É verdade, pombas!

Padrão

Nina chegou ao ponto de ônibus. Algumas pessoas esperavam. Algumas pombinhas também.
Dentre estes seres, aos quais ela sempre considerou igualmente nobres e merecedores de compaixão, alguns queriam seus ônibus, de preferência depressa. Outros queriam quaisquer trequinhos mastigáveis.
Olhou para os pezinhos de uma pomba. Enrolados em cruéis fios de pipa. Dedinhos perpetuamente inchados. A não ser que ela agisse.
Sentou na muretinha, ao lado de uma mulher com seu saquinho de pipocas. O ônibus sempre demora mesmo, tomou coragem e pediu: “será que você me arrumaria duas pipoquinhas para a pomba me deixar desenroscar esse fio de pipa do pezinho dela?” A cidadã cedeu logo um punhado.
Pombos transmitem doenças, ela sabe disso. Mas acredita que o acaso sabe o que faz, e arriscou-se a “uma vez só” ajudar aquele bichinho manco. Que abicanhou prontamente o grão de nuvem e deixou-se ser pego nas mãos sensíveis da irmã humana.
A linha estava firmemente presa, simples dedos não a afrouxariam. Pediu à mulher das pipocas alguma coisa pontuda. Ela não tinha, mas achou que a moça da barraquinha de doces pudesse ter. Só que a moça da barraquinha tinha ido bater papo na outra barraca, atravessando a rua. A moça dos doces confia na humanidade.
A mulher das pipocas apontou: “ih, não é seu ônibus chegando? O motorista não vai deixar você embarcar com essa pomba.” Mas era tarde demais. Ela não poderia deixar a pomba enroscada ali no ponto. Nem poderia perder o ônibus. Decidiu entrar no ônibus com a pomba dentro do casaco.
Subiu no ônibus, boa tarde, e viu no bolso da calça do motorista um chaveiro rico em penduricalhos. “Será que o senhor não tem alguma coisa pontuda aí? Olha, eu nem ia falar nada pro senhor, que eu sei que eu não posso entrar aqui com animal, mas essa pomba tá com o pezinho preso no fio de pipa, e eu queria desenroscar”.
O motorista riu e mostrou a ela um saco de carne que levava para os cachorros famintos do ponto final. Era dos seus. Não tinha ali nada pontudo, mas achou que a cobradora pudesse ter. Gritou à cobradora. Que Nina e a pomba passassem a catraca.
Sentaram-se ao lado da cobradora que, com prazer, cedeu emprestada sua pinça de sobrancelhas. Desde que perdeu um cartão telefônico num orelhão adulterado, a cobradora nunca mais andou sem uma pinça na bolsa.
A pinça que recupera cartões pode então recuperar o pé da pomba. Que aguardou em silêncio o desenrolar de toda essa história. Segurando no bico um branco e salgado grãozinho de nuvem.

Em homeagem à nossa valente e caridosa Nina.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s