Arquivo mensal: fevereiro 2015

Horas e horas

Padrão

– Mamãe, o que precisa para ser o melhor jogador de futebol do mundo?
– Treino… Sorte… Talento.
– Só?
– Olha, filho… Uma vez eu li que quando a pessoa se dedica por dez mil horas a uma coisa, ela fica excelente nisso.
– Dez-mil-ho-ras?!
– É…
– Ah… eu já tenho, né? Eu jogo futebol todo dia…
Exclamei e ficamos fazendo contas.
– Sabe, filho, tem uma coisa super importante também, que a mamãe não falou. Pra ser um ótimo jogador tem que ter humildade, sabe o que é isso?
– Mais ou menos.
– É quando a gente sabe o que falta. É quando a gente vai aprendendo mais e mais sobre uma coisa e percebe que tem muito mais ainda para aprender. A pessoa humilde vê o que ela já consegue fazer e fica feliz, mas sabe que pode melhorar em muitas coisas.


(No dia seguinte, o irmão caçula observa, na ilustração de um livro, o personagem constrangido na aula de hidroginástica.
Irmão: – Porque ele tá com essa cara?
Mãe: – Porque só tem senhoras…
E ele, munido do diálogo da véspera, intervém:
– Você diz só?! Cem horas é muito tempo!)

Anúncios

O prumo e o rumo

Padrão

Concentrada nas lacunas da despensa, ela andava em direção ao mercadinho. Planejava sacolas moderadas, conteúdo essencial. Depois disso, compromissos engatilhados aos quais compareceria prolongando a caminhada.
Vieram à mente os docinhos diet, doçura disciplinada que a rotina consciente lhe permitia. Catalogou mentalmente os sabores desejados, já se vendo diante das prateleiras. Porém, ainda na calçada, dobrou-se secamente, três passos para a frente, braços estendidos, previu já as mãos ardendo pelo atrito com o cimento áspero, um passo torto para o lado, olhos arregalados pelo susto. Magicamente voltou para o prumo, joelhos exigidos, ofegante. Endireitou-se.
Atropelada por uma bicicleta, no calçadão comercial. Ofendida pela intrusão do impacto em seus planos. Assustada e dolorida.
Quando viu, a centímetros de si, a bicicleta vermelha deitada, ardiam as solas dos pés e queimava o pescoço. Levantou o olhar, pronta para o protesto, ou para o “olha por onde anda”, ou para a indiferença mal educada. Mas o que enxergou foi uma face de consternação e só o que pode dizer foi: “que bom que nenhum de nós se machucou, né?”.
Olhos arregalados responderam silenciosamente à sua compaixão e, em seguida, a voz quase adolescente reuniu-se do fundo da vergonha para dizer: “a senhora me desculpa, é que eu tô muito cansado”. Rependurando sacolas no guidão e o corpo magro no selim, voltou a pedalar cambaleante com seus chinelos encardidos.
Ela vinha das compras e seguia para a aula. Ele vinha da exaustão e rumava para o mistério. No meio do caminho, os dois encontraram a empatia.

Fila

Padrão

Mesmo com seu chapéu preto equilibrado na cabeça, é mais baixo que eu. Meu vizinho na fila de inscrição para modalidades esportivas.
Chapéu de velho. Fileirinha de bigode de velho. Voz de velho. Vista de velho, que contou com a minha ajuda para preencher a ficha. Olhinho lacrimejante de velho, de um lado só, o que o levou a tirar os óculos de velho e enxugar com o lenço azul de velho.
O SEP da residência anotado num papelzinho colado na carteira. Um sorriso de canto de boca quando entende que o e-mail que pediam ali é do computador. Não tem e-mail, não senhora.
Pronto para caminhar na fila a passos lentos e para inscrever-se para a prática de hidroginástica pelo oitavo ano consecutivo.
Envelhecer assim e encher o mundo de poesia: eu quero.