Arquivo mensal: novembro 2013

Seus olhos

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“Mãe, parece que você tá com dor de garganta.”
Assim, concreto, ele interrompe o embargo de minha voz devota. Eu cantava a Maria, como fiz há exatos quatro anos, instantes antes de recebê-lo em meus braços pela primeira vez.

Na penumbra do quarto, sentada aos pés do irmão, contemplo seus olhos grandes e amendoados, pálpebras piscantes caindo sobre o brilho das íris poentes. Movo-me para o tapete ao seu lado, já explicando com voz risonha que estou muito emocionada porque, cantando aquela música, lembro do dia em que ele saiu da minha barriga.
“Ah”, ele diz, e fecha os lábios bicudos. Ouve-me dizer também que, cantando assim, peço a Nossa Senhora proteção para sua vidinha aniversariante, com a certeza de que Deus o mandou para esta casa para nos fazer mais felizes.
Ele pisca mais um pouco, lentamente, enquanto encontra com a mãozinha quente a pele do meu braço, e então geme de ternura mantendo os olhinhos fechados.
Não me canso de olhar seus contornos, suas cores, sua textura de anjo. “Seus olhos, seus ouvidos, sua boca, tudo o que é desejo que a Vós pertença, Incomparável Mãe!”
A incrível emoção de ter sua pele quente na minha não foi até hoje chorada até o fim. O mistério daqueles olhos desconhecidos, tão seus, tão únicos, tão sábios, ainda não foi desvendado. E não me canso de olhá-los. Neles me vejo e assim sou mais eu.

Os quartos escurecidos servem para multiplicar o amor. É assim esta noite e assim foi há quatro anos. Amém.

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