Arquivo mensal: setembro 2013

Eméritos

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Eméritos

Aos seis meses de gestação o marido a encontrou aos prantos na mesa da cozinha, com o telefone na mão. Assumiu a conversa e descobriu que o que era demais para o humor gravídico da menina mais sensível da turma era na verdade uma boa notícia. Uma notícia tão feliz que a fazia chorar daquele jeito.
Tinha seus motivos. Sempre fora sedenta de companhia e sempre prezara demais as histórias passadas. Saber que morariam a dois andares de si dois amigos de infância era um presente maravilhoso.
Foi ao casamento deles, chorar mais um pouco, já com seu rebento nos braços. Frequentou aquelas bodas com o privilégio de vizinha, e assim passaram a se chamar. Assinou “Vizis”, em nome dela mesma, marido e filhote, num bilhetinho de boas vindas, no retorno da Lua de Mel dos amigos. Bilhete grudado a um pote de biscoitos casadinhos, em formato de coração, que tivera a fineza de fazer com seu bebê de seis meses sentado no cadeirão.
Repetiu a receita alguma vez, mas não conseguiu fazer dela a tradição que desejava. Porém fez tradição compartilhar quitutes – e desastres -, bastava renderem bem e lá estava a sacolinha recheada pendurada à porta do 44.
Era retribuição. Aos interfonemas folgados que pediam ajudas de todos os tipos: o carro que não ligava; o menino dormindo na garagem e muitas sacolas; um ingrediente faltante; uma babá para alguma urgência. Com eles, aprendeu a pedir.
Logo veio outra criança e assim a coroa para a amizade definitiva: deu a seu filhinho padrinhos especiais. Foram juntos caminhando à Igreja da esquina, carregando a oito mãos o bebê que compartilhariam para sempre.
Meses depois recebeu de pijama a visita da amiga trêmula. Abraçou-a confirmando a notícia: mais uma vidinha surgia para incrementar as delícias dessa amizade. Daí em diante compartilharam batas, livros, receitas, angústias, geladeira, secadora, roupinhas, brinquedos, passeios, filhos, manhãs e tardes, o ofício. Tudo igual, não mudava nem o endereço.
A intimidade cresceu, a companhia também, as crianças também. Passaram a sair à noite entre amigas, semanalmente. Mereciam aproveitar das facilidades da garagem comum. E o fizeram com consciência e com reverência.
Ela suspirou com a possibilidade de mudarem dali. E adiou a dor até concretizar-se. Na semana final, contemplou embasbacada a mini vizinhinha que hoje anda, fala, come manga, não usa mais fralda. Pediu abrigo a potes de comida para poder degelar seu refrigerador quebrado. Chegou ao ponto de pegar emprestado o dinheiro trocado para pagar o técnico. E, o mais inusitado, deixou que seus filhos estourassem o horário de dormir assistindo desenho no quarto andar. Voltou para casa moída, mas agradecida.
As mudanças a ferem, as distâncias a ferem, mas há algo que ela admira a ponto de fechar as feridas: pessoas que se amam e que se unem para ir atrás do que desejam. Que os deixasse partir. Que agradecesse eternamente as escadas saltitadas em minutos, as portas abertas, as chaves emprestadas, as refeições compartilhadas, as caronas abundantes, a segurança de ter com quem contar. Pode ter esses luxos na fase mais puxada da vida. Tratarão de manter os laços a alguns poucos quilômetros de distância. Sabem bem, as duas, a penas duras, que nem as distâncias multiquilométricas ameaçam os laços verdadeiros.
Amigos de infância, compadres, fraternos… “Vizis emértitos”. Nunca mais o deixarão de ser. Vão com Deus e voltem sempre. O caminho vocês não esquecerão. E dificilmente perderão o título de família que mais nos viu de pijama em toda história!