Arquivo mensal: novembro 2012

Dinossauros católicos

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Há algumas semanas o que anima o Davi para ir à missa é a provocação: “mas e se o Gabriel estiver lá?”. Decide os brinquedos que vai levar pensando no amigo da escola, escaneia a assembléia em busca do coleguinha.

Hoje, achamos, eu e ele, nossos lugares num banco já cheio. Minutos após nos sentarmos, quando eu terminava de ler uma história da Bíblia para Crianças, bem ao pé do ouvido, com ele no meu colo, vi um sorriso sincero abrir-se: “eu vi o Gabriel”.

O Gabriel e sua família estavam exatamente na linha do nosso banco, do outro lado da igreja. Convidei-o com um gesto para vier até nós, e ele veio com seus cards de dinossauro. “Sabe meu dente que tava mole, Davi? Ó!”. Mostrou a janelinha na boca. A Fada do Dente presenteou-o com os dinos.

Passaram a hora revezando entre oração e bate papo, anquilossauros e a parábola do bom pastor, o mapa da Galiléia e o estegossauro. Deram-se as mãos no Pai Nosso, me disseram os nomes de seus padrinhos ao assistir o batizado, entraram num consenso sobre me acompanhar ou não na hora da comunhão.

O Gabriel me despistava com “mas a gente falando baixinho” e o Davi olhava para mim com um sorriso lindo – entre cúmplice, agradecido e bagunceirinho.

Interrompi uma das conversas empolgadas com “agora é hora de falar obrigado pra Jesus pelos nossos amigos”. “Mas na cabeça, tá, mãe?”, destacou meu filho encabulado.

Os fiéis ao redor de nós estavam certamente mais encantados com a vida viva e as gracinhas dos dois amigos, do que contrariados com o barulhê. Comovi-me ao perceber que a comunidade abraça a cada um, e que, assim como meus amigos sustentam minha vida, meu filhinho já tem sua vida sustentada pelos seus.

Depois da celebração, despedimo-nos da família do Gabriel com gostinho de quero mais. Entramos no nosso prédio, Davi muito mais saltitante que o normal. Me disse que adorou encontrar o amigo. E eu me lembrei: “Sabe o que Jesus falou uma vez, filho?”

“O que?”. “O que, mãe?”, parou de saltar pelo quadriculado do piso do hall, impaciente com minha demora em responder.

Engoli o choro e finalmente respondi: “Quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome” – novo fôlego embargado – “aí eu estarei”.

“Então ele estava!”.

Estava sim, filho. E permanecerá.

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Mozzzquitozzz

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Levantei enfurecida aos quarenta e cinco minutos de um novo dia. Como se um pernilongo petulante me dissesse ao pé do ouvido: “dzzurma com ezzze bazzzulho…”

Recrutei marido para a cama, amanhã viajaremos cedo. Ele demorou para entrar no quarto. Demorou para pegar no sono. Mas eu demorei mais do que ele. Até que resolvi levantar para matar o pernilongo que eu não conseguia enxergar só com a luzinha de apoio.

Olhos espremidos de sono e claridade, pés descalços no chão frio, cabelo insistindo em cair na cara. Três príncipes capotados ao meu redor, tão dormindo que não puderam apreciar minhas poses ninja em trajes pouco nobres correndo atrás daquele inferno em forma de mosquito. Que logo percebi serem dois. E que, depois de morrer esmagado pela terceira vez, compreendi serem mais.

Um foi avistado na tela de proteção da cama do Davi. Voou de mim assim que o ataquei. Outro, no osso do pé dele, ali mesmo, onde a picada mais coça. Sensação total de ineficiência. Por fim, vi um dos grandes na têmpora esquerda do meu branquelinho alérgico. Peguei fogo!

Comecei a confundir os restos mortais rodeados por sangue inocente com os próprios mini-vampiros. Qualquer sombrinha era suspeita, e bati vorazmente no teto e nas paredes com minha arma de alta destruição, uma camiseta branca (que talvez nunca mais volte a sê-lo).

Numa das minhas visitas à caminha do Pi ajeitada no chão, percebi que bem ali ao lado, debaixo da minha cama, havia a maior densidade demográfica de bichos. Então fiquei de plantão, abaixada por sobre ele, já salpicado de picadas e erupções alérgicas. Até que ele acordou.

Coçando-se, me perguntou o que eu estava fazendo. Depois disse choramingando que não queria mosquitos nele. Tranquilizei-o e menti que mataria todos, e que ele podia dormir tranquilo. Na luz acesa. Com a mãe montada em cima. Sei.

Ficou me mostrando com o dedinho em riste por onde voavam os pilantras. Minutos depois, quando eu bailava pelo quarto desviando de roupas sujas, sapatos de quatro tamanhos e malas abertas, ouvi uma espalmada forte – que não era minha. Mãozinhas abertas tocando-se ainda, montou um sorriso maroto, olhos fechados, e declarou: “matei!”.

Comecei a rir, tanto que o marido acordou. De sua posição estratégica, o alto do beliche, poderia ser um grande aliado. Recebeu como arma uma calça de pijama enrolada e ordens expressas de fogo. Passou a me indicar com um “ali-ali-ali!” todo movimento suspeito, e fiquei um tanto confusa entre as minhas presas e as dele. Decorei a geografia do quarto e passei a ser capaz de desviar de pernas, de livrinhos infantis jogados e das quinas doloridas dos móveis sem quase olhar.

A cada pouco, eu ia espantar o vento ao redor dos meninos e estimar quantos criminosos ainda haveria sob a cama pelo nível de ruído.

Numa das aproximações ao Davi, ele acordou, arregalou bem os olhos, testa franzida, e perguntou: “que foi?”. Já meio carrancuda, respondi apenas “matar pernilongo” e ele levantou  bambo, equilibrando-se sobre o colchão, resmungando “matar pernilongo agora?! Mas eu tô morrendo de sono!”, como se houvesse acabado de ser recrutado pela minha frieza assassina.

Gargalhei abraçando-o e devolvi-o ao seu colchão, mais coberto do que antes, apesar do calor. Ele pegou no sono ainda com a mímica do sorriso no rostinho, tanto ri que riu comigo, sonado e tudo.

Matamos uns nove. Desisti rendida pela frustração e desiludida pelo número progressivo de filhos de uma p…. ernilonga-pouco-criteriosa-para-a-escolha-de-parceiros que surgiam dos mais inusitados lugares.

Deixamos o quarto salpicado de cadáveres, sim, mas mais salpicado de bolinhas vermelhas ficou o rostinho do Pi.

Transpirei nessa brincadeira mais do que nas caminhadas de final de tarde ao pôr do sol ardente de Bofete, mas em certo momento senti que algo no ar estava mais fresco, e resolvi deitar um pouco, apenas para observar o movimento.

Planejando o equipamento anti-mosquito da próxima temporada, percebi que começara a sonhar e resolvi escurecer de tudo o resto de noite que ainda me sobrava. Com as mãos sujas de sangue, a cabeça coberta pelo lençol e um sussurrado “zzzabia que o zzabiá zzzabia azzzzobiar” no ouvido, dormi até o amanhecer.

Horas depois, levantamos nos coçando, recolhendo os vestígios da batalha sangrenta, e conversando empolgados sobre o filme de ação que azzzistimos na madrugada.

Bonança

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Dei no Davi uma briga desproporcional.

As desculpas vieram de onde não deviam e, agachada diante dele, procurei desenrolar-me daquela passional injustiça.

Pingos nos ii, perguntei: “porque você não me olha nos olhos?”. Atendeu de baixo para cima, queixinho no peito. Vendo meu sorriso, empinou um pouco mais o nariz.

“O que você tá vendo bem no meio do meu olho?”.

Prestou bem atenção e quadradinhos preciosos de marfim cravados na gengivinha doce vieram à luz, num sorriso brilhante: “Eu!”.

Sentenciei, escutando surpresa cada palavra inspirada que eu mesma dizia: “Aparece pelo olho o que a pessoa tem dentro do coração”.

Aproximou-se num impulso de aconchego. Caímos juntos no chão. Doeu. Rimos abraçados, gargalhada retroalimentada pelo alívio da reconciliação. E pelo desajeitado do tombo também.

Palmas para ele

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“Faz massagem no meu pé?”, foi o último pedido feito hoje pelo aniversariante do dia.

“Faço, qual música você quer que eu cante?”

Olhou para cima soltando um “é…” mimoso e me encarou sorridente e entusiasmado para responder, com os olhos apertados de sapeca: “Parabéns a você!”

Mediante os protestos debochados do irmão, que atestou que essa não era uma “música de dormir”, portou-se como se espera de um serzinho pronto para relaxar: semblante sério, olhos fechados, mãos ao longo do corpo… que logo começaram a batucar progressivamente no colchão e na barriga, até se encontrarem ritmadamente, palma a palma.

Sua primeira reação do dia ao “Parabéns” foi de negação. “Não tenho teis anos, tenho drois. Só depois ou fazer teis, depois crato, depois srinco”. Quando telefonou a tia pianista, o aniversariante envergonhado tapou os olhinhos com as mãos branquelas e acompanhou cantarolando “não-não-não / não-não-não!/…” no ritmo da canção que ouvimos pelo viva voz.

Ao longo do dia, foi amolecendo à comemoração, e sensibilizando-se com os muitos carinhos e felicitações que recebeu.

Recebi os parabéns até eu, por “há três anos ter feito a proeza de pôr esse nenê em cima da cama”. Foi, sem dúvida, uma das melhores coisas que fiz na vida. Uma forma absolutamente respeitosa de receber neste mundo uma pessoa tão especial. Minha rendição à Natureza que opera sabiamente em nós.

Tantos episódios na minha relação com o Pi são feitos de entrega e totalidade, mas foi desse primeiro capítulo que me lembrei esta manhã, quando ele apareceu correndo desnorteado até que me encontrasse. E fiz questão de deitar com ele no colo, no mesmo lugarzinho da cama em que o recebi recém-nascido. Há três anos o achei tão pequenininho, e agora quase não me cabe nos braços.  Mas no meu coração sempre haverá um espaço cada vez maior para que possa aconchegar-se e bater suas palmas.

Aplausos. É isso que a Vida merece quando se trata de você, meu Pi.