Arquivo mensal: maio 2013

Doses homeopáticas

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Sei que com esse post corro o risco de ter meu blog fechado pela vigilância sanitária, mas vamos ao assunto.
Temos uma coleção familiar de medicamentos homeopáticos. Uma farmacinha itinerante, acionada quando alguém cai de cama no fim do dia (sem ser pelo sono que atinge os Gerbelli e as galinhas logo ao cair da noite); quando alguém nem sai da cama ao raiar do sol; quando alguém se acidenta (netos e avôs são bons nisso); quando a farmácia de manipulação está fechada e depois de muitas tentativas conseguimos contato com o médico.
Em gavetas reservadas, ou num cantinho do armário de copos, ou em caixas de sapato infantis etiquetadas por inicial, ou em nécessaires fofas cheias de penduricalhos charmosos. Cada um da família tem seu estilo. Uma sabe de cabeça se tem ou não o remédio naquela potência, porque são quatro bocas em casa para medicar. Outro não sabe de cabeça, mas consulta em instantes sua planilha de Excel super atualizada, e descobre até em que endereço está aquele determinado vidrinho.
Seria muito curioso investigar no repertório homeopático os sintomas da minha tia na data de manipulação daqueles glóbulos que tanto me ajudaram mês passado. Tenho um primo que corre para a internet ao chegar em casa da consulta médica, e confere tintim por tintim a indicação do remédio de fundo cuja receita acaba de receber em mãos. E rola de rir pensando: “não sabia que estava tão grave”.
Uma vez, contorcida de cólica menstrual, bati os olhos no rótulo do vidrinho que tanto me ajudava e li nele o nome do meu avô. Tudo bem, existe uma explicação plausível, já que o remédio cobre muito bem sintomas repentinos, mas meu senso de humor não se conformava em imaginar o Pedrão naqueles dias…
Os rótulos contêm uma série de informações personalizadas. E podem-se imaginar as circunstâncias em que os pedidos são feitos percebendo os errinhos que aparecem ali: A “Dra. Silvia” não existe, Dr. Sylvio é homem. Não temos “Riberto” na família. E não conhecemos médico algum chamado “Silvio Roberto”…
De vez em nunca arrumo minha remedioteca. Confesso que fico com os olhinhos paralizados nos rótulos dos remedinhos do Pi, porque assim, em letras impressas, ler “Pedro Gerbelli” dá muita saudade…
Hoje, fazendo uma faxina, encontrei remédios muito vencidos. E percebi que a parte deles eu tenho um apego afetivo. Os frasquinhos encomendados nos últimos dias de gestação e utilizados nos primeiros dias de puerpério… Aqueles com anotações a caneta no rótulo, para não nos confundirmos quando os doentes eram múltiplos… Claro que a doença não dá saudade. Mas é legal demais perceber – com o apoio de objetos paupáveis – que a saúde voltou. E que conseguimos passar pelas muitas crises da história. Em doses homeopáticas, claro.

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Dicionário de crianças queridas

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Eu também li http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/05/dicionario-de-criancas-colombianas.html e fiquei curiosa para saber os conceitos que têm meus fofos. Embora sabendo que o trabalho de colher definições espontaneamente surgidas é mais fidedigno – e delicioso! – não me dei tempo para isso e resolvi sabatiná-los durante um lanche no clube. Seguem minhas definições preferidas:

Adulto: é uma pessoa que cresce muito e está quase morrendo.
Céu: é o lugar que Deus vive. E o céu que dá para ver daqui não é nada, é só azul.
Deus: é uma coisa que nunca morre, um menino que já cresceu, ficou um pai e nunca morre.
Dinheiro: é uma coisa que as pessoas usam para comprar e é brilhante.
Escuridão: é uma coisa escura. É uma coisa que Jesus não gosta, que é contra Jesus.
Mãe: é uma pessoa grande que nem os velhos e as mães têm filhos.
Raiva: é quando alguém bate em alguém, quando uma pessoa grita muito e sacode o menino até ele se despedaçar.
Tempo: é uma coisa que fica mudando, se a gente fosse uma televisão e pausarem a gente o tempo fica congelado e se apertarem o botão de pausar a gente pode correr rápido.
(Davi, 5 anos)

Amor: é dar um beijo.
Bronca: é quando você briga com alguém.
Deus: é quando Deus fica bonito e feliz e orgulhoso.
Guerra: é que alguém segura na costa e na barriga e aí joga.
Lua: a lua fica no céu e brilha muito, muito, muito até morrer e aí ela vive, morrer, vive, morre, vive, morre, vive, aí pronto.
Raiva: é bravo.
(Pedro, 3 anos)

Três histórias

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Neste dia das mães, três imagens não me abandonam. Poderão vir a ser crônicas poéticas um dia. Hoje, só um aperitivo.

1) Mulher deitada em maca de parto, esperando em algumas caretas e alguns gemidos. Quase sozinha. Estou ali, mas finjo que não. Não sei o que fazer. Não sei o que significa nada daquilo. Até que ela me pede para ajeitar sua perna que quase cai do apoio. O faço sorrindo. A mulher agradece. Espero. Mariana nasce.

2) Colocamos as flores coloridas, compradas no cemitério, em frente à foto da trisavó, no dia em que completaria 104 anos. O trisneto senta no túmulo ao lado, joelhinhos juntos, mãos postas em frente ao nariz, cabecinha baixa. O som do silêncio que poucos lugares têm. “Pronto, mamãe, já rezei no meu coração”.

3) Serelepe brinca com a pulseira de identificação do hospital ortopédico. A pulseira já amassou, perdeu a cola, ouviu choramingos e reclamações do irritadiço chulezento, sem o gesso após 15 longos dias. “De que herói é essa pulseira?” ele quase grita. Sugiro vários, nenhum satisfaz. “Da Super Mamãe”, arrisco, expirando. “Você não é herói!” ele protesta, surpreso. “Ah, sou sim” afirmo categoricamente.

É verdade, pombas!

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Nina chegou ao ponto de ônibus. Algumas pessoas esperavam. Algumas pombinhas também.
Dentre estes seres, aos quais ela sempre considerou igualmente nobres e merecedores de compaixão, alguns queriam seus ônibus, de preferência depressa. Outros queriam quaisquer trequinhos mastigáveis.
Olhou para os pezinhos de uma pomba. Enrolados em cruéis fios de pipa. Dedinhos perpetuamente inchados. A não ser que ela agisse.
Sentou na muretinha, ao lado de uma mulher com seu saquinho de pipocas. O ônibus sempre demora mesmo, tomou coragem e pediu: “será que você me arrumaria duas pipoquinhas para a pomba me deixar desenroscar esse fio de pipa do pezinho dela?” A cidadã cedeu logo um punhado.
Pombos transmitem doenças, ela sabe disso. Mas acredita que o acaso sabe o que faz, e arriscou-se a “uma vez só” ajudar aquele bichinho manco. Que abicanhou prontamente o grão de nuvem e deixou-se ser pego nas mãos sensíveis da irmã humana.
A linha estava firmemente presa, simples dedos não a afrouxariam. Pediu à mulher das pipocas alguma coisa pontuda. Ela não tinha, mas achou que a moça da barraquinha de doces pudesse ter. Só que a moça da barraquinha tinha ido bater papo na outra barraca, atravessando a rua. A moça dos doces confia na humanidade.
A mulher das pipocas apontou: “ih, não é seu ônibus chegando? O motorista não vai deixar você embarcar com essa pomba.” Mas era tarde demais. Ela não poderia deixar a pomba enroscada ali no ponto. Nem poderia perder o ônibus. Decidiu entrar no ônibus com a pomba dentro do casaco.
Subiu no ônibus, boa tarde, e viu no bolso da calça do motorista um chaveiro rico em penduricalhos. “Será que o senhor não tem alguma coisa pontuda aí? Olha, eu nem ia falar nada pro senhor, que eu sei que eu não posso entrar aqui com animal, mas essa pomba tá com o pezinho preso no fio de pipa, e eu queria desenroscar”.
O motorista riu e mostrou a ela um saco de carne que levava para os cachorros famintos do ponto final. Era dos seus. Não tinha ali nada pontudo, mas achou que a cobradora pudesse ter. Gritou à cobradora. Que Nina e a pomba passassem a catraca.
Sentaram-se ao lado da cobradora que, com prazer, cedeu emprestada sua pinça de sobrancelhas. Desde que perdeu um cartão telefônico num orelhão adulterado, a cobradora nunca mais andou sem uma pinça na bolsa.
A pinça que recupera cartões pode então recuperar o pé da pomba. Que aguardou em silêncio o desenrolar de toda essa história. Segurando no bico um branco e salgado grãozinho de nuvem.

Em homeagem à nossa valente e caridosa Nina.