Arquivo mensal: agosto 2013

Cinema, literatura e o parto

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Cinema, literatura e o parto

Há um filme brasileiro em cartaz, um documentário, que talvez não fique nos cinemas por muito tempo.
Tem o nome de um livro precioso,”O Renascimento do Parto”, do obstetra francês Michel Odent.
Tenho muitos degraus a percorrer na escadaria da cultura para poder tecer comparações entre filmes e livros, mas não é incomum ouvirmos de fãs de determinado assunto que “o livro é melhor do que o filme”. Talvez porque as páginas ofereçam mais espaço que as fitas e os interessados possam sorver mais detalhes nos livros do que nas telas… Ou não. Pode ser ingenuidade achar que o “espaço” é a questão.
O livro “O Renascimento do Parto” é altamente recomendável. Publicado originalmente em 1993, foi editado no Brasil em 2002. Encontra-se esgotado, não só nas livrarias como nos sebos virtuais… como muitos dos outros títulos do autor. Quem sabe o filme é a deixa para que seja reeditado?
Odent é um pioneiro. Vê há décadas, em cenas reais, a confirmação das conclusões a que ele e a ciência chegam com a evolução das pesquisas. É um cidadão do mundo, generoso, paciente, valoriza a mais simples das perguntas e responde redimensionando-a. Quem conhecer o início de sua despretensiosa história profissional (e o livro a traz) desejará para si descobrir a vocação assim, na lida diária, por acaso. Nada é ao acaso…
O livro fala sobre a experiência de transformação numa maternidade de uma cidadezinha a 100 Km de Paris com a chegada do Dr. Odent, então cirurgião geral, ocorrida em 1962. As maravilhas que lá vão ocorrendo, com o respeito à fisiologia do parto e às necessidades básicas das mulheres em trabalho de parto, são retratadas com relatos, fotografias, depoimentos de profissionais, de mães, de pais. Os índices de “saúde” (para simplificar os critérios) lá obtidos são extremamente desejáveis.
Hoje, neste hospital de Pithiviers, a realidade de assistência obstétrica não é mais aquela. A tecnocracia invadiu boa parte do mundo… E assim pulamos para o Brasil, paisão de mil realidades e contrastes, no qual os índices do Ministério da Saúde indicam que mais da metade do total de nascimentos ocorre por via cirúrgica… E assim pulamos para o filme.
Que fala muitas verdades incríveis. Que diz com todas as letras que o sistema assume práticas autoritativas, arbitrárias – porém consagradas – da medicina. Que traz depoimentos reais de mulheres enganadas num momento tão vulnerável de suas vidas. Que traz informações científicas de alto nível, na fala de profissionais diferenciados, destacados num cenário em que o comum é a vocação ser submetida ao capitalismo e suprimida pela produção operacional. Havemos de nos lembrar que vidas não são produtos. A isso, o filme nos ajuda.
Porém, as declarações que Michel Odent dá ali, sentado à beira mar, distribuindo conhecimento e serenidade diante do caos, são pouco. São preciosas, mas são recortes tímidos e direcionados do que ele diz “além filme”. Pudera: Odent constatou em sua prática e em sua obra que, por exemplo, uma necessidade essencial da mulher em trabalho de parto é a privacidade. Mas o filme não pôde fazer como as novelas de antigamente – e apagar as luzes no início de uma noite de amor, retornando em seguida com a mesma bela música e uma tomada do casal abraçado ao amanhecer… O filme precisou compactuar com a tendência de filmar bem filmadinho e exibir bem exibidinho o nascimento do bebê…
Ok! Confesso! Chorei de soluçar cinco ou seis vezes com essas cenas, cuja presença no filme acabei de criticar azedamente. Cenas lindas, comoventes, tocantes, porque são cenas de encontro. De encontro amoroso entre pessoas que tanto se esperam e que, separadas pela primeira vez, nunca mais se separarão. Recebendo uma à outra com toda a inteireza que permite um nascimento digno, em que fica claro a quem pertence o momento. Por estas cenas, o filme vale a pena.
Por outro lado, me contorci, rosto e corpo, vendo a faca cortar a carne. Arrepios, repulsa. Cenas fortíssimas de cirugias cesarianas, de chegadas violentas a este mundo… Dor. E isto muito me provocou: a dicotomia cesárea x parto vaginal foi bastante marcada no documentário. Como se não existissem partos vaginais terríveis, cheios de intervenções desnecessárias e invasivas, cursando com desamparo, medo, violência. E como se não existissem cesáreas respeitosas, bem indicadas, valiosas para salvar vidas, do alto da qualidade técnica que esta cirurgia de grande porte pode ter nos dias atuais.
Talvez o problema seja muito mais relativo aos protocolos do que à via de nascimento. A Organização Mundial da Saúde afirma que até 15% dos nascimentos possam ter necessidade de ocorrer por via cirúrgica. Estimar peso do bebê, estimar velocidade de dilatação, estimar abertura da bacia, estimar tempo de trabalho de parto, estimar idade gestacional… estimar (por métodos infalíveis como ultrassonografia – quem nunca recebeu nos braços um bebê de peso diferente do estimado no último exame?) e intervir. Na contramão de observar, acompanhar, verificar e, nos casos de necessidade – comprovada pelo bom uso da tecnologia e pelo bom uso da experiência – apenas e em todos os casos de necessidade, intervir.
Michel Odent atualmente levanta a grande diferenciação entre nascimentos nos quais a mulher pode produzir o coquetel hormonal específico de forma fisiológica (parto natural) e nascimentos em que não pode (cirurgias antes de trabalho de parto ativo ou partos nos quais tenham sido usadas drogas como ocitocina sintética e as anestésicas). O filme não dá a esta fala mais valor do que à dicotomia cesárea x parto natural. E, assim, pode reforçar o senso comum errôneo de que quem “defende” o parto normal insistiria nele como única alternativa, a despeito de situações que requerem outras providências.
O ideal, escreve Odent, é proporcionar condições adequadas para que o parto ocorra de forma fácil e segura. E estas condições pouco têm a ver com tecnologia ou com estética e muito têm a ver com privacidade, sensação de segurança e proteção, ausência de linguagem racional, baixa luminosidade, temperatura confortável. Pena precisarmos de um outro filme para destacar isso…
Esta semana, viajando quilômetros até o cinema, tomando metrô em horário de rush, aguentando a dureza de estar ali desacompanhada (como tantas vezes me sinto ao tratar desse assunto), sentei na poltrona de frente para a tela e senti – coisa rara e estranha! – que estava prestes a realizar um sonho. Voltando de lá, percebo que talvez o sonho fique tão bem realizado lendo um bom livro de Michel Odent debaixo das cobertas!
Deixo meu convite para irem ao cinema, lerem um bom livro e tirarem suas próprias conclusões.

Amamãetado

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Amamãetado

Olhou para o brilho nos olhinhos pisquentos de seu bebê. Sentiu na pele sua respiração tranquila, que outrora fizera tantas cócegas no peito em ebulição. Escutou o clunk e viu, no pescocinho já comprido, o movimento de deglutição que tanto procurara muitos meses atrás, quando deixou que dúvidas hoje sem sentido a torturassem (será que ele estava mesmo engolindo?). Viu uma gota branca escapar da pega, já tão relaxada… Ele dormiu. Dessa vez – apenas dessa vez – ela não dormiu.
Nunca teve muitos medos de derrubá-lo, dormindo ao amamentar, apesar das histórias ameaçadoras que ouviu de muitas bocas (as mesmas que sempre têm algo tenebroso para contar da gestação, do nascimento…). Nunca desconfiou de seu sangue de fêmea, de mamífera, de mãe. Seguia meio misturada àquela coisinha, àquele filhote, parte do tempo do lado de dentro, parte do tempo do lado de fora.
Sempre a deixaram amamentar. E ela também sempre se permitira a isso, mesmo quando as costas ainda não haviam tido tempo de esticar-se e o chorinho irritado já pedia peito de novo. Mesmo nas madrugadas frias, em que levantar o pijama era torturante, e mais torturante ainda era tirar do colo sua bolsinha de gente quente, que ela devolvia para o berço numa dança de marcas já decoradas.
Uma vez declarou ao marido, com voz ofendida e embargada, dramática, que mamadeiras ali não entrariam enquanto ela estivesse viva. Era simbolicamente uma questão de honra. Ela ainda não sabia que um dia cada mamada entraria em perspectiva e o saldo da amamentação seria muito mais significativo do que os ml de água fervida que deram ao seu bebê de dois dias, muito mais global do que quaisquer refeições dele que precisasse delegar a alguém. Mas, por acaso, por circunstâncias, e também por empenho, nunca precisara delegar as mamadas.
Quando teve o insight de pôr nas primeiras papinhas seu ingrediente secreto, relaxou de tal maneira que passou a ser um prazer enorme dar o almoço ao pequenoio. Quem já provou leite materno com mandioquinha? Delícia! Ela ficava até feliz quando sobrava! Um dia entenderia que a (desnecessária) “cisão” peito x comidas a aterrorizava de tal forma que tornava difícil demais para sua mini-parte comer numa boa…
Mesmo depois do advento dos legumes e cereais, amava deixar seu bebê escalá-la, descobrir posições novas para mamar, interpretando ora um ursinho, ora um macaquinho gorducho, observando os encaixes que mês a mês mudavam, porque o filhote crescia, de tanto que mamava, e a mamãe autorizava variações, de tanto que confiava nele.
Para ela, amamentar era uma oportunidade, um privilégio, um trabalho, um dever, uma alegria, um direito, uma honra. Acreditava nisso antes mesmo de gestar. Acreditando nisso, apoiou outras mulheres, deixou que sua presença ao lado delas, em silêncio, permitisse mamadas intermináveis e bem sucedidas, que não eram o padrão. E, depois, pode sentir na própria pele que amamentar em companhia podia ser mesmo muito bom. Mas muitas vezes teve coragem de pedir licença e de desfrutar da única companhia imprescindível. O dono daquele leite. O dono daquele amor. Seu bebê.
Olhou para seu anel de laço dourado, ma mão que ela apoiava sobre a pancinha cheia do filhão. Olhou para seu bracinho macio, para o decote da roupinha, hoje manchado de beterraba, para o tufo de cabelo fino que ele tinha mais no meio da testa, para seus cílios, para sua boca gorducha. Por quanto tempo mais a sugaria? Por quantas mamadas mais?
Então a ocorreu que aquele serzinho inteiro estava recheado de suas gotas mágicas para todo o sempre. E que, da mesma forma que, um dia, o cordão umbilical fora cortado, esta atual conexão, boca plugada no peito, daria lugar a outras, algumas já existentes, algumas por surgir em espaços do futuro que viveriam juntos, cheios de amor e de gratidão.

Este post faz parte da Blogagem Coletiva: “Por que sou ativista da amamentação?”, segunda edição (2013).

Empatia

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O sol ardido cortava o ar denso do início de tarde de inversão térmica. Os meninos dormiam no carro, sombreado graças ao guarda-chuva que eu segurava aberto sobre nossas cabeças. Dentro era bem mais fresco do que fora.
A fila de espera no restaurante lotado garantiu a eles bons minutos de soninho, mas, para a felicidade da fome, nossa mesa vagou e precisaram ser acordados.
Doeu. Arderam os olhos, doeram as pernas, queimaram os estômagos. Nada parecia justo exceto esticar-se e dormir um pouco mais. Arrastaram-se pelo restaurante lotado e acumularam-se sobre uma mesma cadeira, disputada a briga. Irritados, sonados, famintos, contrariados, impacientes.
Se o mais velho logo encontrou os dedinhos para chupar e acalmou-se, olhos semicerrados, o mais novo remexeu-se e reclamou no meu colo receptivo. Ficou ali até chegar comida e bebida, mas fungou, praguejou, negou e contorceu-se até torná-lo um colo frustrado e hostil. Que fosse para sua cadeira, então, comer sua comida. Era definitivo.
Muito corcunda e contrariado, começou a chorar bem alto. E a tossir. E a soluçar. E a gritar. E a chorar com mais força, o que fazia a tosse muita e o grito rouco.
Eu e o avô revezamo-nos nos papéis de policial bom e policial mau, sobrepondo inclusive as mesmas funções, mas ele só fazia atropelar-se no próprio choro. Tentamos até comer em paz, sem olhar para o rostinho surtado e vermelho, dando chance de acalmar-se sem nossa interferência. Até que começou a dizer entre soluços: “eu-não-con-si-go-pa-rá!”.
Então me lembrei de uma ida ao dentista, quando menininha, pouco mais velha que ele, quando era eu quem não conseguia parar de chorar. Empatia.
Mastiguei mais algumas garfadas e deixei o restante da apetitosa comida esperando, no canto do prato, o meu retorno. Peguei um guardanapo limpo e um copo d’água na mão esquerda, e na direita peguei a mão de meu pequeno. “Vem comigo aqui fora”.
Venceu o salão populoso andando e chorando. Escolhi ao ar livre um cantinho de sombra e silêncio, agachei. Já contei que os olhinhos dele esverdeiam sob camadas d’água salgada?
“Olha pra água desse rio”. Mostrei o trechinho de represa marrom quase abaixo de nós. “Ela é água calma. Olha pra ela e pega a calma pra você.” Não enxergou a água, nem o objetivo da conversa. Chorava muito. “Tá vendo essa árvore aqui? Chega mais perto.” Peguei sua mãozinha. Segurou em pinça uma folhinha empoeirada furada por taturana. “Isso, essa folha é calma, pega a calma dela pra você”. Começou a concentrar-se e alguns soluços passaram a suspiros. “Agora segura firme esse tronco de árvore”. Na pontinha dos pés envolveu-o com a mão. “Fecha seus olhos e respira com calma”. Inspirar era ainda muito difícil, mas expirava em sopro, como o ensino a fazer antes de dormir. Repetiu muitas vezes. “Muito bem. Você está se acalmando. Muito bem. Quer água?”. Tomou um gole, me olhou nos olhos e pude convidá-lo: “Agora dá um abraço”. Senti seu corpinho suado junto ao meu e sua alminha lavada também.
“Você viu que está passando?” Piscou assentindo. “Isso que você teve chama crise de birra. Agora já acabou. Eu já tive crise de birra e o vovô também já teve. É normal, todo mundo já teve. Mas agora a sua já acabou e a gente vai voltar lá dentro pra almoçar”.
“E eu vou sentar no seu colo”, disse ele. “Não, você vai na sua cadeira e eu vou na minha”, disse eu, convicta e serena.
Para minha incredulidade, começou a bater os pés na terra e a gritar novamente. Dos seus olhos lindos brotaram lágrimas instantâneas. Perdi a compostura. “Pode parar agora!”. “Eu não consigo”, cantou desafinado. “Aaaaah, consegue sim, pode conseguir!”.
O orgulho que até então sentia de mim mesma deitou naquele chão quente e misturou-se ao pó. Perdi os esses e os erres e minha voz de gralha ganhou garras que apertavam firmemente seus dois braços. Por sorte, partiu dele a próxima iniciativa iluminada. “Então eu quero fazer tudo de novo”.
“Ótimo”. Trouxe-o para perto da mureta pela mãozinha. Tentou olhar a água, pegou sozinho na mesma folhinha judiada e segurou com confiança o tronco da árvore. Soprou a raiva pra fora, cinco vezes, tomou um gole d’água e veio me abraçar. Tivemos mais uma chance. Agachada diante dele tentei um sorriso, interrompido pelo meu próprio dedo em riste. “E ó: nada de ficar com vergonha. Todo mundo aqui já teve uma crise de birra, é normal e já passou. Todos vão ver que você se acalmou e nem vão mais se preocupar”.
Entramos de volta, de mãos dadas. Comemos peixe, batata de bolinha e arroz verde, “que eu gosto muito”. Ouvi novamente sua voz limpa e amigável. E descobri ter também dentro de mim uma voz limpa e amigável.