Arquivo da categoria: Crônicas ou agudas

Todos os dias acontecem coisas que merecem memória.

Faço de conta que o bom humor é músculo e espanto a preguiça de exercitá-lo.

Enquanto relato, relaxo.

A tarde em que um gnomo ajudô a fazer bolo de chocolate

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Ele queria comprar um gnomo. Onde vende gnomo? Quanto custa um gnomo? De que tamanho tem que ser o gnomo? Precisava do gnomo para logo, já entrávamos em março, as aulas de estavam prestes a começar…
– Não é gnomo que fala, é kinomo – disse o irmão, enfatizando a dessonorização.
Debateram sobre o significante, argumentos, certezas e provocações, você não sabe nada, quem vai fazer ajudô sou eu.
A mãe, desejando ver o sem fim da história, argumentava que a palavra correta é gnomo. O pai despistava, dizendo que o nome começa mesmo com ki. Nenhum dos dois faltando com a verdade.
O calor da discussão invadiu o calor da cozinha, onde a mãe quitutava. “Liguem pra vovó, que ela entende desses assuntos de palavras”.
Rindo por dentro, satisfeita por fornecer gargalhadas à avó, a mãe ditou os oito algarismos para os dedinhos finos.
– Oi vovó! É… A roupa do Davi da aula de ajudô é gui-nomo ou ki-nomo? Vovó? Vovó?
Repetiu e reexplicou, assim que a avó recuperou o fôlego. Precisou repetir de novo, e reexplicar mais uma vez (a avó aproveitando-se da loira prosódia inocente).
Enquanto ouvia as justificativas da avó – comedidas entre ser confiável e estragar a brincadeira – dedinhos finos futricaram no pó de farinha sobre a pia, em louças proibidas e, ainda com a mãe atentando a outras panelas, dedinhos finos desafivelaram a borda da forma de fundo removível, já preenchida com a massa crua do bolo de chocolate.
Dedinhos finos então tremeram com o grito da mãe, que viu a pedra da pia já inundada pela lava escura. “Peeeeedro, desliga esse telefone e some daqui que depois eu ligo pra sua avó!”
Minutos depois, receita parcialmente recuperada – e razão também – mamãe ligou para vovó. Imitações e risos. “Que pena que eles crescem!” disse uma, deliciada pelas piadinhas pitorescas. “Que bom que eles crescem!” disse a outra, cozinha imunda, cheirando o queimado do bolo pingando dentro do forno.

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Horas e horas

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– Mamãe, o que precisa para ser o melhor jogador de futebol do mundo?
– Treino… Sorte… Talento.
– Só?
– Olha, filho… Uma vez eu li que quando a pessoa se dedica por dez mil horas a uma coisa, ela fica excelente nisso.
– Dez-mil-ho-ras?!
– É…
– Ah… eu já tenho, né? Eu jogo futebol todo dia…
Exclamei e ficamos fazendo contas.
– Sabe, filho, tem uma coisa super importante também, que a mamãe não falou. Pra ser um ótimo jogador tem que ter humildade, sabe o que é isso?
– Mais ou menos.
– É quando a gente sabe o que falta. É quando a gente vai aprendendo mais e mais sobre uma coisa e percebe que tem muito mais ainda para aprender. A pessoa humilde vê o que ela já consegue fazer e fica feliz, mas sabe que pode melhorar em muitas coisas.


(No dia seguinte, o irmão caçula observa, na ilustração de um livro, o personagem constrangido na aula de hidroginástica.
Irmão: – Porque ele tá com essa cara?
Mãe: – Porque só tem senhoras…
E ele, munido do diálogo da véspera, intervém:
– Você diz só?! Cem horas é muito tempo!)

O prumo e o rumo

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Concentrada nas lacunas da despensa, ela andava em direção ao mercadinho. Planejava sacolas moderadas, conteúdo essencial. Depois disso, compromissos engatilhados aos quais compareceria prolongando a caminhada.
Vieram à mente os docinhos diet, doçura disciplinada que a rotina consciente lhe permitia. Catalogou mentalmente os sabores desejados, já se vendo diante das prateleiras. Porém, ainda na calçada, dobrou-se secamente, três passos para a frente, braços estendidos, previu já as mãos ardendo pelo atrito com o cimento áspero, um passo torto para o lado, olhos arregalados pelo susto. Magicamente voltou para o prumo, joelhos exigidos, ofegante. Endireitou-se.
Atropelada por uma bicicleta, no calçadão comercial. Ofendida pela intrusão do impacto em seus planos. Assustada e dolorida.
Quando viu, a centímetros de si, a bicicleta vermelha deitada, ardiam as solas dos pés e queimava o pescoço. Levantou o olhar, pronta para o protesto, ou para o “olha por onde anda”, ou para a indiferença mal educada. Mas o que enxergou foi uma face de consternação e só o que pode dizer foi: “que bom que nenhum de nós se machucou, né?”.
Olhos arregalados responderam silenciosamente à sua compaixão e, em seguida, a voz quase adolescente reuniu-se do fundo da vergonha para dizer: “a senhora me desculpa, é que eu tô muito cansado”. Rependurando sacolas no guidão e o corpo magro no selim, voltou a pedalar cambaleante com seus chinelos encardidos.
Ela vinha das compras e seguia para a aula. Ele vinha da exaustão e rumava para o mistério. No meio do caminho, os dois encontraram a empatia.

Fila

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Mesmo com seu chapéu preto equilibrado na cabeça, é mais baixo que eu. Meu vizinho na fila de inscrição para modalidades esportivas.
Chapéu de velho. Fileirinha de bigode de velho. Voz de velho. Vista de velho, que contou com a minha ajuda para preencher a ficha. Olhinho lacrimejante de velho, de um lado só, o que o levou a tirar os óculos de velho e enxugar com o lenço azul de velho.
O SEP da residência anotado num papelzinho colado na carteira. Um sorriso de canto de boca quando entende que o e-mail que pediam ali é do computador. Não tem e-mail, não senhora.
Pronto para caminhar na fila a passos lentos e para inscrever-se para a prática de hidroginástica pelo oitavo ano consecutivo.
Envelhecer assim e encher o mundo de poesia: eu quero.

Gratidão

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Correndo moleque até o portão da casa dos avós, veio receber os amigos. Menor degrau da escadinha, trepou, pulou, pedalou e rolou de rir tanto quanto os visitas.
Prendendo o pula-pula entre meus joelhos, deixei segurar minhas mãos com suas mãozinhas quentes, e vi os pezinhos encobertos pela barra exagerada da calça escalarem até o topo. Pulou animada e deliciosamente, fios grossos de cabelo dançando com ele. Sorrindo rasgado, olhando em meus olhos. Gritava gritinhos finos e, covinhas a postos, sorria mais um pouco direto para dentro da minha alma.
Chegada a hora do lanche, sentou-se sobre almofada e cadeira, quase alcançando a mesa com o queixo. Pedia insistentemente aos avós que o aproximassem, e muitos movimentos depois entenderam que ele queria chegar mais perto do amiguinho loiro – e não da refeição. Satisfeito com a aproximação, segurou a branca mão do menino da cadeira ao lado. “Ele é seu amigo?”, respondeu que sim. Foi quanto contei: “a mãe dele e a sua mãe são amigas igual a vocês”. Boquinha abriu intrigada. “Quem é a mãe dele?”, provoquei. E vi elevar-se centímetro em minha direção um dedinho de unha desenhada.
Na despedida pedi um abraço, e no quentinho macio do seu peito senti matar um pedaço da saudade que tenho de ter amiga pequena pra tomar lanche de mãos dadas. De pular no pula-pula flutuando num olhar confiado. Misturei-me no abraço dele e ele não teve pressa. Tanta ternura, atravessando gerações. Bateu mãozinha em minhas costas, me deixando suspirar seu colo. Até me preencher de gratidão.

Genosidade

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Ganharam um DVD novo e brigaram para desembrulhá-lo, para segurá-lo, para assistí-lo; acabaram se batendo.
Eu disse calmamente, enquanto pegava o DVD em minha mãos: “Sunnyside (nosso código para doações). Vocês não tinham isto e não estavam brigando, então vão voltar a não ter.”
Abaixaram-se rastejando ao meu redor, por favores mamãezinha, nãos e nãos. Lágrimas e uivos.
Escondi o objeto e prossegui dobrando roupas (é o que faço quando perco o prumo). Continuaram suplicando e prometeram paz eterna.
– Venham aqui. Estão vendo este relógio? Vocês têm três minutos aqui sentados juntos. Usem esse tempo dizendo um ao outro palavras de amor. Agradeçam o irmão, falem de coisas felizes até eu voltar.
“Obrigado que… você jogou futebol comigo”. “Obrigado… que você fica comigo”. “ Te amo”. “Tá”. “Obrigado que você fica comigo há sete anos”. “Obrigado que você fica comigo, Davi”. “Te amo, Pedro”. “Hum”. “Te amo muito P— pronto, acabou o tempo! Mamaaãe!”
Apareci, casual e pedi que me contassem o que mais gostaram de ouvir do irmão.
Com os olhinhos molhados, relataram as falas que já me haviam comovido instantes atrás. Amarrei dizendo que irmãos são amigos para sempre e que para sempre ficarão juntos um do outro. Demo-nos as mãos e propus rezarmos um Pai Nosso. “…o pão nosso de cada dia- ”
-Ei! – interrompeu o Pi – isso tem no ursinho azul! Espera um pouco! Foi correndo procurar a pelúcia a pilha para oferecer ao irmão.
Acionamos a gravação e rezamos com ela. Davi chorando, como sempre ocorre ao escutar a musiquinha de fundo que acompanha a oração.
Devolvi a eles o DVD. As cenas de amor apagaram a violência e a punição. Prosseguiram ajudando-se a fechar a cortina, ligar o DVD, escolher o idioma…
– Mamãe, a gente pode parar de fazer genosidade? A gente não vai fazer raiva, a gente só vai ficar parado… é só que o Davi só tá fazendo bondade.
Autorizei. Que prossiga a vida real, com seus pecados e seus perdões.

Levou bolo

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– O lanche de hoje tava bom, filho?
– Tava, muito! Mas…
– O que?
– Eu derrubei o bolo na Carol.
Recebendo o meu olhar atento e espantado, explicou:
– Sabe quando o bolo ia cair, e fica pulando na nossa mão e cai de novo? Então, aconteceu isso na camisa dela.
– E ela? Chorou?
– Mamãe! Claro que não chorou. Só ficou brava.
– Ah é? E o que você fez?
– Tentei limpar com a toalhinha do lanche.
– Ixi…
– Não deu pra limpar muito, mas…
– Imagino que não mesmo, mas que bom que você tentou.
Sorrimos e ele revelou-se aliviado por não levar bronca. Eu disse que se eu fosse a Carol ele certamente teria levado. Rimos.
– Seus amigos perguntaram de que era o bolo?
– Não, mas eu falei sem eles perguntarem.
– Sério? E o que eles acharam?
– Hum… Eu falei que era de chocolate. Porque se eu falasse que era de cenoura, maçã, cacau e essas coisas eles iam achar nojento. Sabe aquele pãozinho verde que você faz? É gostoso, mas eles acham nojento, só porque é de espinafre.
– Tá bom. Você tá usando sua esperteza, né?
Orgulhosa por ver meu filhote encontrando suas estratégias de remediação e de defesa – e por vê-lo comer numa boa essas delícias nojentas…