Arquivo mensal: março 2015

A tarde em que um gnomo ajudô a fazer bolo de chocolate

Padrão

Ele queria comprar um gnomo. Onde vende gnomo? Quanto custa um gnomo? De que tamanho tem que ser o gnomo? Precisava do gnomo para logo, já entrávamos em março, as aulas de estavam prestes a começar…
– Não é gnomo que fala, é kinomo – disse o irmão, enfatizando a dessonorização.
Debateram sobre o significante, argumentos, certezas e provocações, você não sabe nada, quem vai fazer ajudô sou eu.
A mãe, desejando ver o sem fim da história, argumentava que a palavra correta é gnomo. O pai despistava, dizendo que o nome começa mesmo com ki. Nenhum dos dois faltando com a verdade.
O calor da discussão invadiu o calor da cozinha, onde a mãe quitutava. “Liguem pra vovó, que ela entende desses assuntos de palavras”.
Rindo por dentro, satisfeita por fornecer gargalhadas à avó, a mãe ditou os oito algarismos para os dedinhos finos.
– Oi vovó! É… A roupa do Davi da aula de ajudô é gui-nomo ou ki-nomo? Vovó? Vovó?
Repetiu e reexplicou, assim que a avó recuperou o fôlego. Precisou repetir de novo, e reexplicar mais uma vez (a avó aproveitando-se da loira prosódia inocente).
Enquanto ouvia as justificativas da avó – comedidas entre ser confiável e estragar a brincadeira – dedinhos finos futricaram no pó de farinha sobre a pia, em louças proibidas e, ainda com a mãe atentando a outras panelas, dedinhos finos desafivelaram a borda da forma de fundo removível, já preenchida com a massa crua do bolo de chocolate.
Dedinhos finos então tremeram com o grito da mãe, que viu a pedra da pia já inundada pela lava escura. “Peeeeedro, desliga esse telefone e some daqui que depois eu ligo pra sua avó!”
Minutos depois, receita parcialmente recuperada – e razão também – mamãe ligou para vovó. Imitações e risos. “Que pena que eles crescem!” disse uma, deliciada pelas piadinhas pitorescas. “Que bom que eles crescem!” disse a outra, cozinha imunda, cheirando o queimado do bolo pingando dentro do forno.

Anúncios