Arquivo mensal: agosto 2015

Primeira vez

Padrão

Em pé ao lado da mesa da professora primária, a menina aguardava a correção do exercício. Quieta, observava: a caneta apoiada nas mãos senhoras, o cabelo bem ajeitado, o batom bordô sóbrio ultrapassando levemente um ponto do contorno labial.
As colegas, lição terminada, iniciavam a merenda. Seu estômago, envolvido pela sainha de pregas, já devia estar de prontidão.
Uma amiga aproximou-se e, como de hábito, ofereceu à professora uma fruta esverdeada. Os olhos musgo da menina, salpicados de castanho, esperaram. A mestra degustou e, em seguida, ofereceu-lhe. Ela aceitou.
Que lanche levara ela, aquele dia? Não há memória. A memória acusa, porém, ainda, sempre que acessada, com requintes de detalhe, o sabor de pera firme misturado ao de batom.
_____
Para tia Marli. Com amor.

Anúncios

Drikasana

Padrão

Pela janela aberta invadia a sala
o vento poluido de secura da cidade
eu ouvia o apito afinado e limpo
da brisa refrescante afagar minha humanidade

Devagar e forte tocavam no acento meus ossos
corpo intero pesado e dolorido de viver
eu sentia equilibrado um sentimento de entrega
nada mais é necessário que aderir ao perceber

Via tortos e brilhantes, pululando entre meus olhos,
uns estimulos nervosos precisando acontecer
verdes roxos se tornavam acendendo a escuridão
e dentro dos olhos fechados maravilhas pude ver

Tic tac do relógio, companhia imprevisível
no silêncio alentador convidou a me lembrar
marteladas de concreto tão distantes e encaixadas
com um som tão gratuito que convidava a dançar

De presente pro meu eu dei a hora que passou
em contato com o só a essência revelou
se a ida tem um ritmo, apressa-lo é confusão
revivendo estapaz a essência é condição

———
Para Driquinha, em sua primeira primavera de verão.