Verdes vítreos

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Final da década de cinquenta. Naquele início de noite, os olhos da menina prestaram toda atenção aos olhos de sua mãe. Todos os quatro verdes vítreos.
Duas das muitas primas acabavam de partir a pé, segurando, uma de cada lado, as mãos frias daquela entre muitas tias. Os olhos verdes da menina observaram-nas de costas, cada vez menores.
A visita fora corriqueira, não moravam tão longe. Brincaram juntas no quintal de terra, ouviram palavras adultas comuns nas vozes de suas mães, caiu a tarde, caíram as temperaturas.
Antes da despedida, a menina observou os longos braços das parentas, sempre pelados. Correu até o quarto e pegou suas duas blusas quentes. Entregou a elas, livre como seu coraçãozinho caçula.
As primas vestiram e sorriram. “Pode ficar”, escutaram. Seguraram as mãos frias da tia e partiram, cada vez menores foram ficando as duas blusas quentes da menina.
Escurecia. “Você viu o que você fez?”, a menina ouviu a voz da mãe perguntar. Não existiam outras blusas. “E agora, como você vai ficar?”. Foram perguntas. Questões simplesmente apresentadas pelos olhos verdes vítreos da mãe, direto para os seus.
Ela prestou toda atenção. Nunca mais se esqueceu disso. E ficou bem.

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Para tia Neusa. Com amor.

Tu

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No teu balanceio, mistério
Tua risada me atravessa
No meu colo quente, suspira
Te olho e o que vejo é promessa

Entregue à tua brincadeira
Espero teu tempo passar
Imito e me vejo imitada
Tua força consigo espelhar

Furtivo o olhar que resgato
A voz silencia no ser
Teu tom toma conta do espaço
Estar junto a ti é crescer

Com muita gratidão às crianças que permitem que eu me desdobre para entrarmos em relação.
2 de abril, dia Mundial da Conscientização sobre o Autismo.

A tarde em que um gnomo ajudô a fazer bolo de chocolate

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Ele queria comprar um gnomo. Onde vende gnomo? Quanto custa um gnomo? De que tamanho tem que ser o gnomo? Precisava do gnomo para logo, já entrávamos em março, as aulas de estavam prestes a começar…
– Não é gnomo que fala, é kinomo – disse o irmão, enfatizando a dessonorização.
Debateram sobre o significante, argumentos, certezas e provocações, você não sabe nada, quem vai fazer ajudô sou eu.
A mãe, desejando ver o sem fim da história, argumentava que a palavra correta é gnomo. O pai despistava, dizendo que o nome começa mesmo com ki. Nenhum dos dois faltando com a verdade.
O calor da discussão invadiu o calor da cozinha, onde a mãe quitutava. “Liguem pra vovó, que ela entende desses assuntos de palavras”.
Rindo por dentro, satisfeita por fornecer gargalhadas à avó, a mãe ditou os oito algarismos para os dedinhos finos.
– Oi vovó! É… A roupa do Davi da aula de ajudô é gui-nomo ou ki-nomo? Vovó? Vovó?
Repetiu e reexplicou, assim que a avó recuperou o fôlego. Precisou repetir de novo, e reexplicar mais uma vez (a avó aproveitando-se da loira prosódia inocente).
Enquanto ouvia as justificativas da avó – comedidas entre ser confiável e estragar a brincadeira – dedinhos finos futricaram no pó de farinha sobre a pia, em louças proibidas e, ainda com a mãe atentando a outras panelas, dedinhos finos desafivelaram a borda da forma de fundo removível, já preenchida com a massa crua do bolo de chocolate.
Dedinhos finos então tremeram com o grito da mãe, que viu a pedra da pia já inundada pela lava escura. “Peeeeedro, desliga esse telefone e some daqui que depois eu ligo pra sua avó!”
Minutos depois, receita parcialmente recuperada – e razão também – mamãe ligou para vovó. Imitações e risos. “Que pena que eles crescem!” disse uma, deliciada pelas piadinhas pitorescas. “Que bom que eles crescem!” disse a outra, cozinha imunda, cheirando o queimado do bolo pingando dentro do forno.

Horas e horas

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– Mamãe, o que precisa para ser o melhor jogador de futebol do mundo?
– Treino… Sorte… Talento.
– Só?
– Olha, filho… Uma vez eu li que quando a pessoa se dedica por dez mil horas a uma coisa, ela fica excelente nisso.
– Dez-mil-ho-ras?!
– É…
– Ah… eu já tenho, né? Eu jogo futebol todo dia…
Exclamei e ficamos fazendo contas.
– Sabe, filho, tem uma coisa super importante também, que a mamãe não falou. Pra ser um ótimo jogador tem que ter humildade, sabe o que é isso?
– Mais ou menos.
– É quando a gente sabe o que falta. É quando a gente vai aprendendo mais e mais sobre uma coisa e percebe que tem muito mais ainda para aprender. A pessoa humilde vê o que ela já consegue fazer e fica feliz, mas sabe que pode melhorar em muitas coisas.


(No dia seguinte, o irmão caçula observa, na ilustração de um livro, o personagem constrangido na aula de hidroginástica.
Irmão: – Porque ele tá com essa cara?
Mãe: – Porque só tem senhoras…
E ele, munido do diálogo da véspera, intervém:
– Você diz só?! Cem horas é muito tempo!)

O prumo e o rumo

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Concentrada nas lacunas da despensa, ela andava em direção ao mercadinho. Planejava sacolas moderadas, conteúdo essencial. Depois disso, compromissos engatilhados aos quais compareceria prolongando a caminhada.
Vieram à mente os docinhos diet, doçura disciplinada que a rotina consciente lhe permitia. Catalogou mentalmente os sabores desejados, já se vendo diante das prateleiras. Porém, ainda na calçada, dobrou-se secamente, três passos para a frente, braços estendidos, previu já as mãos ardendo pelo atrito com o cimento áspero, um passo torto para o lado, olhos arregalados pelo susto. Magicamente voltou para o prumo, joelhos exigidos, ofegante. Endireitou-se.
Atropelada por uma bicicleta, no calçadão comercial. Ofendida pela intrusão do impacto em seus planos. Assustada e dolorida.
Quando viu, a centímetros de si, a bicicleta vermelha deitada, ardiam as solas dos pés e queimava o pescoço. Levantou o olhar, pronta para o protesto, ou para o “olha por onde anda”, ou para a indiferença mal educada. Mas o que enxergou foi uma face de consternação e só o que pode dizer foi: “que bom que nenhum de nós se machucou, né?”.
Olhos arregalados responderam silenciosamente à sua compaixão e, em seguida, a voz quase adolescente reuniu-se do fundo da vergonha para dizer: “a senhora me desculpa, é que eu tô muito cansado”. Rependurando sacolas no guidão e o corpo magro no selim, voltou a pedalar cambaleante com seus chinelos encardidos.
Ela vinha das compras e seguia para a aula. Ele vinha da exaustão e rumava para o mistério. No meio do caminho, os dois encontraram a empatia.

Fila

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Mesmo com seu chapéu preto equilibrado na cabeça, é mais baixo que eu. Meu vizinho na fila de inscrição para modalidades esportivas.
Chapéu de velho. Fileirinha de bigode de velho. Voz de velho. Vista de velho, que contou com a minha ajuda para preencher a ficha. Olhinho lacrimejante de velho, de um lado só, o que o levou a tirar os óculos de velho e enxugar com o lenço azul de velho.
O SEP da residência anotado num papelzinho colado na carteira. Um sorriso de canto de boca quando entende que o e-mail que pediam ali é do computador. Não tem e-mail, não senhora.
Pronto para caminhar na fila a passos lentos e para inscrever-se para a prática de hidroginástica pelo oitavo ano consecutivo.
Envelhecer assim e encher o mundo de poesia: eu quero.

Gratidão

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Correndo moleque até o portão da casa dos avós, veio receber os amigos. Menor degrau da escadinha, trepou, pulou, pedalou e rolou de rir tanto quanto os visitas.
Prendendo o pula-pula entre meus joelhos, deixei segurar minhas mãos com suas mãozinhas quentes, e vi os pezinhos encobertos pela barra exagerada da calça escalarem até o topo. Pulou animada e deliciosamente, fios grossos de cabelo dançando com ele. Sorrindo rasgado, olhando em meus olhos. Gritava gritinhos finos e, covinhas a postos, sorria mais um pouco direto para dentro da minha alma.
Chegada a hora do lanche, sentou-se sobre almofada e cadeira, quase alcançando a mesa com o queixo. Pedia insistentemente aos avós que o aproximassem, e muitos movimentos depois entenderam que ele queria chegar mais perto do amiguinho loiro – e não da refeição. Satisfeito com a aproximação, segurou a branca mão do menino da cadeira ao lado. “Ele é seu amigo?”, respondeu que sim. Foi quanto contei: “a mãe dele e a sua mãe são amigas igual a vocês”. Boquinha abriu intrigada. “Quem é a mãe dele?”, provoquei. E vi elevar-se centímetro em minha direção um dedinho de unha desenhada.
Na despedida pedi um abraço, e no quentinho macio do seu peito senti matar um pedaço da saudade que tenho de ter amiga pequena pra tomar lanche de mãos dadas. De pular no pula-pula flutuando num olhar confiado. Misturei-me no abraço dele e ele não teve pressa. Tanta ternura, atravessando gerações. Bateu mãozinha em minhas costas, me deixando suspirar seu colo. Até me preencher de gratidão.