Ausência

Padrão

Na última ladeira antes de chegar em casa, o carro da frente parou no meio da pista. Esperei. Buzinaram atrás de mim (um carro com uns seis meninos cabeludos dentro). Buzinaram atrás do de trás. A fila de latarias com luzes acesas na noite fria foi crescendo, e acho que empatou o trânsito da avenida.
Farolei um pouquinho, nada. Observei atentamente, e cheguei a ter a impressão de que o carro estava sem motorista. Mas o tinha visto ser dirigido até ali…
Um motoqueiro costurante subiu até o primeiro da fila. Parou, desceu da moto, tirou o capacete. Fez sinal de negativo com o polegar, como se estivesse indicando uma pane mecânica. Mas a pane era humana…
Coração na garganta, desci do carro também. Eu, o motoqueiro e uma moça que trazia a mãe no banco do carona ficamos em frente à janela do senhor que nos olhava sem nada dizer.
Cheiro de urina. Incapacidade de tomar decisões, planejar, tomar qualquer iniciativa. Respondia nossas perguntas em circunlóquios. “Quer que chame uma ambulância?”, perguntou o motoqueiro. “Moro aqui”, respondeu ele. “Quer que interfone para alguém?”, perguntei eu. “Moro sozinho”, falou devagar e irritado. “O senhor lembra o número do seu apartamento?” “Claro que lembro”, respondeu entre cínico e confuso. Mas não nos disse. “Eu sofri uma perda muito…” disse o senhor ao motoqueiro, que soltou “o senhor vai ficar bem”, sincero, parecendo ter medo de ouvir mais. “Encosta aqui, não precisa estacionar direitinho”, orientou a moça, prática e prestativa. Em um automatismo, ele embicou na garagem, a moça o seguiu edifício adentro enquanto a mãe foi para o carro desentupir a ladeira.
Voltei para meu volante, aliviada porque em instantes estaria em minha casa quentinha com aqueles que amo.
Mas, no fundo, teria gostado muito de preparar um chazinho aconchegante para aquela comunidade instantânea que se formou no meio da rua. Trocar nomes, histórias e talvez lágrimas. Trocar as roupas molhadas daquele sofrido e perdido senhor, da mesma forma como buzinas hostis foram trocadas por solicitude e um pouco de humanidade.

Anúncios

Uma resposta »

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s