Arquivo mensal: dezembro 2013

Antevéspera

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Não tenho soluços com muita frequência. Mas hoje exagerei no sorvete, já passava da hora de dormirem. E fui levá-los para a cama dando tranquinhos.
Escolhemos livrinhos natalinos – tão importante é a véspera do Natal, que arrasta seu valor para a antevéspera. Queria silêncio e atenção para ler uma crônica nova, daquelas que me emocionam. Mas eu mesma não me deixava começar, com o burp subindo descompassado.
Já ficando irritada, tampei nariz e boca, bochechas infladas, numa tentativa de acalmar meu diafragma desregulado. Riram de mim. Ri deles, corados de dezembro, penteados e sonolentos.
Resolvi começar mesmo assim e entre sílabas e saltitos li para meus meninos lindos, intrigados com meus pulos e com a história do Papai Noel que foi tomar cerveja na cozinha. O pequeno, a cada engraçada interrupção do meu fluxo de voz, chegava mais perto seus olhos atentos e arregalados. O grande, a cada gargalhada conjunta, deixava exalar sapequice e um riso maduro que ano passado não estava ali.
Olhamo-nos e rimo-nos, divertimo-nos; tive um bom álibi para disfarçar os nós que surgiam em minha garganta turbulenta – quer pelas palavras de Veríssimo, quer pela cena querida: pijaminhas de trás para a frente e rostinhos contentes só esperando disparar a próxima gargalhada.
Já em vinte e três de dezembro aconteceu a nossa noite feliz.

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Quem vê cara não vê coração

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“Quem quer lavar a louça comigo?”
“Eeeeeeu!”
Francamente surpresa, ajeitei um banquinho para meu branquinho. Ofereci um avental e ele abriu os braços receptivo, mãozinhas meladas de picolé. Sentiu o cordão no pescoço e enquanto se contorcia disse: “Olha, um avental de cozinheiro! Mas não quero pôr. Mas quero lavar a louça mesmo assim.”
Voltei a pendurar o avental; paramentado ou não, não poderia recusar uma ajuda deste gabarito. Ensaboou as mãozinhas e pediu que eu abrisse a torneira para ele: estavam muito “escorregadias”.
Deliciou-se com a espuma abundante, deu os banhos mais demorados que aqueles desgastados copos de plástico já receberam até hoje. Encheu uma caneca de metal até transbordar e: “olha! Uma piscina!”.
Eu, já interessada nos utensílios limpos que estava esperando para começar uma receita, fiz uma voz de colherinha e me ofereci para mergulhar.
“Não, você não sabe nadar”.
Tentei molhar os pés – se a água estivesse gelada não insistiria. “Huuum… que água booooa!” exclamei, deixando o frescor percorrer meu corpinho de metal.
“Ah! Tá! Vem na piscina!”
“Iupi! Que delícia! Mas eu quero uma amiga…”
“Não cabe.”
“Cabe sim, a piscina é grande!”
“Mas não dá, tem que ser uma maior, mas tão todas vazias.”
“Ah, que pena…”
“Vai, mamãe” disse, um tom abaixo, “deixa eu pegar outra”.
Entreguei a ele um pote fundo.
“Éeeeessa é a piscina delas! Vem, vem!” disse ele, convidando alguma amiga, ainda não eleita.
Apontei um pote de sopa onde os talheres davam sopa. As colherinhas poderiam escolher dali as amigas que quisessem.
“Olha! Aquela amiga vem!” mostrou animadamente uma colher de sobremesa. “Mas ela é muito grande”, emendou.
“É a mãe delas?”, perguntei.
Tirou o talher dali, pelo cabo, percebendo ser um garfo.
“Não, é uma colher espeto. Vem brincar, colher espeto!… Mas não dá, porque ela é malvada.” Sentenciou, colocando de lado o vilão da história.
O pobre garfo, um pouco humilhado, foi então comigo, tomar banho de detergente.
A piscina, esta tarde, era só para as meninas boazinhas.