Arquivo mensal: julho 2013

Fragmento

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Fragmento

Tenho dois meninos. Passamos a tarde brincando de casinha. Montamos, arquitetamos, costuramos, colamos, inventamos. Muitas idéias não deram certo. Eles pisaram nas miniaturas delicadas. Avisei mil vezes para não pisarem nos brinquedos. Disputaram mil vezes o mesmo material. Briguei por causa da bagunça. Brigaram pelo beliche de cima. Espetei o dedo na agulha. Riram porque eu não sei costurar.
Tudo muito como na vida real: discordâncias sobre os ingredientes e tropeços quanto ao modo de preparo, desrespeitos à receita, louça acumulada… Mas comer quentinho é bom demais!

Um trechinho da brincadeira:
A: “Agora vamos fazer um sofazinho?”
P: “Tive uma ideia!! Que tal a gente faria o sofá com isso?” (levantando o fogãozinho diante do meu rosto)
A: “Ah, Pi, mas a gente vai fazer o sofá de sucata, sabe, senão a gente vai ter que fazer um fogão também, mas já tem esse fogão pronto”.
Inspira profundamente com o nariz colado no fogãozinho.
P: “Ó, cheira. Tem cheiro de sucata. To sentindo cheiro de sucata. Isso é sucata!!!”

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A princesinha recém-nascida que espetou o dente num fuso horário e…

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Zurique, noite de 16/07/2013

O sono, difícil já há várias noites, esta noite não é nem esperado. Brincam que será a última livremente dormida, mas sabem que é o ponto de vertigem: dentro de algumas horas o tempo parará e o espaço se redefinirá. Receberão nos braços sua filha.

São Bernardo do Campo, 20:00h.

Beijo os filhos que dormem em suas camas e posiciono sob o travesseiro do mais velho o primeiro dentinho caído. Beijo-o novamente, respiro o mesmo ar que eles, mantenho-me ali. Gratidão por eles, por poder ser a mãe deles, pelo tempo que passa sem que eu precise agir para isso e sem que eu possa impedir.

São Bernardo do Campo, 22:30h.

Vou para a cama. Leio um pouco. Penso um pouco. Mãos moles começam a desfiar o terço. Olhos abertos brigam com o faixo de luz que entra pela porta entreaberta. Véspera de algum natal: dentro de algumas horas serei tia.
Mistério após mistério, contemplo o mistério da vida, os misteriosos desígnios de Deus para nossas vidas, do começo ao fim delas.
Com uma esperança insistente, peço que Juju possa anunciar sua prontidão antes que finde seu prazo do lado de dentro do útero ruidoso e aquecido. Que dê tempo de fechar o ciclo sem atropelos.
Um pouco de desejo, um pouco de sonho, um pouco de memórias. As Ave-Marias de mãos dadas puxam umas às outras como numa ciranda colorida em chão de nuvens. Rosas vermelhas, uma a uma, compõem um grande buquê perfumado.

Zurique, madrugada de 17/07/2013

O imprevisto: contrações os fazem telefonar para o médico. Escutam as orientações. Trocam o tram pelo taxi e vão para o hospital algumas horas antes do previsto.

Zurique, 6:37

Nasce Julia.

São Bernardo do Campo, 4:00h.

O Pi chora forte e decidido. Ao me ver, prontamente se acalma, diz que precisa ir ao banheiro. Tiro sua blusa quente demais. Vamos de mãos dadas, acendendo poucas luzes. Deito-o em sua cama, cubro-o. Pede que acenda a luz de apoio, cedo. Espio de relance o Davi dormindo de boca aberta, um dentinho a menos. Séria e sonolenta, volto para a cama tentando calcular o que está acontecendo cinco horas adiante.

São Bernardo do Campo, 5:00h.

Escuto passos que parecem muito perto. Tento entender se é dentro ou fora da minha cabeça, se é o vizinho de cima deitando tarde demais ou o marido já levantando. Sinto o toque macio do pequeno insone, que sobe na minha cama pedindo para ficar aqui só um pouquinho. Aninha-se tão intimamente que logo durmo embriagada pelo cheirinho limpo da sua cabeleira de luz.

São Bernardo do Campo, 7:20h.

Sinto o corpo judiado. Muito concentrada, me desvencilho das mãozinhas quentes do Pi que envolvem meu braço dolorido e desvio das cobertas. Levanto, suspiro, olho para pai e filho deitados lado a lado, tão diferentes e tão parecidos. Vou para o banheiro.

São Bernardo do Campo, 7:30h.

De dentro do banheiro, escuto um falatório animado.
Pode ser o bom humor natural das férias.
Pode ser a comemoração pelo carrinho de rodas azuis que magicamente surgiu debaixo do travesseiro do Davi.
Mas a animação é muita. Destranco a porta.
O marido está em pé, falando ao telefone.
Recebo o fone e escuto, vinda de um reino tão distante, a notícia: “Parabéns, tia Aline!”.

***

Esta noite, em algum lugar do mundo, houve um acontecimento mágico. Surpreendente, incompreensível. Algo que supera nossas forças e nossos poderes. Que enche este dia e os seguintes de magia e de graça. O sabor de ganhar um presente, sem muito merecê-lo.
A Fada do Dente trabalhou direitinho, e manteve oculta sua luz furta cor, mesmo numa madrugada assim agitada. Tocou bem suave o som dos sininhos, levantou, com as asinhas batendo, a ponta do travesseiro do Davi. Deixou ali embaixo seu presente e recolheu seu rastro de estrelinhas brilhantes antes que pudesse nos incomodar…

***

São Bernardo do Campo, 9:30h.

Davi empurra seu carrinho sobre a colcha da minha cama. “Mamãe? Você sabe se a Fada do Dente, ou o Papai Noel, ou o Coelhinho da Páscoa, recebem alguma ajuda de Deus ou de Jesus?”.
Uso outras palavras para responder o que se impõe: se até nós, meros seres humanos, recebemos tanta, como os seres encantados não haveriam de receber?

Vulto

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Foi andando em direção às batatas que nos cruzamos. Na verdade, só me dei conta de ter passado por um vulto quando senti ímpetos de ir abraçá-lo correndo e sorrindo.
Mas era mais baixo, talvez. Um pouco mais magro? Não era ele, não.
Peguei uma batata grande. Olhei para trás. Como pode um desconhecido segurar as mãos daquele jeito? As duas atrás das costas, entrelaçadas por um dedo só, entre elas e a pele do corpo um blusão de lã bege. Ou cinza, agora não me lembro. A que me disparou a saudade foi a bege.
Umas cinco batatas está bom. Meia dúzia para ser mais clássica. Ele nunca compraria menos que o dobro disso.
Quantas vezes bandolei com ele por mercados que não existem mais? Eu não pedia nada, mas quando íamos as três netas, sempre a espuleta o fazia trazer uns Danones pra casa. E escolhia as bolachas. Os Bebezinhos Pullman ele pegaria de qualquer forma, mesmo que não estivéssemos ali. Ou umas Ana Marias, para deixar no armário onde guardavam o durex. No armário das xicrinhas ficava o queijo provolone. Hum…
Foi só depois de adulta que cruzei com ele sem querer pela cidade. Geralmente no comércio rotineiro das manhãs – mercados, centro da cidade. E no cemitério aos domingos, mas aí não era sem querer, era de propósito. Sentava ao seu lado para assistir à missa, sobre um encarte qualquer de ofertas que ele tirava bem dobradinho de dentro do bolso.
Uma vez o chamei para visitar uma exposição na Marechal. Ele foi! Segurei o choro quando o vi chegar e fui abraçá-lo no meio da calçada hostil pela qual tanta gente se ignora toda hora.
No supermercado nos encontramos regularmente quando eu já ia acompanhada, bisnetinho no sling. O corredor de limpeza me dispara a alergia, mas nesse dia os olhos lacrimejaram não por isso. Ao invés de abrir o sorriso e vir ao nosso encontro, ele recuou. Apenas com o olhar, mas senti-o recuar. As compras já estavam meio penosas, queria acabar logo e voltar para sua casa com tudo certo, sem imprevistos. Nada de pegar nenê no colo.
Nada mais justo, depois de oito décadas e meia de disposição. A vida agora amarga já fora muitíssimo bem vivida.
O senhor que passou por mim antes das batatas, que me trouxe a memória do cheiro do sabonete Palmolive e do belo sorriso de olhos verdes, deve ter ido embora logo.
Mas a saudade não foi.

Que passa?

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Hoje passei, pela primeira vez na vida, roupinhas de bebê cor-de-rosa.
Enquanto isso, passou um filme em minha mente, e percebi que quem nascerá em alguns dias é minha sucessora imediata na linhagem familiar. Entre nós, quatro meninos – em duas duplas separadas por décadas.
Com ela nascerão outras pessoas, uma das quais, tia: eu mesma, em mais um papel que a vida me passa.
Passamos por tanto até aqui! A mulher prestes a nascer mãe passou de minha pupila a cunhada, de menininha a senhora casada.
Passaram seis anos entre o primeiro enxoval de bebê que me vi passando e este que hoje passei. Passou a dor nas costas! Passaram muitos receios e passou também uma fase indescritivelmente intensa. Por duas vezes.
O primeiro filho desta mãe passa a primo mais velho. E o segundo, a primo “mais magrinho”, como ele mesmo diz, passando despercebido pelos opostos enganados.
E todos nós passamos juntos pelos privilégios de termos uns aos outros, por mais tempo que passe até que possamos nos abraçar de verdade.