Arquivo mensal: dezembro 2012

Fina estampa

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Quando eu estava grávida do Davi, idealizava algumas reações que uma boa mãe deveria ter às atitudes da criança. Não tecia planos sobre tudo apenas porque não me passavam pela cabeça muitas das atitudes às quais seria um dia necessário reagir.

Antes mesmo que a primeira vítima o primeiro filho nascesse, recebi em casa meu afilhado, com uns dois anos e meio. Naquela tarde, estava também o meu pai, para quem o pequeno disse que queria desenhar.

Não tenho a menor lembrança do que é que me ocupava durante aqueles minutos após os quais eu percebi no apartamento uma quietude incompatível com um bebezão. Fui procurá-lo e encontrei-o no corredor com cara de nada e o lápis na mão. “Que é isso? Onde tava?” Resposta ausente. “Pá, cê que deu esse lápis pra ele?” “Foi, mas dei papel também!” Justificou-se o precavido. Achei meio amassado no canto do corredor um papelzinho de recados rabiscado. Medidas: nove por nove centímetros.

Andando cada vez mais devagar, cheguei à parede escolhida. Autografada. Afrescos personalizados. Agachei com minha média pança entre as pernas abertas e ralhei: “olha minha cara! Não gostei! Muito feio. Dá o lápis. Agora vamos limpar”.

Peguei na lavanderia um balde d’água e uma daquelas esponjas mágicas, da turma de coisas que encheu minha residência em seu primeiro ano de existência. Os olhinhos semi envergonhados do baixinho brilharam cheios de planos. Ajudar na limpeza parecia ainda mais divertido do que sujar. Constrangida perante mim mesma, reformulei: “Você vai olhar eu limpando, sem mexer na água e sem pegar a esponja”. Impacto zero.

Os meses passaram, pari um, danos gráficos na decoração praticamente ausentes.  Passaram dois anos, pari o segundo, uma carimbada no sofá aqui, uma canetada no estofado da cadeira ali, uns esfolados de giz de cera nas paredes de corredor…

Adquiri muitas reações nunca planejadas às atitudes nunca imaginadas que os filhos podem vir a ter. Dos gritos e das broncas deu até para enjoar. Saí correndo, sapateei, chacoalhei, sentei e chorei. Aprendi algumas realmente admiráveis e fui instrumento de outras bárbaras da coleção nível avançado do Espírito Santo.

Mas nunca mais precisei lidar com parede rabiscada. E, com o segundo filho transpondo a barreira dos três anos, achei que estivesse livre. Até esta tarde.

Lavava a louça, assessorava o corte de cabelo coletivo do bonequinho de alpiste e montava uma ponteirinha de lápis recortada da caixinha de gelatina quando o Pedro sumiu com um pedação de durex. Pedi que voltasse e troquei-o pelo lápis novo com a zebrinha na ponta. Ausentou-se enquanto eu terminava a Maria mole e respondia às chamadas orais do Davi. Retornou como se nada tivesse acontecido.

Só notei a nova decoração da casa quando nos preparávamos para um passeio – embora parte dos eleitores preferisse ficar assistindo a um novo DVD. Eu tinha duas escovas de dentes nas mãos quando deparei-me com os arabescos. Parei, muda, e fiquei olhando. Mãos na cintura. Pasta dental melando a saia. Não sabia nem por onde começar. Sensação de enferrujada.

“Pedro, você sabe o que eu estou vendo?”

“O filme da caixa verde!”

“Não. Uma outra coisa bem aqui na minha frente.”

Andou com seus pezinhos chatos até embaixo de mim.

“Ah. Fui eu que fiz. Mas eu não queria”

“Você não queria? E sua mão fez sozinha?”

“Não. Com o lápis”.

Abaixei o olhar, apertei os lábios, virei o rosto, mas obviamente não deu. Escapou a gargalhada. Saí de perto e ouvi a conversa atrás de mim.

“Davi, ela tá chorando? Aaaaai… Não! Tá rindo! Hahaha…” Silêncio da dúvida.

Voltei. Olhei. Suspirei. Fiz caretas. Resmunguei e fui providenciar três boas borrachas.

Quando voltei, vi o Pedro em frente à parede personalizada abraçando seu cachorrinho de pelúcia e chorando amargurado. Pela culpa de ter riscado a casa? Não. Porque julgou – muito corretamente – que não assistiria o filme da caixa verde. E só.

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Tecnoel

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—– Mensagem encaminhada —–
De: Aline Gerbelli <aliluvi@yahoo.com.br>
Para: “papainoel@polonorte.com” <papainoel@polonorte.com>
Enviadas: Terça-feira, 18 de Dezembro de 2012 9:35
Assunto: Presentes de Natal Davi e Pedro
Querido Papai Noel,
Como vai o senhor?
Nós somos Davi, mamãe, papai e Pedro.
O Davi tem 5 anos. Gosta de correr. Está na fase 4, já de férias. O amigo dele é Gustavo. Torce para o São Paulo.
O Pedro tem 3 anos. Todo mundo o chama de Pi. Gosta de pular. Está na natação. O amigo dele é o Davi. Torce para o São Paulo.
Sobre as boas ações do ano:
O Davi gostou muito do Pedro. Este ano aprendeu a mexer com celular e com faca e não machucou ninguém com coisas que não são o corpo. Já toma banho sozinho. Aprendeu a mexer com máquina fotográfica sempre pendurando no pescoço. O Davi fez exercício, correu muito e foi saudável. Comeu berinjela e comeu tomate sábado. Empresta a luva laranja para o Pi.
O Pedro gostou muito do Davi. Ele aprendeu a usar o banheiro e não usa mais fralda. E lavar as mãos também! Ele olha para a foto fazendo cara linda e não se esconde. O Pedro tomou muita água e comeu panqueca e milho. Ajudou o irmão a procurar e encontrar a bolinha do Fluminense.
Demos um monte de coisas embora para quem precisa, como bolas. Colocamos as coisas para reciclar. Usamos os dois lados do papel. Economizamos água. Cada um aperta um botão do elevador. Esta noite os dois dormiram o tempo inteiro sem chamar a mamãe.
Sobre os presentes:
O Pi gostaria de ganhar um relógio do Ben 10 verde.
O Davi gostaria de ganhar um caleidoscópio.
Desejamos a você e sua família Noel um Feliz Natal. A coisa mais importante do Natal é que o Menino Jesus nasceu.
Um beijo e um abraço!
DAVI  B. e PDRO (pi)

O universo paralelo do sono

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Uma vez, há alguns anos, imprimia muito cuidadosamente cópias do volume da minha qualificação de mestrado para encadernação no dia seguinte, quando a tinta da impressora acabou. Não tínhamos reserva em casa. Eram dez horas da noite. Mantive a calma, procurei não me taxar de irresponsável e tomei coragem para a atitude mais acertada: pedir socorro para o meu pai, que já devia estar dormindo com os anjos haveria ao menos uma hora.

Telefonei. Ele me atendeu bem humorado, estava mesmo dormindo, mas não via problemas em acordar para me atender, nem em seguir as instruções minuciosas que eu enviaria por e-mail; na manhã seguinte os volumes estariam em minhas mãos. Foi tão solidário e compreensivo, que até brincou comigo: “a tinta da impressora é como os grampos do grampeador: só acabam quando a gente está usando”. Ri, relaxei, confiei.

Na manhã seguinte, aliviada pela conclusão de uma etapa, pisei na garagem de casa uns minutinhos mais tarde do que o comum, e percebi um vulto em frente ao portão. “Você não está atrasada, mocinha?”. Recebi no colo cinco blocos de papel cuidadosamente separados, ordenados e identificados.

O semblante sério de meu pai soou incompatível com a receptividade dele na noite anterior. “Tá tudo bem, Pá?”. “Tudo bem, mas você não acha que arriscou muito em me pedir uma coisa assim tão importante por e-mail, sem nem me avisar? E se eu por acaso não olhasse o computador ao acordar?”.

Agradeci e peguei a estrada; estranhei o mal entendido, repassei todo o evento no longo caminho até a faculdade, não conseguia ligar as pontas. Mais tarde, com os volumes entregues à encadernação, surgiu-me uma hipótese. Telefonei para meu “pai pra toda obra” e descobri que ele não tinha registro mnemônico do telefonema, apenas do e-mail – que acreditou ter lido em tempo hábil por pura sorte. Nesse caso eu tive, realmente, muita sorte.

Recorri aos detalhes emocionais da história, não são eles que fazem a ponte entre os amnésicos e sua própria mente nos lindos filmes? “E não te soa familiar que os grampos do grampeador teimem em acabar única e exclusivamente quando estamos usando?”. Silêncio. Confusão mental. “Alguém me falou isso esses dias”, ele disse encafifado, e completou: “não foi você?”. “Por e-mail?”, eu retruquei. Não, ele sabia que aquelas palavras haviam sido trocadas na modalidade oral, e começou a desconfiar de uma lacuna em sua linha óbvia de raciocínio, e não de uma atipia em minha linha – geralmente confiável – de ação. Até que se convenceu: eu realmente telefonara para ele. Quando ele estava dormindo.

***

Esta semana voltei do clube ao anoitecer com os meninos exaustos, o Pedro adormeceu no carro. Coloquei-o na cama bem cedo, ele ficou. Hora e pouco depois, fizemos barulho demais e ele choramingou. Entrei no quarto abafado e, vendo que estava suado, ofereci água a ele. Ficou de quatro, com os joelhos apoiados no colchão e as mãozinhas no travesseiro, sugando a água do copinho com válvula tão bichinho e tão branco como um hamster.

Tomou meio copo e parou para respirar. Para minha surpresa, tornou a sugar muitos goles. Engasgou e suspendi a água – eu, mãe, não tinha interesse em tanto xixi. Deitou e sussurrei a ele que achei seu boneco (que há dois dias ele procurava pela casa). Muito me espantou vê-lo segurar o Buzz com firmeza –, ele que, diferente do irmão, prefere dormir livre, leve e solto dos bichos e dos amigos.

Ajeitou o corpo do Buzz na mãozinha com muito tato, e… começou a chupar-lhe a mão de borracha. Incrédula, segurei o riso e observei. As sobrancelhas franziam, os sulcos nas bochechas indicavam a força crescente de sucção.  Nada feito. Ainda com os olhos fechados, segurou o boneco com as duas mãos, e fez-lhe rodopiar. Abocanhou um pé, e dá-lhe sugar a botina. Eu sentia os meus olhos espremidos molharem de riso, o abdômen doer, o fôlego faltar. Antes de meter na boca o terceiro membro ele abriu os olhos levemente, mas não registrando o que viu, pôs- se a chupar com esmero a mão esquerda do boneco. Suspeitou do encaixe, chupou-a de costas. Não aguentei e sonorizei um breque da minha gargalhada. Ele abriu os olhos e riu também, uma risadinha social. Aceitou, sem perceber direito, que eu trocasse o Buzz pela água, tomou mais uns ml, deixou o copo ao lado do travesseiro e virou de lado, deitado sobre as mãozinhas. Dormiu até o amanhecer.

Ao sabor do futebol

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Tanto me exigiu e me pediu mil coisas, que com a fúria da provocação eu disse sim ao futebol. Levantei do sofá tonta com o contraste da moleza de até então, e disse palavras irônicas e impacientes.

Procurei a bola no lugar errado, bati uma porta barulhenta e vi meu filho de olhos arregalados e sorriso excitado assistir meus movimentos agressivos.

Chutei. Com toda a força da minha perna direita, lábios apertados. Uma bomba categórica, como nos velhos tempos. Os três primeiros lances do jogo foram gols meus, estourados no muro de chapisco.

O anjo da guarda, com a faixa de capitão, protegeu o nariz do Davi e a minha consciência de jogadas perigosas.

“Você tá gostando?”; “Nossa, mamãe, você joga muito bem!”; “Puxa, você conhece muito as regras do futebol”, ele me dizia elogios, voz querida e sedutora, gratidão e remorso misturados. O jogo terminou doze a um pra mim. Antes de perder mais feio ele interrompeu a partida, divulgando os resultados, com uma positividade inventada ali mesmo.

Ouvindo-o narrar o jogo, com um estilo tão menino e tão universal, deixei ecoar em minha memória o som forte das trombadas da bola murcha na parede. Estava ali com toda a força dos meus músculos revoltados (até pelo arrependimento de não ter dito um sim livre e natural). Mas o que me fez jogar tão bem não foram os meus tênis rosa choque ou meu merecido condicionamento físico. O que contribuiu na qualidade do meu desempenho foi a memória muscular do espaço, a memória auditiva do som do gol, a memória sensorial do sol no rosto e, principalmente, a memória emocional da competitividade que menininhos vaidosos e competitivos provocam, desde sempre, em meu ser.

Transpirando e pirando, corri, pulei, mirei, chutei e – o mais difícil – segurei o sorriso que insistia em surgir no cantinho dos meus lábios a cada gol sortudo, a cada bomba eficaz e a cada vez que via o Davi admirado.

“Quando o menino joga futebol e corre muito, sai água da cabeça”, me disse hoje o Pedro, explicando, como ninguém, o suor. Nesta partida relâmpago, não eliminei apenas água salgada, mas também culpa amarga, críticas ácidas, humor azedo e muitas, muitas doces memórias.