Arquivo mensal: fevereiro 2014

Esta noite

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Esta noite

Esta noite riram muito comendo farofa e pedi que tirassem as roupinhas ali mesmo, para evitar a sujeirada no resto da casa. Aliás, que “desavessassem” as peças e as colocassem logo na máquina.
Tinham até a intenção, mas a lâmpada queimada da lavanderia deu medo. Travaram ali, peladinhos ao meu redor.
Então, risoletos que estávamos, inspirei-me nos teatros da infância e arregalei meus olhos dirigidos ao nada enquanto dizia “mas ali no escuro não tem nada, só aquele esqueleto horroroso!”.
Saltitaram gritando e gargalhando nervosos ao meu redor, e percebi que provocara algo difícil de reverter. Que culpa. Às vezes é irresistível, mas não faço mais isso. Não tem graça, justo a mamãe botar medo nas crianças.
“Né que esqueleto não existe?” perguntou o caçula. Tecnicamente, filhote, não posso te confirmar. Mas derivei: “Ah, se alguém vê um esqueleto de pé pode saber que é de mentira, porque um monte de osso sem músculo e sem pele cai tudo no chão”.
“Mas eu tô com medo de bruxa, mamãe”, especificou o mais velho.
“Uai, e bruxa lá existe?”, tentei eu, mas desisti quando ele me afirmou categoricamente que sim.
“Mas Deus salva a gente dela”, disse o irmão. “Deus tem o poder da alegria!” e, quando eu já suspirava aliviada, emendou: “ele transforma as bruxas em menininhas engraçadas”.
E foi assim que prosseguimos para o banho, os três grudados casa adentro, box aberto por via das dúvidas, e um rabo de olho grudado na janela, para controlar entradas suspeitas.
“O que foi isso, uma bruxa?”
“Nessa janela desse tamanho, filho? O bumbum da bruxa entala e ela solta um pum que faz o gato preto miar desmaiando!”
“Mas e um esqueleto, então?”
“Aqui no sexto andar não chega um ossinho sequer!”
“E nem no Egito tem esqueleto?”
“Você tá falando de múmia?”(Oh, vida cruel, porque raios fui lembrar de mais um personagem?)
“Aaaai…”
“Não, a faixa dela enrosca num preguinho lá no térreo e ela chega aqui em cima toda desenrolada, gritando ‘ai, estou nuuua!’ Falando em nu, vem cá se vestir”.
Empijamados, escolheram dois livrinhos sobre o tema do medo e lemos saborosamente. Riram das minhas “dublagens” e da expressão um do outro quando escutaram passos sorrateiros…
Não era um monstro! Era um cavalheiro trazendo flores para sua amada!
Tentaram escalar nosso abraço, o letrado fuçou meu cartão, senti o perfume das rosas misturado ao do marido e ao de xampuzinho suave…
O Poder da Alegria invadiu nossa casa esta noite.

O TEMA do brinde

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O TEMA do brinde

“Fala pouco, mas fala bem”, foi o que disseram sobre mim durante o jantar, rindo. E revivi uma sensação antiga, do tempo em que eu era quietinha, certinha, boazinha. A tímida CDF, garantida pelos bons modos.
Esta noite, me vi organizando os pedidos e os pratos. Mas todos sabemos que grandes fatos da vida não são exatamente organizados.
Hoje, eu sabia precisamente onde estava estacionado o meu carro – embora nunca encontre sequer meu celular na bagunça do escritório de casa.
Esta sou eu hoje, tão igual e tão diferente. Eles também, iguais e diferentes.
Nesta noite de reencontro, medi, brincando, o punho da doce bailarina C., cujo diâmetro está mantido desde a quarta série e equivale ao diâmetro do punho do meu caçula de quatro anos.
Vi longas unhas de oncinha, outrora roídas. Vi nos cabelos loiros e lisos de F. as molinhas douradas de ontem, pelas quais a perturbava na época o amigo R., hoje pai experiente de três filhos.
Vi nos olhinhos miúdos e bonachões do amigo G. uma criança escondida atrás da barba de um homem feito: Robin Williams.
Vi na alegria e na sociabilidade fácil uma M. F. agregadora, que venceu brilhantemente o bullying, que naquele tempo não tinha nem nome.
Supuseram que eu não pediria chopp – e não pedi. Taparam meus ouvidos ao verem o rubor que me causaram suas palavras irreverentes.
Arriscaram-se nas provocações, brincando que em algum momento esta amizade precisaria de motivos para acabar.
O que penso é que “esta” amizade não é a amizade da infância. É uma outra amizade, que se soma àquela, através da qual unem-se pessoas muito especiais, ao redor de algo que carregam em comum. Nesta mesa há muitas histórias de perdas profundas e doloridas. Há também histórias de ganhos, que são compartilhados e passam a ser celebrados juntos.
Dissemos esta noite que tudo tem um motivo. As crianças que fomos não podiam imaginar os caminhos que percorreriam até chegar aos 35. As crianças que fomos não temeriam sonhar com a oportunidade de reencontrar-se para comemorar o que primeiro tiveram em comum, antes de viajar pelas estradas misteriosas do futuro.
Brindando o hoje, esta noite, brindamos o ontem que nos apresentou e brindamos cada um dos amanhãs que nos trouxeram até aqui – e que não se esgotam.

Maricota

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Hoje reencontrei uma moça linda.
Ao lado de sua mãe, cujo sorriso nunca esqueci, mexia nos longos cabelos claros.
Assistiu à missa paciente, minha antiga paciente.
Fez com a vela benta e as unhas vermelhas um truque que um dia aprendia a fazer com o lápis e os dedinhos brancos.
Há dez anos eu a chamava de Maricota e a via torcer o narizinho.
Longos cabelos presos, sapeca-tímida.
Contava histórias a ela e pedia que estalasse a língua em frente ao espelho do consultório.
Com o pretexto do trabalho corporal, deixava que se contorcesse de cócegas na maca e ríamos juntas gargalhadas cansadas de final de dia.
De vez em quando eu ganhava um beijo sacrificado na despedida.
Mas hoje, ganhei um belo abraço.