A flor d´água do meu oceano interno

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Reuni os chinelos, cobri as sacolas, deixei as crianças chutando bola na areia nublada com o pai. Óculos de sol no rosto, comecei minha caminhada. Cuidei de respirar fundo e, assim que a brisa fresca começou a encher de liberdade meus pulmões, ouvi chamarem meu nome. Alucinações, pensei. Ouvi novamente.
Desorientada e curiosa, analisei o menininho molhado de quem cuidava um avô, as senhoras de chapéu, a moça na bicicleta. Quem me chamou então, pela terceira vez, sorrindo, foi a moça da bicicleta, que ao parar de pedalar tirou os fones do ouvido e também os óculos escuros. No meio desses gestos, envolvida pelo seu sorriso, perguntei delicada “quem é você?”, até que eu mesma respondi. Dezesseis anos nos separaram de nossa última conversa. Avancei num abraço, que sei que ela nem curte muito, mas eu curto. Abracei por meu direito de sentir na pele a alegria do reencontro.
Sorrimos e rimos, desacreditamos e seguimos falando. As crianças, as férias, a temporada chuvosa, a profissão, a rotina, a faculdade, o tempo que passa voando, a saudade, as colegas, a família, o trabalho, o estarmos fugindo um segundo sozinhas pra caminhar, pra pedalar.
Seus dentinhos, seus fios de cabelo pretos, seus olhinhos brilhantes, suas mãos. Meu biquíni tentando vestir um corpo que se julgava anônimo naquela manhã de praia. O batom que quase que eu não passo. Que novidades ela via em mim? Que novidades eu via nela… As mesmas interjeições, o jeito idêntico de ordenar as palavras. Nossos dezessete anos de idade, que evoluíram quase juntos até os vinte e um. E depois – como uma onda que arrebenta em espumas abundantes e logo ali na frente se dissolve – trouxeram-nos até esse encontro.
Tentamos a despedida alguma vezes antes de conseguir. E quando conseguimos, fiquei ambígua: dez minutos de papo imprevisto à beira mar… mereço mais! Segui andando, tão carregada de novidades, tão bastecida de lembranças e imagens. Segui ofegante e embargada, misturando memórias aos bronzeados dos banhistas, às conchinhas quebradas, às pegadas de todos os tamanhos que eu amassava com as minhas próprias pegadas.
Quanto conteúdo surgiu boiando sereno na flor d´água do meu oceano interno. Que densidade a dessa água salgada. Quanto sabor.
Andei muito mais que ontem, muito mais do que pensei querer. Andei até acabar a praia. Até chegar a montanha. Então parei. Folhas enormes e minúsculas, muitos verdes, a pedra penteada pelo tempo, a luz que o sol só derrama desse jeito aí nesse instante. Umas pessoas, umas casinhas, uns cachorros. O silêncio e a gaivota que soltou sua voz bem em cima de mim. Olhei pra ela, que pulou do galho e voou alto, bem alto, bem lento, bem exatamente em cima de mim, emoldurada por uma textura nova: eu não me lembro de antes já ter observado por baixo os pingos pesados de chuva.
A água doce começou a aquarelar grosseiramente meu corpo suado, enquanto famílias recolhiam suas toalhas e suas crianças. Dei meia volta e, passo a passo, deixei meus porros absorverem tudo. Da cintura pra baixo, encharcada de água do mar. Da cintura pra cima, encharcada de suor, de lágrimas e da água do céu.
Retornei aos meninos trementes de molhados, à bola ensacolada, à família que, há dezesseis anos, eu não previa, amontoada sob o guarda-sol. Demorei pouco mais de uma hora, mas o tempo que passou por dentro não tem medida.

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