Arquivo mensal: agosto 2014

Levou bolo

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– O lanche de hoje tava bom, filho?
– Tava, muito! Mas…
– O que?
– Eu derrubei o bolo na Carol.
Recebendo o meu olhar atento e espantado, explicou:
– Sabe quando o bolo ia cair, e fica pulando na nossa mão e cai de novo? Então, aconteceu isso na camisa dela.
– E ela? Chorou?
– Mamãe! Claro que não chorou. Só ficou brava.
– Ah é? E o que você fez?
– Tentei limpar com a toalhinha do lanche.
– Ixi…
– Não deu pra limpar muito, mas…
– Imagino que não mesmo, mas que bom que você tentou.
Sorrimos e ele revelou-se aliviado por não levar bronca. Eu disse que se eu fosse a Carol ele certamente teria levado. Rimos.
– Seus amigos perguntaram de que era o bolo?
– Não, mas eu falei sem eles perguntarem.
– Sério? E o que eles acharam?
– Hum… Eu falei que era de chocolate. Porque se eu falasse que era de cenoura, maçã, cacau e essas coisas eles iam achar nojento. Sabe aquele pãozinho verde que você faz? É gostoso, mas eles acham nojento, só porque é de espinafre.
– Tá bom. Você tá usando sua esperteza, né?
Orgulhosa por ver meu filhote encontrando suas estratégias de remediação e de defesa – e por vê-lo comer numa boa essas delícias nojentas…

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Ausência

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Na última ladeira antes de chegar em casa, o carro da frente parou no meio da pista. Esperei. Buzinaram atrás de mim (um carro com uns seis meninos cabeludos dentro). Buzinaram atrás do de trás. A fila de latarias com luzes acesas na noite fria foi crescendo, e acho que empatou o trânsito da avenida.
Farolei um pouquinho, nada. Observei atentamente, e cheguei a ter a impressão de que o carro estava sem motorista. Mas o tinha visto ser dirigido até ali…
Um motoqueiro costurante subiu até o primeiro da fila. Parou, desceu da moto, tirou o capacete. Fez sinal de negativo com o polegar, como se estivesse indicando uma pane mecânica. Mas a pane era humana…
Coração na garganta, desci do carro também. Eu, o motoqueiro e uma moça que trazia a mãe no banco do carona ficamos em frente à janela do senhor que nos olhava sem nada dizer.
Cheiro de urina. Incapacidade de tomar decisões, planejar, tomar qualquer iniciativa. Respondia nossas perguntas em circunlóquios. “Quer que chame uma ambulância?”, perguntou o motoqueiro. “Moro aqui”, respondeu ele. “Quer que interfone para alguém?”, perguntei eu. “Moro sozinho”, falou devagar e irritado. “O senhor lembra o número do seu apartamento?” “Claro que lembro”, respondeu entre cínico e confuso. Mas não nos disse. “Eu sofri uma perda muito…” disse o senhor ao motoqueiro, que soltou “o senhor vai ficar bem”, sincero, parecendo ter medo de ouvir mais. “Encosta aqui, não precisa estacionar direitinho”, orientou a moça, prática e prestativa. Em um automatismo, ele embicou na garagem, a moça o seguiu edifício adentro enquanto a mãe foi para o carro desentupir a ladeira.
Voltei para meu volante, aliviada porque em instantes estaria em minha casa quentinha com aqueles que amo.
Mas, no fundo, teria gostado muito de preparar um chazinho aconchegante para aquela comunidade instantânea que se formou no meio da rua. Trocar nomes, histórias e talvez lágrimas. Trocar as roupas molhadas daquele sofrido e perdido senhor, da mesma forma como buzinas hostis foram trocadas por solicitude e um pouco de humanidade.

SMAM: Seja um Multiplicador do Apoio às Mães

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Hoje começa a Semana Mundial do Aleitamento Materno, SMAM. Estas letrinhas também abreviam “Seja um Multiplicador do Apoio às Mães”.
Nestes próximos dias, traga à consciência o fato de que ninguém mais, além daquela determinada mulher, é mãe do filho dela. E de que ela é a melhor mãe que pode ser naquele momento.
Deixe que a prioridade de uma mãe recente seja seu filho. Aja respeitando o espaço deles. Compreenda o tão típico momento atípico que vive uma casa puérpera.
Pergunte se e quando deseja visitas. Disponha-se para realizar tarefas cotidianas que poupem o tempo de trabalho dela. Seja pró-ativo e cuide para não ser invasivo.
Ofereça água, carona, faxina, carreto para as compras, um ombro silencioso.
Escute as angústias, as dores, os lamentos, os medos e os pavores. Dê espaço para que saiam pela boca as palavras presas na garganta e para que saiam pelos olhos as lágrimas do indizível.
Compreenda as contradições. Nenhum de nós é o dono da coerência. Muitas coisas vão mesmo bem, e não é por elas que ela se lamenta.
Tenha paciência com o processo de adaptação da mulher e do bebê à amamentação. Persista ao lado dela. Cuide de não disseminar mitos e histórias de terror.
Confie na natureza feminina e busque informações fidedignas. Ajude a dupla necessitada a procurar mais ajuda.
Não desista primeiro. Enquanto ela tem esperança, confie. E se assistí-la chegar ao seu limite, sinta-se privilegiado por testemunhar o espetáculo da humildade humana. Respeite, com a totalidade da admiração que se pode ter pelo real.
Procure compreender os desejos da mãe, mesmo que sejam diferentes dos seus. Compartilhe a sua experiência e faça suas sugestões com delicadeza e respeito. Detecte quem é o protagonista do momento.
Permita que mulheres amamentem em seu estabelecimento comercial, em seu local de lazer, em sua igreja, em um cantinho confortável da sua casa. Mesmo que o bebê já seja grandinho na sua opinião.
Não insista para que a mulher que amamenta coma o que você quer, nem para que consuma álcool. Não fume perto dela ou de seu bebê.
Por mais que te doa, aceite que mulheres ofereçam a seus bebês outros alimentos que não o leite materno. Mesmo que ainda sejam muito pequenos na sua percepção. Elas têm motivos.
Entenda que jovens bebês são alimentados por suas mães e favoreça essa vinculação sempre que possível.
A amamentação é uma possibilidade muito poderosa de estabelecimento do laço entre mãe e filho. Deve ser promovida e protegida.
A amamentação não é a única forma de vínculo profundo entre a mãe e seu bebê. Caso seja impossibilitada ou interrompida, ajude a dupla a fartar-se do restante: tempo, colo, olhar, convivência, pele, cuidado. E compreensão.
Esta semana, e nas outras também, seja um multiplicador do apoio às mães.