Arquivo mensal: setembro 2014

Genosidade

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Ganharam um DVD novo e brigaram para desembrulhá-lo, para segurá-lo, para assistí-lo; acabaram se batendo.
Eu disse calmamente, enquanto pegava o DVD em minha mãos: “Sunnyside (nosso código para doações). Vocês não tinham isto e não estavam brigando, então vão voltar a não ter.”
Abaixaram-se rastejando ao meu redor, por favores mamãezinha, nãos e nãos. Lágrimas e uivos.
Escondi o objeto e prossegui dobrando roupas (é o que faço quando perco o prumo). Continuaram suplicando e prometeram paz eterna.
– Venham aqui. Estão vendo este relógio? Vocês têm três minutos aqui sentados juntos. Usem esse tempo dizendo um ao outro palavras de amor. Agradeçam o irmão, falem de coisas felizes até eu voltar.
“Obrigado que… você jogou futebol comigo”. “Obrigado… que você fica comigo”. “ Te amo”. “Tá”. “Obrigado que você fica comigo há sete anos”. “Obrigado que você fica comigo, Davi”. “Te amo, Pedro”. “Hum”. “Te amo muito P— pronto, acabou o tempo! Mamaaãe!”
Apareci, casual e pedi que me contassem o que mais gostaram de ouvir do irmão.
Com os olhinhos molhados, relataram as falas que já me haviam comovido instantes atrás. Amarrei dizendo que irmãos são amigos para sempre e que para sempre ficarão juntos um do outro. Demo-nos as mãos e propus rezarmos um Pai Nosso. “…o pão nosso de cada dia- ”
-Ei! – interrompeu o Pi – isso tem no ursinho azul! Espera um pouco! Foi correndo procurar a pelúcia a pilha para oferecer ao irmão.
Acionamos a gravação e rezamos com ela. Davi chorando, como sempre ocorre ao escutar a musiquinha de fundo que acompanha a oração.
Devolvi a eles o DVD. As cenas de amor apagaram a violência e a punição. Prosseguiram ajudando-se a fechar a cortina, ligar o DVD, escolher o idioma…
– Mamãe, a gente pode parar de fazer genosidade? A gente não vai fazer raiva, a gente só vai ficar parado… é só que o Davi só tá fazendo bondade.
Autorizei. Que prossiga a vida real, com seus pecados e seus perdões.

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Supera, a luz do amor, nossos escuros?

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No profundo do tempo, na primeira criação, “faça-se a luz”.
Nos crescimentos mais singelos, a direção é a luz.
A quem nasce, é “dada a luz”.
A quem melhor quer ver, “mais luz”.
Ao que suplica soluções, “uma luz”.
Há corpos celestes que emitem luz, há corpos celestes que a refletem.
A vida que vemos é luz, como é de luz a que julgamos não ver.
E se ligamos nossos vazios e nossos medos ao escuro, a ele também ligamos nossas solidões.
São mais luminosos os caminhos que fazemos acompanhados.
As veredas desenhadas a dois são mais seguras.
Mais fulgurantes as estradas partilhadas.
Uma gota solitária transparece alguma luz, mas é no brilho de muitas que se faz o arco-íris.
No brilho das amizades estão os nossos melhores risos e a claridade das boas trocas onde o melhor aprendemos.
Se como solitária flauta temos beleza, a mais forte e bela orquestra seremos se aliados.
Então nossa alma está sempre disposta ao abraço.
Bendito o abraço que ilumina.
Bendito o afago que faz nosso coração luminosamente mais doável.
Bendita a palavra que aponta para a luz de um novo dia.
Benditas as mãos que fazem cintilar a ternura divina.
Há uma generosa geografia que, vagalumeando as paisagens, forma pares; com pincéis de sol sublinha o encantamento, faz novas auroras. Incendiados os afetos funda, aqui na terra, exato céu.
E quando a voz dos sinos anuncia esse acontecimento, leva nossos corações a aplaudirem.
Quando a voz dos sinos anuncia que, na constelação de amigos, duas estrelas unem suas cintilâncias, fazemos festa: que os anjos teçam luminosos dias ao par que vemos!
Que “ela” e “ele” escrevam novos salmos na branca folha hoje inaugurada.
Que todos nós guardemos vívido sol a oferecer-lhes reconsolando-os das chuvas.
Que a chama de seus castiçais jamais se gaste, eterna acenda!
Que quando os olhos, molhados de lembranças, trouxerem a saudade desse dia, possamos repetir: “sim! A luz do amor supera nossos escuros!”

Texto de Cecília Inês Vertamatti, que ganhamos de presente há exatos 8 anos.
Obrigada pelas palavras, mãe.
Obrigada pela jornada, Digo.