Arquivo mensal: dezembro 2015

Caracóis

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Caracóis dourados reclinaram no meu ombro logo após nosso encontro.

Negros caracóis aceitaram meu beijinho, mas mantiveram a distância segura que costumam praticar.

Caracóis dourados pulularam rindo com meus filhos, emolduraram sorrisos diante de minhas provocações.

Negros caracóis trepidaram, ambivalentes, no chacoalhar de minhas pernas.

Caracóis dourados adormeceram falando comigo, partilhando um tão honroso passeio vespertino.

Negros caracóis, depois de transpassarem meus olhos com toda sede que têm, finalmente confiaram na minha voz e penderam, transpirando, na curva resistente do meu braço.

Caracóis dourados despertaram chamando meu nome.

Negros caracóis de mim correram ao acordar.

Caracóis dourados fugiram de meus dedos e, sapecas, afirmaram querer ficar bagunçados.

Negros caracóis a mim sorriram cúmplices na despedida afetuosa.

Não tenho caracóis. Mas ontem tive.

Viver ao lado teu

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“Marcas do que se foi, sonhos que vamos ter. Como todo dia nasce novo em cada amanhecer”. Assim terminou a apresentação de piano dos alunos da eterna namorada. Como começou? Com um agradecimento comovido dela ao marido.
Nesta noite de dezembro, assistiram graciosas crianças arriscando singelas escalas. Aplaudiram dedicados artistas revelando seus lapidados talentos.
Talentos esses que ela cultiva semanalmente, ano após ano. O que ele apoia continuamente, como fez desde os primeiros encontros no coral da igreja.
Sobrinho netão, da plateia, anotava as prediletas. Sobrinho netinho batia os pezinhos no ritmo.
“Por toda minha vida vou te amar, à espera de viver ao lado teu, por toda minha vida”.
Sobrinho netão curiava em voz alta. Sobrinho netinho adormecia sobre os casacos, embalado pelas melodias.
Além dos fartos arranjos de flores e dos sorrisos iluminados dos músicos, a plateia podia observar o cocuruto brilhante dele ao lado do penteado bem feito dela.
Lado a lado como têm estado por cinquenta anos nesta mesma noite, ao longo das últimas cinco décadas.

Para tia Celina e tio Zé, por ocasião dos cinquenta anos de namoro. Com amor.