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Natação. Ponto final.

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Ontem comemorou-se o Dia da Natação. Quando soube disso, considerei mais um motivo para solenizar a despedida ocorrida.
Há cinco anos, na semana em que o Davi completou seis meses, decidi que nadaríamos juntos. Eu havia feito natação por boa parte da infância, hidroginástica durante toda a gestação, sempre amei e sempre amarei água, e queria mergulhar meu filhinho nessa.
A tarde era nossa! Estarmos, eu e ele, relaxadíssimos após nosso banho compartilhado – no grande tanque e depois no chuveiro de casa –, desfrutarmos de uma mamada opulenta e tirarmos aquela soneca confortável juntinhos era delicioso. Mas ele foi o primeiro aluno bebê da modalidade na academia perto de casa. A qualidade das aulas e a estrutura do lugar deixaram muito a desejar e três meses depois, quando chegou o frio, interrompemos nossas atividades.
Mas o inverno passou, a vontade voltou, e fomos, desta vez com referências, de volta para as profundezas. Encontramos musiquinhas que passaram a fazer parte de nossa rotina (e que aparecem até hoje quando guardamos os brinquedos ou brincamos com palavras). Encontramos uma turma de bebês e de mamães com a qual tínhamos muitas coisas em comum, e a piscina tornou-se um espaço para trocas, para desabafos, para inspirações. E encontramos uma professora exemplar e inesquecível.
Quando o Davi completou um aninho, a turma da natação cantou parabéns para ele dentro da piscina aquecida e colorida pelos potes vazios de shampoo e pelos barquinhos e patinhos de borracha. Sempre achei que a piscina favorece as emoções, e é mais fácil disfarçar uma lágrima dentro de um oceano… Claro que chorei.
Chorei também na apresentação de final de ano, em que uma equipe de mais de vinte professores cercava mães, pais e seus bebês golfinhos ao som das canções corriqueiras e das músicas apoteóticas de Aladin, diante dos olhos de familiares corujíssimos.
Três outras gestantes me fizeram companhia quando eu passei a entrar na piscina com o Davi no colo de fora e o Pi no colo de dentro. Barrigas crescendo, bebês mexendo deliciosamente no ventre. Passei a chegar mais cedo nas aulas só para aproveitar o privilégio de driblar a força da gravidade.
Poucas semanas antes do Pi nascer nosso plano acabou e fizemos um intervalo maior do que eu planejava. Até que, mais ou menos um ano depois, voltamos para a natação. Entrei primeiro com o Pi, desejando inspirar o Davi a querer também, já que, com três anos, ele deveria ir para a piscina média, sem a mamãe. Claro que ele quis. Amou a primeira aula, decidida por impulso. Mas não queria mais voltar…
Então começamos um processo muito cuidado e muito tenso, no qual tentativas e experimentações diferentes fizeram a natação ocupar nossa semana quase completa. Não foi possível para o Davi ficar numa piscina diferente da mãe e do irmão. Não foi viável para nós três passarmos mais de duas horas na academia, elegendo horários consecutivos para as aulas dos dois. Assim, decidimos que dois dias da semana seriam para a natação do Davi e os outros dois para a natação do Pedro. Sempre com a tia Andrea, professora tão sensível e experiente que pode suavizar angústias, aproveitar progressos, abrir exceções e acolher a nós três em nossas particularidades.
O processo de adaptação do Davi foi bastante especial. Me lembro de, aula após aula, ter entrado na pisicina com ele, ter ficado sentada na borda com os pés dentro d’água, ter ficado de maiô fora da piscina, e depois vestida, a um metro de distancia da escadinha, a dois metros, a dez metros… Nessa fase, além de toda parafernalha usual que me acompanhava à academia, eu levava também um banquinho!… Exagero em pessoa. Mas, tendo tido oportunidade de acompanhar as adaptações uma série decrianças durante essa jornada, acredito que fiz o que senti ser mais genuíno para enfrentar a dificuldade na separação – a dele e a minha também.
Então, ficava sempre dentro do campo visual do meu peixão, lendo, fazendo as unhas… Às vezes eu não tinha paciência para tal, mas com o Pedro, que estava começando a andar, junto, era mais difícil ainda. Contamos então com muito empenho especialmente do vovô Roberto, que sistematicamente entrava na área das piscinas para pegar um netinho branquelo e sorridente no colo, enquanto o outro se esguelava nas águas mornas. Uma manhã, tão atribulado estava ele com os compromissos já enfrentados, que entrou na academia apressado, perguntando para a recepcionista se o Luis Ricardo e o Vitor já tinham chegado. A moça, confusa, respondeu que esses alunos não existiam… E ele percebeu que trocara as gerações.
Os meses foram passando, os meninos crescendo, o Pi, nadador desenvolto, tantas peripécias fez com a mamãe desafiadora no tanque dos bebês, que pode mudar de piscina pouco depois de completar dois anos. Quando deixei… Encerrar aquele ciclo, para mim, foi mais difícil do que para ele. Mas decidi apegada na oportunidade dos dois irmãos compartilharem a mesma piscina. Cenas lindas, aliás! Que já haviam ocorrido eventualmente: em dias de muito calor, quando, de fralda mesmo, o Pi era convidado a dar um mergulho ao final da aula do irmão… Ou em dias de muita saudade, quando o Davi trocava de piscina e fazíamos alguns minutos de nossa aula de bebês em trio… Agora, os dois seriam coleguinhas. Era tão bonitinho como se importavam um com o outro!
Quando o Davi entrou na escola, reduziu sua frequência semanal na natação e mudou de período, mas continuou fiel até o final do plano. Fidelidade estimulada por ter passado a ser colega de grandes amigos que já cultivava fora das águas… Parte boa! Eba! Mas a professora querida saiu da academia… E levou consigo toda a história de superação e individualidade de seus alunos… e parte da qualidade das aulas também… Parte ruim… Ahhh…
Nessa fase, aproveitamos muito a proximidade da escola do Davi e da academia.Eu e o Pi, com seus cabelinhos molhados, íamos buscá-lo a pé, depois de almoçar no “restaurante verde” ali perto. E quantas vezes fomos à casa da tia avó, em frente, catar acerolas na árvore do quintal, jogar bola no corredor de fora, arrecadar bombons – que o irmão da vez responsavelmente levava para entregar ao irmão ausente…
Durante o período da natação, houve vezes em que precisei me indignar com algumas condutas que observei na academia e nos professores, precisei tomar coragem para falar delas repetidas vezes, mas fiz isso com a consciência de que é meu papel sugerir o que me parece claro e o que protege meus filhos.
O Pi permanecia com seu compromisso aquático pelas manhãs, considerando muito justo que o irmão fosse para a escola e ele para a natação. Então a mamãe passou a aproveitar esse horário para treinar em sua própria academia, cada um com suas atribuições, e o ano prosseguiu redondinho. Tão redondinho que deu dó de terminar. Mas chegou a hora do Pi entrar na escola. E não foi nada fácil para ele continuar na natação. “Eu uso escola e natação? Eu só quero usar natação, tá bom?” disse o diplomata da concordância, esclarecendo de uma vez por todas como compreendia a aula extra.
Fiz com que honrasse as aulas enquanto estivessem pagas. Foi difícil enfrentar mais uma fase de choradeira e reclamações. Mas tudo tem dois lados: matar tempo no parquinho entre o horário da escola e o da natação foi uma solução fantástica. E que prazer ver os dois pedindo, pela força da tradição,“uma maçã” para comer depois da aula? Quem quer coisa mais saudável? Além disso, se os mesmos amigos, já antigos, permaneciam nos fazendo companhia (para o Pi dentro d’água, para mim e o para o Davi fora dela), descobrimos também amigos novos, que tornaram muito prazeroso o horário da aula.
Ontem arrumei a sacolona pela última vez. Algo tão automático, depois desses anos, ficou cheio de sentido. E a desfiz, ao voltar para casa, com muitas percepções. De alívio, de fechamento de ciclo, de espaço abrindo para novidades, de conquista, de missão cumprida. Os musclinhos da barriga do Pi podem ir sumindo lentamente. Mas todo o aprendizado que essa temporada de mãe da natação me rendeu é meu para sempre. E a sensação de ter no meu abraço os corpinhos molhados dos meus amores, no morno da água, dançando juntos “meu doce bebê”, pode nunca mais existir… Mas sempre existirá.

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Atchim, tchim!

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Algumas coisas deram certo demais da conta hoje.

Dancei Zouk na academia. Quem? Eu. A mesma pessoa que por anos foi magnetizada pelas cadeiras mais escondidas nos bailinhos. A mesma pessoa que só consegue permanecer em uma pista de dança em festa de casamento se estiver com uma ou mais crianças no colo.

(Então aproveito a oportunidade para contar que ontem, na mesma academia, eu joguei um basquetebol daqueles. Quem? Eu! A mesma pessoa que passava horas desmarcada dentro do garrafão na quadra da escola, pulando com os braços para o alto e declamando os nomes das colegas que passavam a bola entre si enquanto me ignoravam.)

Achei uma larga vaga para estacionar o carro exatamente em frente ao consultório de nossa médica, pela primeira vez em três anos. E na sombra.

Acertei o caminho das Perdizes para a Vila Pires, apesar das obras, das placas tortas, do calor, do falatório, choratório, gritatório, reclamatório e – especialmente – do perguntatório no banco de trás.

Agarrada a um fino fio de esperança de ter em casa o remédio que o Davi precisa tomar amanhã ao despertar, sentei diante da transbordante caixinha das letras B, I, K, L e M. Um riso bufado escapou quando li logo o rótulo do terceiro frasquinho que peguei nas mãos: medicamento certo, potência certa, forma certa, dentro da validade.  

“Atchim, tchim”. Isto quer dizer “assim, sim”, “muito bem”, “certo”, “bingo”, “aê, hein!”.