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Sobre Aline

Agradada, assumida, ansiosa. Calejada, colorida, corajosa. Dedicada, detalhista, desejosa. Bemcasada, biparida, orgulhosa.

Ilumina

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Foi a luz menina do sol das sete da manhã que me trouxe a visão clara das cenas.
O quintal da escola. A tartaruga. O mamão que a tartaruga comia. O grande granito no qual deitávamos e raspávamos as mãos para ficarem lisinhas. O tio Hipólito. Hipopótamo. As risadas. O cheiro de café.
Meus quatro anos. Meu silêncio. A mesma luz do sol gentil atravessando os galhos da pitangueira. Areia entre os dedos dos pés.
Chegou tudo de presente, como se algo que nunca tivesse existido fosse a mim gentilmente devolvido. Sensorial: reaconteceu na córnea e na garganta.

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A flor d´água do meu oceano interno

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Reuni os chinelos, cobri as sacolas, deixei as crianças chutando bola na areia nublada com o pai. Óculos de sol no rosto, comecei minha caminhada. Cuidei de respirar fundo e, assim que a brisa fresca começou a encher de liberdade meus pulmões, ouvi chamarem meu nome. Alucinações, pensei. Ouvi novamente.
Desorientada e curiosa, analisei o menininho molhado de quem cuidava um avô, as senhoras de chapéu, a moça na bicicleta. Quem me chamou então, pela terceira vez, sorrindo, foi a moça da bicicleta, que ao parar de pedalar tirou os fones do ouvido e também os óculos escuros. No meio desses gestos, envolvida pelo seu sorriso, perguntei delicada “quem é você?”, até que eu mesma respondi. Dezesseis anos nos separaram de nossa última conversa. Avancei num abraço, que sei que ela nem curte muito, mas eu curto. Abracei por meu direito de sentir na pele a alegria do reencontro.
Sorrimos e rimos, desacreditamos e seguimos falando. As crianças, as férias, a temporada chuvosa, a profissão, a rotina, a faculdade, o tempo que passa voando, a saudade, as colegas, a família, o trabalho, o estarmos fugindo um segundo sozinhas pra caminhar, pra pedalar.
Seus dentinhos, seus fios de cabelo pretos, seus olhinhos brilhantes, suas mãos. Meu biquíni tentando vestir um corpo que se julgava anônimo naquela manhã de praia. O batom que quase que eu não passo. Que novidades ela via em mim? Que novidades eu via nela… As mesmas interjeições, o jeito idêntico de ordenar as palavras. Nossos dezessete anos de idade, que evoluíram quase juntos até os vinte e um. E depois – como uma onda que arrebenta em espumas abundantes e logo ali na frente se dissolve – trouxeram-nos até esse encontro.
Tentamos a despedida alguma vezes antes de conseguir. E quando conseguimos, fiquei ambígua: dez minutos de papo imprevisto à beira mar… mereço mais! Segui andando, tão carregada de novidades, tão bastecida de lembranças e imagens. Segui ofegante e embargada, misturando memórias aos bronzeados dos banhistas, às conchinhas quebradas, às pegadas de todos os tamanhos que eu amassava com as minhas próprias pegadas.
Quanto conteúdo surgiu boiando sereno na flor d´água do meu oceano interno. Que densidade a dessa água salgada. Quanto sabor.
Andei muito mais que ontem, muito mais do que pensei querer. Andei até acabar a praia. Até chegar a montanha. Então parei. Folhas enormes e minúsculas, muitos verdes, a pedra penteada pelo tempo, a luz que o sol só derrama desse jeito aí nesse instante. Umas pessoas, umas casinhas, uns cachorros. O silêncio e a gaivota que soltou sua voz bem em cima de mim. Olhei pra ela, que pulou do galho e voou alto, bem alto, bem lento, bem exatamente em cima de mim, emoldurada por uma textura nova: eu não me lembro de antes já ter observado por baixo os pingos pesados de chuva.
A água doce começou a aquarelar grosseiramente meu corpo suado, enquanto famílias recolhiam suas toalhas e suas crianças. Dei meia volta e, passo a passo, deixei meus porros absorverem tudo. Da cintura pra baixo, encharcada de água do mar. Da cintura pra cima, encharcada de suor, de lágrimas e da água do céu.
Retornei aos meninos trementes de molhados, à bola ensacolada, à família que, há dezesseis anos, eu não previa, amontoada sob o guarda-sol. Demorei pouco mais de uma hora, mas o tempo que passou por dentro não tem medida.

Caracóis

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Caracóis dourados reclinaram no meu ombro logo após nosso encontro.

Negros caracóis aceitaram meu beijinho, mas mantiveram a distância segura que costumam praticar.

Caracóis dourados pulularam rindo com meus filhos, emolduraram sorrisos diante de minhas provocações.

Negros caracóis trepidaram, ambivalentes, no chacoalhar de minhas pernas.

Caracóis dourados adormeceram falando comigo, partilhando um tão honroso passeio vespertino.

Negros caracóis, depois de transpassarem meus olhos com toda sede que têm, finalmente confiaram na minha voz e penderam, transpirando, na curva resistente do meu braço.

Caracóis dourados despertaram chamando meu nome.

Negros caracóis de mim correram ao acordar.

Caracóis dourados fugiram de meus dedos e, sapecas, afirmaram querer ficar bagunçados.

Negros caracóis a mim sorriram cúmplices na despedida afetuosa.

Não tenho caracóis. Mas ontem tive.

Viver ao lado teu

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“Marcas do que se foi, sonhos que vamos ter. Como todo dia nasce novo em cada amanhecer”. Assim terminou a apresentação de piano dos alunos da eterna namorada. Como começou? Com um agradecimento comovido dela ao marido.
Nesta noite de dezembro, assistiram graciosas crianças arriscando singelas escalas. Aplaudiram dedicados artistas revelando seus lapidados talentos.
Talentos esses que ela cultiva semanalmente, ano após ano. O que ele apoia continuamente, como fez desde os primeiros encontros no coral da igreja.
Sobrinho netão, da plateia, anotava as prediletas. Sobrinho netinho batia os pezinhos no ritmo.
“Por toda minha vida vou te amar, à espera de viver ao lado teu, por toda minha vida”.
Sobrinho netão curiava em voz alta. Sobrinho netinho adormecia sobre os casacos, embalado pelas melodias.
Além dos fartos arranjos de flores e dos sorrisos iluminados dos músicos, a plateia podia observar o cocuruto brilhante dele ao lado do penteado bem feito dela.
Lado a lado como têm estado por cinquenta anos nesta mesma noite, ao longo das últimas cinco décadas.

Para tia Celina e tio Zé, por ocasião dos cinquenta anos de namoro. Com amor.

Primeira vez

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Em pé ao lado da mesa da professora primária, a menina aguardava a correção do exercício. Quieta, observava: a caneta apoiada nas mãos senhoras, o cabelo bem ajeitado, o batom bordô sóbrio ultrapassando levemente um ponto do contorno labial.
As colegas, lição terminada, iniciavam a merenda. Seu estômago, envolvido pela sainha de pregas, já devia estar de prontidão.
Uma amiga aproximou-se e, como de hábito, ofereceu à professora uma fruta esverdeada. Os olhos musgo da menina, salpicados de castanho, esperaram. A mestra degustou e, em seguida, ofereceu-lhe. Ela aceitou.
Que lanche levara ela, aquele dia? Não há memória. A memória acusa, porém, ainda, sempre que acessada, com requintes de detalhe, o sabor de pera firme misturado ao de batom.
_____
Para tia Marli. Com amor.

Drikasana

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Pela janela aberta invadia a sala
o vento poluido de secura da cidade
eu ouvia o apito afinado e limpo
da brisa refrescante afagar minha humanidade

Devagar e forte tocavam no acento meus ossos
corpo intero pesado e dolorido de viver
eu sentia equilibrado um sentimento de entrega
nada mais é necessário que aderir ao perceber

Via tortos e brilhantes, pululando entre meus olhos,
uns estimulos nervosos precisando acontecer
verdes roxos se tornavam acendendo a escuridão
e dentro dos olhos fechados maravilhas pude ver

Tic tac do relógio, companhia imprevisível
no silêncio alentador convidou a me lembrar
marteladas de concreto tão distantes e encaixadas
com um som tão gratuito que convidava a dançar

De presente pro meu eu dei a hora que passou
em contato com o só a essência revelou
se a ida tem um ritmo, apressa-lo é confusão
revivendo estapaz a essência é condição

———
Para Driquinha, em sua primeira primavera de verão.

O menu desta manhã, ou “o que tem pra hoje”

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Assim que saí do quarto, pela manhã, ofereceu-me uma porção de fritas. Servi-me, e vieram todas ao chão, para deleite do garçom. Como posso compensá-la, indagou ele, em vocabulário infantil, sugerindo um hambúrguer de chocolate, a especialidade da casa. Assim que aceitei, veio à minha mesa meu acompanhante, chamando mamãe, trazendo seus plurais e fala dócil, do pacote-brincadeira. Fartamo-nos em iguarias, apenas esta manhã isentas de colesterol e calorias vazias. Pagamos a conta e fui prontamente conduzida ao próximo restaurante, com novo acompanhante.
Cardápio manuscrito, diversos ambientes, diversos sabores (garçom comigo muito doce, com “meu filho” muito ácido). Brinquedo aprimorado, utensílios realísticos, dimensão temporal muito mais elástica – e massacrante a quem enxerga além de uma manhã de férias. Tirou sete pedidos, comentou sobre a sobrecarga de trabalhar sozinho, negou modificar os ingredientes dos pratos. Meu acompanhante passou de saltitante a emburrado e constatei que o próximo restaurante da rodada deveria ser o café da manhã de verdade.
Desconfortáveis em chamar-me de mamãe, prosseguiram no “senhora”, aceitando frutas, repetindo o queijo branco e encomendando as tapiocas mais caprichadas que eu pudesse preparar. E então, noventa minutos depois da brincadeira de restaurante começar (com as fritas, antes mesmo que eu pudesse trocar de roupa após sair da cama), abandonamos nossos papéis e mastigamos a realidade.
Contei sobre o trabalho de ontem à noite, riram e seguiram pedindo histórias, qualquer história, histórias de quando eu era pequena, não faz mal que fossem repetidas. De quando eu tinha três anos. Já contei, vocês já sabem. Contem vocês uma história de quando tinham três anos.
– Faz muito tempo, eu não lembro! – disse o de cinco.
– Ué, você não lembra nadinha da nossa viagem pra Suíça? – usei a referência mais marcante.
Lembrou. Lembramos e mergulhamos nas temperaturas, aromas, vivências. Rimos de episódios e espantei-me por ser passado o que tão presente ainda é.
– Mamãe, sabia que quando eu crescer eu vou morar na Suíça? – deve ter emendado algo mais, convicto, inspirado no exemplo do tio que tanto admira. Mas eu não ouvi nada. Pega no contrapé. Turvei. Feri. Fechei.
Pranto convulso. Cabeleira embaraçada, camisola desbeiçada e lágrimas vermelhas apertando o peito. “Ainda vai demorar muito, eu só vou quando for adulto”. “Mamãe, porque você tá chorando tanto, a gente só vai quando a gente crescer”. “Vai demorar muito pra gente crescer, mamãe, a gente tá crescendo rápido, mas ainda vai demorar”. Rosto crispado, lavado por olhos, nariz, e pela certeza de que nada pode detê-los. Eles vão.
Aninhei moreno e loiro desolados no meu colo corcunda e balancei-os molhados em saudade. Chorei Londres, chorei Miami, chorei Cingapura, chorei Lion, chorei Dublin, chorei Tóquio, chorei Montreal, chorei Zurique. Chorei Berlim até acabar meu fôlego.
Enquanto estão aqui quero aceitar com gratidão todos os milkshakes de pimenta, quero esperar pacientemente acabarem todas as manhãs preguiçosas e quero contar com dedicação todas as minhas histórias repetidas.