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Quem?

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Quero colo e calor.
E o som ritmado de um coração cheio de amor.

Preciso de toque e de pele.
E de alguém que me espere.

Preciso muito de presença.
De um conforto quente, tempo e paciência.

Quero um sono reparador.
E alguém que me defenda com fervor.

Às vezes sinto que só sei chorar.
E quero alguém para me consolar.

Com um puro e verdadeiro abraço
Acolher-me no meu cansaço.

Mas hoje, não sou um bebê.
Sou uma mãe. Sou eu e sou você.

Justa causa

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Justa causa

Meus alunos de jardinagem estavam bem animados com o início das atividades do ano. Na aula de hoje, plantariam dois tipos de sementes cada um.
Percebi que não estavam com muita paciência para a teoria, então apenas observamos alguns gráficos e delineamos nossas expectativas sobre o sucesso das atividades. Um mês de janeiro quente como este não é o momento mais propício para o sucesso de um novo jardim.
Prepararam seus vasinhos, renovando e revolvendo a terra. Antes de abrir cada pacotinho de sementes, imaginaram seu aspecto. “Grande e vermelha”, “pequeneninha e verde”. Difícil de acertar. Tiveram vontade de derivar para outras artes com as sementinhas tão lindas.
Furaram a terra com os indicadores, enquanto os demais dedinhos iam soterrando os buraquinhos recém abertos. Derramaram muitas sementes em alguns e fecharam outros vazios mesmo.
Como professora em constante formação, acredito que o processo de aprendizagem é ativo, baseado do envolvimento do aluno e dá surpreendentes saltos quando são permitidas experiências espontâneas aos aprendizes.
Nosso curso de jardinagem vinha muito promissor para este novo ano letivo, porém ao final da primeira aula fui demitida. Por justa causa, é verdade. Imprevistos da vida profissional. Algo ocorreu e senti como se aqueles alunos criativos e dinâmicos fossem por um minuto crianças impulsivas e inconstantes, e como se seus comportamentos precisassem ser classificados: boas ou más maneiras. Como se fossem seres humanos dependentes, continuamente sob minha responsabilidade. E como se as consequências de seus atos estivessem praticamente todas relacionadas a mim. Como se houvesse uma sacada imunda a ser limpa numa manhã de sábado, quiçá também algumas trilhas de terra sala adentro.
A aula foi interrompida de forma passional. Mas a consciência de minhas reações intempestivas vieram quase que de imediato: procurei retomar a sensatez e desculpar-me com os pequenos aprendizes antes de passar no RH.
Os alunos aceitaram meu abraço muito comovidos e um deles me disse uma frase enigmática, que ainda preciso elaborar, mas que me parece de certa forma redentora: “mamãe, um dia eu posso ir conhecer o seu trabalho?”.

Biscoitinhos da Semana Santa

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Nem bem curado das dores e da mamãezite que acompanham a gripe ele estava, aceitou o convite para fazer Biscoitinhos da Semana Santa. Deixou as mãos serem lavadas aflito, vendo o irmão, já asseado, obtendo as arriscadas raspas de um limão. “O outro é meu!” protestou, custando a entender que um mesmo limão renderia o trabalho dos dois ajudantes de cozinha.
Destino pouco criativo o desta tarde: o esperado aconteceu, e além da casca do limão, mamãe e filhinho ralaram, (des)coordenados, a pontinha de um dos menores dedos médios da casa. Para deleite dos mais cruéis, imediatamente besuntado no suco de limão. Gritou de lábios roxos. Sentei-o e agachei a sua frente, disponível.
Observei recentemente que, ao ceder o choro, ele cruza os bracinhos em frente ao tronco, mãos apertando os ombros, como quem se abraça. Acarinhei seus joelhinhos e, pensando nessa percepção, prossegui os afazeres, abrindo o armário logo acima de nossas cabeças. De onde caiu uma caixinha de milho verde. Que quicou com a quina na cabeleira loira da vítima do dia.
Choro cansado e lábios muito roxos. Rindo sem dever, poupei-o desta vez de usar seus próprios bracinhos e abracei-o pelo tempo que precisasse. Foi apaziguando. Continuamos abraçados, até que irrompeu um comentário ressentido:
“Ah, eu queria ser o Pi!”
“Porque? Cê queria ralar seu dedo no limão e levar uma caixa de milho na cabeça?”, bem humorada, provoquei o senso de realidade do mais velho.
“Não, mamãe, é que eu queria ficar assim com você”, disse ele, baixinho: em tom de voz, em ângulo das comissuras labiais, em alvo do olhar. Cheguei bem perto, abracei-o. Minhas mãos estavam mais frias que seu pescoço e sua cintura. Ele está tão grande, e ainda assim consigo dar duas voltas nele com meus braços…
“Eu sei que você quer carinho. Sabe, as mães se preocupam muito em cuidar dos filhos pequenos, que são mais atrapalhados, e cuidam menos dos filhos maiores, que já sabem fazer as coisas”. Dei um ou dois bons exemplos de sua independência . Silenciei. Deixei-me sentir o que ele sentia. “Comigo também aconteceu isso, filho, porque eu era a criança maior da minha casa, igual você. Eu sei do que você está falando. Mamãe tá aqui. Te amo.” Olhou-me comovido e, quando o irmão pulou da cadeira para bagunçar outras bandas da casa, começou a me ajudar com as medidas e misturas.

“Abraço de mãe é doce, bronca é muito azedo. Dedo machucado é azedo, mas conseguir tirar sozinho a camiseta é bem docinho. Ah! Comer biscoito gostoso é uma coisa doce.”

Biscoitinhos da Semana Santa:

• 3 xícaras (chá) de aveia em flocos finos
• 1 xícara (chá) de açúcar
• 1/2 xícara (chá) de margarina
• 1 ovo
• 1 colher (chá) de fermento em pó
• 2 colheres (sopa) de suco de limão
• 2 colheres (sopa) de raspas de limão
Misture tudo e ponha colheradinhas numa assadeira untada e enfarinhada. Leve ao forno médio por uns 20 minutos.

Sabemos que alguns de nossos dias podem ser amargos e que passamos por circunstâncias azedas como o limão.
Mas a alegria pelos dons que recebemos e a esperança de dias melhores têm o doce sabor do açúcar.
A aveia é um cereal completo e nutritivo, assim como a rica Semana Santa que vivemos, capaz de nutrir nossa fé na Vida.
Desejamos uma Santa Semana a você e sua família e… uma Feliz Páscoa!
Davi, Pedro e família. (mar/2013)

Bonança

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Dei no Davi uma briga desproporcional.

As desculpas vieram de onde não deviam e, agachada diante dele, procurei desenrolar-me daquela passional injustiça.

Pingos nos ii, perguntei: “porque você não me olha nos olhos?”. Atendeu de baixo para cima, queixinho no peito. Vendo meu sorriso, empinou um pouco mais o nariz.

“O que você tá vendo bem no meio do meu olho?”.

Prestou bem atenção e quadradinhos preciosos de marfim cravados na gengivinha doce vieram à luz, num sorriso brilhante: “Eu!”.

Sentenciei, escutando surpresa cada palavra inspirada que eu mesma dizia: “Aparece pelo olho o que a pessoa tem dentro do coração”.

Aproximou-se num impulso de aconchego. Caímos juntos no chão. Doeu. Rimos abraçados, gargalhada retroalimentada pelo alívio da reconciliação. E pelo desajeitado do tombo também.