Arquivo mensal: março 2014

Quem?

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Quero colo e calor.
E o som ritmado de um coração cheio de amor.

Preciso de toque e de pele.
E de alguém que me espere.

Preciso muito de presença.
De um conforto quente, tempo e paciência.

Quero um sono reparador.
E alguém que me defenda com fervor.

Às vezes sinto que só sei chorar.
E quero alguém para me consolar.

Com um puro e verdadeiro abraço
Acolher-me no meu cansaço.

Mas hoje, não sou um bebê.
Sou uma mãe. Sou eu e sou você.

Os odres

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Os odres

Queridão, hoje vi seus meninos trabaiando no porôn. O Vardí e o Roberto.
(Faltam grafemas para transcrever os seus tão típicos fones, mas os escuto enquanto digito.)
Não tinham os pés descalços nem o dorso nu como você teria. Você não correria o risco de manchar de tinto uma camisa branca.
Engarrafaram vinho velho em odres novos. Com rolhas novas. E com umas capsulinhas, que tentavam moldar esquentando no fogo baixo de uma das seis bocas do fogão mágico da vó.
Vinho velho não, vô, vinho bão. Pra quem gosta é bão.
Soube da uva cabernet, que vocês compraram caro uma vez. Daria um vinho especial, mas só depois de dois anos. Uns seis já se passaram e deu vinagre. Paciência. Ganhei um litro do vinagre. Experimentei molhando o dedinho num fundo de copo. Não foi a minha primeira vez.
O que mais gostei de ver foi uma coisa chamada madre, uma geléia que eu pensei que fosse a borra, mas, quando mexi, vi que é mais interessante ainda. Minhas mãos estão azedas até agora, vô, de tanto que examinei aquela meleca intrigante, sem a qual não se tem o produto. Achei parecido com uma placenta e fiquei tocada. Ainda mais no meio daquele vermelho todo. Tão lindo.
A natureza que você sempre amou é muito encantadora, vô. Eu queria ter sido uma menina mais curiosa, para aprender muito mais com você. Mas sei que sempre é tempo. Temos outros “odres” velhos aqui, à disposição, para nos despertar novas perguntas. E uma vida eterna para encontrar as respostas. Não é?

Franja felpuda

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Sentada em seu carrinho, esfregando os mini pés, ela lambia ora as mãos, ora o sinto de segurança. Olhava ao redor, mas à sua frente as costas de sérios adultos sentados no banco da igreja, e ao seu lado pernas sem graça de mais gente grande.
Vocalizou um pouco, boa ideia para espantar o tédio, e recebeu uma chupeta cor-de-rosa, que a todo instante caía e a mamãe recolocava. Aproveitou uma brecha para falar mais alto, “abaixo a monotonia!”.
Então a mamãe tomou a decisão de introduzir-lhe na boca uma chuquinha – ou qualquer nome que queira dar a uma pequena mamadeira com uns dedinhos de suco amarelo dentro.
Mas, para ela, a chuquinha veio do mesmo além do qual surgira a chupeta, e, antes, a fraldinha bordada. De costas para mamãe a papai estava ela.
Suquinho tomado, esfregou ainda mais os pezinhos e soltou sua doce voz suave. Não estava chorando. O carrinho começou a mover-se para frente e para trás, tentando embalá-la num ritmo impessoal. Insistiu nessa dança, o carrinho. Automático, seria? Com sensor de voz? Não, porque a vozinha já havia sido novamente silenciada pela chupeta misteriosa.
Até que, finalmente, a chupeta caiu, o carrinho parou e sua minivoz falou de novo. E lá do alto veio papai, tirá-la do superseguro cinto e aninhá-la pertinho do coração.
Uns trinta minutos de cuidadosos cuidados, sem face, sem voz, sem pele. Uma garotinha de franja felpuda e, no máximo, quatro ou cinco meses de idade. Muito amada.
Tem certas coisas que, se a gente não olha, a gente não vê.

Matinal

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Passinhos descalços para perto.
P: “Mamãe?”
Continuei de olhos fechados, imóvel, encolhida na minicama. (Havia ido parar ali para terminar minha noite de sono, já que um corpinho mexelento e de pés gelados tinha ocupado boa parte da minha cama cedo demais.)
“Ela tá dormindo, Davi.”
“Então fala mais alto.”
“Mamãae?”
Permaneci parada.
“Mamãaae?”
A voz dele ainda estava bem baixa, dava para disfarçar.
“Ela não acorda, disse sussurrado, dividindo o achado com o irmão. Chama você.”
“Mamãe?” – outra cor de voz invocou.
Inspirei sonoro, foi minha forma de segurar o sorriso que a boca queria fazer.
“Mamãe, bom dia” – já se preparava para iniciar a lista de pedidos de autorização (a gente pode ver televisão? A gente pode jogar no computador?), mas parou diante da minha imobilidade.
Passos duros para longe. Estava atenta ao divertido movimento dos dois, decidindo se e como me acordar para começarem a parte do dia que requer a autorização parental. Acho que cochilei. Até que os ouvi brincando e discutindo as diferenças dos amigos da escola.
“Vai chamar a mamãe e pega meu copo d’água”, ouvi com estranheza a ordem dominadora de um igual ao igual menor. A autoridade de irmão mais velho também já fora inquestionável no meu tempo de criança. Não dura para sempre.
Passinhos para perto.
“É… mamãe?”
Não respondi.
“A gente pode jogar no computador?”
Sem resposta, respirou fundo. Devia estar esticado na pontinha dos pés, espiando minha expressão do rosto, mas segurei os músculos e a curiosidade parados.
Massageou meu ombro coberto por seu lençolzinho infantil. Não reagi, massageou com mais vigor, mãozinhas delicadas.
“Primeiro tem que ir no banheiro, é?”, inferiu, experiente, e foi passar a informação.
“Primeiro tem que ir no banheiro.”
“Cadê a minha água?”
“Ah, esqueci.”
“Então pega, né?!”, não perdoou o subchefe. Voltaram os dois para o quarto.
“Chama ela, Pi.”
“Mamãe?”, tentou novamente, tímido.
Senti o silêncio ao meu lado, respirando pensativo. Imaginei a cena: cabelos despenteados, rostinhos remelentos, trocando olhares.
“Ela não escuta”.
“Mais alto, então!”, sussurro ordenante.
“Mas aí ela vai acordar!”
“A gente quer que ela acorde”.
Foi difícil segurar o riso. Lembrei de uma noite dessas, em que o pequeno gargalhou dormindo entre mim e o pai, num final de madrugada. Gargalhei eu, de olhos fechados.
“Tá rindo!”, surpreendeu-se divertido. “Tá dormindo rindo!”
O maior deve ter vindo espiar, mais de perto. Intrigados, continuaram falando, vozinhas matinais, e eu ria sempre que preciso fosse.
Ao perceber meu bom humor, relaxaram, um subindo em mim e o outro abrindo meu olho direito com os dedinhos frios.
Fim do teatro. Fim do descanso.

Boa hora

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Veio em boa hora, Quaresma, para que eu ofereça diariamente um terço aos amigos que me pedem orações e àqueles sobre os quais não tenho notícias.
Veio em boa hora, Quaresma, para que eu economize os tostões que me irrita verem em vermelho no extrato bancário e para que pare de empilhar minhas coisas inúteis em torno do meu poluído eu.
Boa hora, Quaresma, para que eu descanse dos enigmas do Facebook e pare de tentar ligar os pontos dos perfis virtuais de quem nunca conheci.
Para que eu possa extinguir novamente o hábito de ocultar os vazios com montanhas de sabor. Detox de corpo e de alma.
Boa hora para que eu encontre o silêncio e escute a essência, para que sinta a água nas mãos e o vento no rosto, o abraço no peito e vozes macias no coração.
Boa hora para que eu viva 40 dias e não 40 anos, para que eu toque o que estiver ao meu alcance e seja apenas tudo o que sou.
Para que as dores doam seu tanto e para que seja possível reluzir lustro no meio delas o brilho do novo.