Fina estampa

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Quando eu estava grávida do Davi, idealizava algumas reações que uma boa mãe deveria ter às atitudes da criança. Não tecia planos sobre tudo apenas porque não me passavam pela cabeça muitas das atitudes às quais seria um dia necessário reagir.

Antes mesmo que a primeira vítima o primeiro filho nascesse, recebi em casa meu afilhado, com uns dois anos e meio. Naquela tarde, estava também o meu pai, para quem o pequeno disse que queria desenhar.

Não tenho a menor lembrança do que é que me ocupava durante aqueles minutos após os quais eu percebi no apartamento uma quietude incompatível com um bebezão. Fui procurá-lo e encontrei-o no corredor com cara de nada e o lápis na mão. “Que é isso? Onde tava?” Resposta ausente. “Pá, cê que deu esse lápis pra ele?” “Foi, mas dei papel também!” Justificou-se o precavido. Achei meio amassado no canto do corredor um papelzinho de recados rabiscado. Medidas: nove por nove centímetros.

Andando cada vez mais devagar, cheguei à parede escolhida. Autografada. Afrescos personalizados. Agachei com minha média pança entre as pernas abertas e ralhei: “olha minha cara! Não gostei! Muito feio. Dá o lápis. Agora vamos limpar”.

Peguei na lavanderia um balde d’água e uma daquelas esponjas mágicas, da turma de coisas que encheu minha residência em seu primeiro ano de existência. Os olhinhos semi envergonhados do baixinho brilharam cheios de planos. Ajudar na limpeza parecia ainda mais divertido do que sujar. Constrangida perante mim mesma, reformulei: “Você vai olhar eu limpando, sem mexer na água e sem pegar a esponja”. Impacto zero.

Os meses passaram, pari um, danos gráficos na decoração praticamente ausentes.  Passaram dois anos, pari o segundo, uma carimbada no sofá aqui, uma canetada no estofado da cadeira ali, uns esfolados de giz de cera nas paredes de corredor…

Adquiri muitas reações nunca planejadas às atitudes nunca imaginadas que os filhos podem vir a ter. Dos gritos e das broncas deu até para enjoar. Saí correndo, sapateei, chacoalhei, sentei e chorei. Aprendi algumas realmente admiráveis e fui instrumento de outras bárbaras da coleção nível avançado do Espírito Santo.

Mas nunca mais precisei lidar com parede rabiscada. E, com o segundo filho transpondo a barreira dos três anos, achei que estivesse livre. Até esta tarde.

Lavava a louça, assessorava o corte de cabelo coletivo do bonequinho de alpiste e montava uma ponteirinha de lápis recortada da caixinha de gelatina quando o Pedro sumiu com um pedação de durex. Pedi que voltasse e troquei-o pelo lápis novo com a zebrinha na ponta. Ausentou-se enquanto eu terminava a Maria mole e respondia às chamadas orais do Davi. Retornou como se nada tivesse acontecido.

Só notei a nova decoração da casa quando nos preparávamos para um passeio – embora parte dos eleitores preferisse ficar assistindo a um novo DVD. Eu tinha duas escovas de dentes nas mãos quando deparei-me com os arabescos. Parei, muda, e fiquei olhando. Mãos na cintura. Pasta dental melando a saia. Não sabia nem por onde começar. Sensação de enferrujada.

“Pedro, você sabe o que eu estou vendo?”

“O filme da caixa verde!”

“Não. Uma outra coisa bem aqui na minha frente.”

Andou com seus pezinhos chatos até embaixo de mim.

“Ah. Fui eu que fiz. Mas eu não queria”

“Você não queria? E sua mão fez sozinha?”

“Não. Com o lápis”.

Abaixei o olhar, apertei os lábios, virei o rosto, mas obviamente não deu. Escapou a gargalhada. Saí de perto e ouvi a conversa atrás de mim.

“Davi, ela tá chorando? Aaaaai… Não! Tá rindo! Hahaha…” Silêncio da dúvida.

Voltei. Olhei. Suspirei. Fiz caretas. Resmunguei e fui providenciar três boas borrachas.

Quando voltei, vi o Pedro em frente à parede personalizada abraçando seu cachorrinho de pelúcia e chorando amargurado. Pela culpa de ter riscado a casa? Não. Porque julgou – muito corretamente – que não assistiria o filme da caixa verde. E só.

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