Arquivo mensal: março 2013

Biscoitinhos da Semana Santa

Padrão

Nem bem curado das dores e da mamãezite que acompanham a gripe ele estava, aceitou o convite para fazer Biscoitinhos da Semana Santa. Deixou as mãos serem lavadas aflito, vendo o irmão, já asseado, obtendo as arriscadas raspas de um limão. “O outro é meu!” protestou, custando a entender que um mesmo limão renderia o trabalho dos dois ajudantes de cozinha.
Destino pouco criativo o desta tarde: o esperado aconteceu, e além da casca do limão, mamãe e filhinho ralaram, (des)coordenados, a pontinha de um dos menores dedos médios da casa. Para deleite dos mais cruéis, imediatamente besuntado no suco de limão. Gritou de lábios roxos. Sentei-o e agachei a sua frente, disponível.
Observei recentemente que, ao ceder o choro, ele cruza os bracinhos em frente ao tronco, mãos apertando os ombros, como quem se abraça. Acarinhei seus joelhinhos e, pensando nessa percepção, prossegui os afazeres, abrindo o armário logo acima de nossas cabeças. De onde caiu uma caixinha de milho verde. Que quicou com a quina na cabeleira loira da vítima do dia.
Choro cansado e lábios muito roxos. Rindo sem dever, poupei-o desta vez de usar seus próprios bracinhos e abracei-o pelo tempo que precisasse. Foi apaziguando. Continuamos abraçados, até que irrompeu um comentário ressentido:
“Ah, eu queria ser o Pi!”
“Porque? Cê queria ralar seu dedo no limão e levar uma caixa de milho na cabeça?”, bem humorada, provoquei o senso de realidade do mais velho.
“Não, mamãe, é que eu queria ficar assim com você”, disse ele, baixinho: em tom de voz, em ângulo das comissuras labiais, em alvo do olhar. Cheguei bem perto, abracei-o. Minhas mãos estavam mais frias que seu pescoço e sua cintura. Ele está tão grande, e ainda assim consigo dar duas voltas nele com meus braços…
“Eu sei que você quer carinho. Sabe, as mães se preocupam muito em cuidar dos filhos pequenos, que são mais atrapalhados, e cuidam menos dos filhos maiores, que já sabem fazer as coisas”. Dei um ou dois bons exemplos de sua independência . Silenciei. Deixei-me sentir o que ele sentia. “Comigo também aconteceu isso, filho, porque eu era a criança maior da minha casa, igual você. Eu sei do que você está falando. Mamãe tá aqui. Te amo.” Olhou-me comovido e, quando o irmão pulou da cadeira para bagunçar outras bandas da casa, começou a me ajudar com as medidas e misturas.

“Abraço de mãe é doce, bronca é muito azedo. Dedo machucado é azedo, mas conseguir tirar sozinho a camiseta é bem docinho. Ah! Comer biscoito gostoso é uma coisa doce.”

Biscoitinhos da Semana Santa:

• 3 xícaras (chá) de aveia em flocos finos
• 1 xícara (chá) de açúcar
• 1/2 xícara (chá) de margarina
• 1 ovo
• 1 colher (chá) de fermento em pó
• 2 colheres (sopa) de suco de limão
• 2 colheres (sopa) de raspas de limão
Misture tudo e ponha colheradinhas numa assadeira untada e enfarinhada. Leve ao forno médio por uns 20 minutos.

Sabemos que alguns de nossos dias podem ser amargos e que passamos por circunstâncias azedas como o limão.
Mas a alegria pelos dons que recebemos e a esperança de dias melhores têm o doce sabor do açúcar.
A aveia é um cereal completo e nutritivo, assim como a rica Semana Santa que vivemos, capaz de nutrir nossa fé na Vida.
Desejamos uma Santa Semana a você e sua família e… uma Feliz Páscoa!
Davi, Pedro e família. (mar/2013)

Desarmados

Padrão

“Mamãe, brinca comigo?”
Depois que essa pergunta ficou sem resposta pela quarta vez consecutiva, decidi olhar para a caixa que ele balançava ao meu lado. Respondi que brincaria, ao lembrar que anteontem ele já me pedira para jogar Pula Pirata. Ainda continuei digitando por alguns minutos enquanto o ouvia despejar as espadinhas pelo chão da sala e falar sozinho. Fez uma conversa entre o Pirata e o barril (nome artístico: “Balde”). Fez um barril com asas. Fez três espadinhas coloridas serem bebês. De um ano, de dois anos, de três anos.
Sentei ao seu lado questionando se espadas de três anos são mesmo bebês. Sim, eram. Tinha certeza? Tinha. De três anos? (empreguei todas as ênfases paralinguísticas). Respirou fundo enquanto espalmava a mãozinha esquerda: “na minha imazinaçã-ão!”. Ah, bom.
Ele cuidaria do Pirata e eu das espadas. Na minha imaginação esse jogo poderia ser muito sem graça, mas eu estava bem enganada. O Pirata emprestou uma sequência de tosses sequinhas de seu manipulador, e precisou entrar no barril para proteger-se do frio. Pediu então uma colherada de mel, e tossiu mais ainda ao tirar da boquinha a espada vermelha: era mel de pimenta! Recebeu, então, mel de verdade, vindo de uma espada amarela.
“Agora essas espadas é minhas e essas é suas.”
“Tá bom”. Enquanto organizava minhas armas, continuei: “Pi, deixa eu te ensinar um coisa?” Olhou com toda atenção. “Quando tem muitas espadas, a gente fala ‘as espadas são’. Sabe? Não ‘as espadas é’, é ‘as espadas são’. Fala?”
“Essas vermelhas são m… meus”.
“Minhas”.
“Não, minhas!”
Risos. “Isso mesmo, elas são suas”.
“E essa espada é o espeto do Pirata” – prendeu uma delas pelo cabo no orifício maior do barril, nas costas do personagem.
“Tá, a amarela” (sem justificativa, eu quis brincar mais com a linguagem).
“Não, vermelha”, disse sorrindo malandro.
“Olha bem, filho”, retruquei displicente.
Descruzou as pernas agilmente, ajoelhou, ficou de quatro, examinou a cor da espada com as sobrancelhas franzidas. Mantendo a expressão levantou o queixo e olhou para mim, bem nos olhos, sem nada a defender, apenas intrigado: “é vermelha.”
Uma gargalhada travessa escapou do meu plano de investigação e desmontou a apreensão do loirinho. Era vermelha, claro que era. Aproximei-me, rindo, de seu rostinho, lindo. Pronta para dar um cheiro. Ele afastou-se. “Deixa eu cheirar você, vai?” Ruidinho mimoso de consentimento, mas à proximidade da minha face só pôde fazer o que lhe foi mais natural. Estalou-me um beijinho bem doce, enquanto eu sentia seu tão querido perfume de filho.

Eis-me aqui

Padrão

Chegou à Igreja, missa começada. Cederam-lhe logo um lugar. Vestia boas roupas. Barba e cabelos finos salpicando a careca. Tossia muito nas mãos magras de unhas bem aparadas. Rezou sentado, completamente curvado no banco. Elegeu poucos momentos para ficar em pé. Um deles, no ofertório, foi para retirar do bolso a carteira, e dela uma nota de cinquenta. Escândalo dos meus olhos e admiração da minha alma. A precariedade do corpo deve ter esclarecido a ele em que empenhar as economias.

Não sei seu nome, impossível estimar sua idade. Durante uma crise de tosse, toquei-lhe as costas e ofereci-me para buscar um copo d’água. Com o rosto amarelo e o sorriso maior do que nunca – sendo os dentes os únicos não emagrecidos – agradeceu, justificando com frases sobre o pulmão e o tratamento. Amanhã é dia de quimio.

Passou a missa segurando a bengala, o boné e uma agenda de 2012. Pensei que os três símbolos o resumem: a bengala apóia o fio de vida; o boné nas mãos indica a devoção; a agenda de ontem declara que tem consigo seu passado. O futuro, a Deus pertence.

Consciência limpa

Padrão

“Nota paulista?”

“Bom dia, filha, tudo bem com você?”

“Tudo…” Respondeu baixinho a operadora de caixa ao senhor que começava a atender.

Procurando a chave do carro na bolsa e empurrando o carrinho de compras, eu pensava na simpatia dos senhores e senhoras que cruzam meu caminho. A que, sem nem me conhecer, me revelou que adora goiaba, mas achou essas pequenas demais; o que esperou com calma e sorriso meus filhos de mãos dadas superarem as calçadas acidentadas; o que acompanha nos encontros de elevador as buscas pelo boneco perdido do Pedro.

Chegando ao carro, percebi ter esquecido de pagar o detergente. Deixei as sacolas e voltei para dentro do mercado. “Moça, ficou no carrinho e esqueci de passar”. “Ah, tá, já passo pra você.” A naturalidade dela me confortou.

Faltava tomar coragem de olhar para o senhor do bom-dia-filha, cujo atendimento interrompi sem introdução. “Tá vendo como tem gente-“ (suspense mental: o que eu sou? O que eu sou, na concepção do senhor educado?) “-honesta?”. (Ufa.)

“É… Que mundo a gente quer?” Disse eu diante da aprovação.

“Então… Cê não vai se sujar por uma coisa dessa…”

“Não… Ainda mais por uma coisa que é pra limpar, né?”

Rimos nós três e, guardando minhas moedinhas, respondi de cabeça baixa às despedidas dos dois. Para esconder o rosto comovido.

Cena pitoresca de um mundo melhor.