rindo de nós. Quando suportei cada valeta do caminho para o consultório médico, quando, recostada no bebê conforto do filhote no banco traseiro do carro, sentia o balanço do carro chacoalhar duras pedras dentro dos meus pobres peitos, ricos de farto alimento neles preso.

Quando acordei muito mais vezes do que eu previa madrugadas adentro, meses afora, porque nos meus planos meu bebê teria o sono dos anjos.

Quando vivi a companhia solitária de meu filho, vendo a vida acontecer fora do quartinho dele, na minha dedicação exclusiva à livre demanda.

Quando sofri ao não conseguir tirar meu leite para guardar para minhas ausências, ao não conseguir doá-lo para bancos de leite.

Quando esbafori-me ao perceber que havia perdido a hora no mercado, e entrei em casa arrancando a blusa ao encontrar o Davi vermelho de tanto chorar com a mãozinha inteira dentro da boca.

Quando fui exageradamente firme ao proibir que ele recebesse qualquer gota de outro líquido, e quando, na virada dos seis meses, exigi de mim mesma que ele passasse a aceitar o que quer que eu achasse por bem oferecer a ele.

Quando amamentei dia e noite meu baixinho adoentado e inapetente, e quando essa doação integral foi o que eu mais quis.

Quando a frenquencia das mamadas foi diminuindo e só nos aninhávamos uma ou duas vezes por dia.

Quando o ouvi dizer para si mesmo, com dezenove meses, aquele “bô” tão perspicaz, e o vi pegar no sono ao meu lado, na penumbra.

“Ativei” o sucesso da amamentação mais uma vez quando meu caçula, ainda melado de barriga, mamou por quase uma hora enquanto eu tentava acreditar que ele tinha mesmo nascido no nosso ninho.

Quando o amamentei com o irmão no mesmo colo. Quando entreguei o irmão a outro colo para que pudesse amamentá-lo. Quando enfrentei novamente as dores e delícias de viver para aleitar, tendo agora que ler livrinhos, pintar figuras, montar torres e fazer comidinha.

Quando custei a assumir que podia, sim, estar sendo dolorido e difícil de novo. Quando me julguei pouco dedicada, quando me julguei incapaz.

Quando fiz do sling parte de mim e amamentei jogando basquete na quadra, assistindo à missa, almoçando.

Quando li uma biblioteca inteira na poltrona de amamentação, e quando, dela, assisti o Davi pegar no sono enquanto sua miúda mãozinha fazia cafuné na carequinha do Pi que mamava infinito.

Quando nossas noites se tornaram uma prova de revezamento de camas, ou a gincana do “acorde menos gente de uma vez”. Quando chorei deitada no chão do escritório com o Pedro no colo, pelo sono tão interrompido e pela dor de ninar mais do que dormir.

Quando vi meu leite misturado à mandioquinha preencher a boquinha suja do meu Pitoco comilão; quando decidi suspender a comida dele porque fiquei gripada, e topei amamentar mais ainda.

Quando me despi dos prazos que todos e ninguém nos colocavam, e amamentei até estar satisfeita. Quando respeitei meu menininho de vinte e dois meses pular no berço imitando o irmão sem passar pelo meu colo antes disso.

Quando, estes dias, depois de quase um ano, ele me pediu para mamar em “todos” os meus peitos, reclamando porque estão “murchados”, e me mandando cantar “nana” enquanto fechava os olhos falsamente e tentava se encolher ali, fazendo barulhinho de degustação com aquela bocona cheia de dentes aberta e risonha…

“Ativando” o sucesso da nossa história de leite e mel, ativei meu jeito de ser mãe, minhas mil transformações e as mil contradições dessa tarefa tão singular.

 

 

Texto postado por ocasião da blogagem coletiva sobre o tema: “Porque ser ativista da amamentação” (10 a 20 de agosto de 2012).

Pezinhos

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Acho pezinho de recém-nascido muito mais lindo de costas do que de frente. Bolinhas no lugar de dedos, todas aquelas ruguinhas paradoxais, o tamanhinho de nada. Com uns dois meses de recheio, aquelas extremidades se transformam em bisnaguinhas e adquirem chulé. Exatamente Isso aconteceu com os mini pés do Davi. E desde então ele tem os pés mais lindos do mundo. Quanto mais crescem, mais me apaixono por eles.

Dia desses me pegou sentada no meio do corredor, num raio de sol, e me deu alguma explicação incrível sobre suas descobertas – “sabia, mamãe, que o tanto de aniversários que a pessoa já fez é igual os anos que ela tem?” – ou me contou um causo bem esclarecido – “eu não vou quebrar seu vaso de cristal igual você quebrou o da vovó Ciça uma vez, e eu também já vi o tio Ricardo quebrar o do vovô Roberto uma vez que eu era pequeno e ele já era grande e o vovô já tinha o tamanho que ele tem hoje e a mesma cara”.

Só fiz rir pra ele, derretida de atônita, e deixei-o me embrulhar com seu sorriso de bem amado. Pedi um beijinho. Ele andou até mais perto, parou com os pezinhos descalços paralelos e abaixou para deixar um carimbinho babado na maçã do meu rosto de mãe.

Garanto que até ontem ele precisava ficar na ponta dos pés, com o corpinho gorducho e macio todo equilibrado em cima dos dedões, para alcançar meu rosto.

Mas ele cresceu. E no dia de hoje seus pés me surpreenderam mais muitas vezes. Quando subiram no banquinho sem reclamar para que ele lavasse as mãos sozinho, com sabonete e tudo. Quando apareceram de repente calçados com as meias novas que ganhou de presente. Quando mil vezes chutaram pelos ares, junto com a bola, os tênis grandes demais que insistiu em usar. Quando aceitaram dançar aquela música legal junto comigo, soltos e espontâneos. Quando saltitaram ouvindo pelo telefone o “Parabéns a Você” tocado ao piano, enquanto ele dizia “é meu aniversário! Hoje é o meu aniversário!”.

Davi, querido, cinco anos caminhando e seus pezinhos continuam tão macios e deliciosos de massagear antes de dormir. Cinco anos tropeçando, trepando, escorregando, pisoteando, correndo e mexendo devagarinho, dedinho por dedinho.

Que seus amados pés possam sapatear, saltar, marchar, arrastar-se e passear livremente pelas trilhas que você escolher. E que sejam elas sempre Iluminadas, para que você enxergue as nossas pegadas junto das suas.