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Boa hora

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Veio em boa hora, Quaresma, para que eu ofereça diariamente um terço aos amigos que me pedem orações e àqueles sobre os quais não tenho notícias.
Veio em boa hora, Quaresma, para que eu economize os tostões que me irrita verem em vermelho no extrato bancário e para que pare de empilhar minhas coisas inúteis em torno do meu poluído eu.
Boa hora, Quaresma, para que eu descanse dos enigmas do Facebook e pare de tentar ligar os pontos dos perfis virtuais de quem nunca conheci.
Para que eu possa extinguir novamente o hábito de ocultar os vazios com montanhas de sabor. Detox de corpo e de alma.
Boa hora para que eu encontre o silêncio e escute a essência, para que sinta a água nas mãos e o vento no rosto, o abraço no peito e vozes macias no coração.
Boa hora para que eu viva 40 dias e não 40 anos, para que eu toque o que estiver ao meu alcance e seja apenas tudo o que sou.
Para que as dores doam seu tanto e para que seja possível reluzir lustro no meio delas o brilho do novo.

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Empatia

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O sol ardido cortava o ar denso do início de tarde de inversão térmica. Os meninos dormiam no carro, sombreado graças ao guarda-chuva que eu segurava aberto sobre nossas cabeças. Dentro era bem mais fresco do que fora.
A fila de espera no restaurante lotado garantiu a eles bons minutos de soninho, mas, para a felicidade da fome, nossa mesa vagou e precisaram ser acordados.
Doeu. Arderam os olhos, doeram as pernas, queimaram os estômagos. Nada parecia justo exceto esticar-se e dormir um pouco mais. Arrastaram-se pelo restaurante lotado e acumularam-se sobre uma mesma cadeira, disputada a briga. Irritados, sonados, famintos, contrariados, impacientes.
Se o mais velho logo encontrou os dedinhos para chupar e acalmou-se, olhos semicerrados, o mais novo remexeu-se e reclamou no meu colo receptivo. Ficou ali até chegar comida e bebida, mas fungou, praguejou, negou e contorceu-se até torná-lo um colo frustrado e hostil. Que fosse para sua cadeira, então, comer sua comida. Era definitivo.
Muito corcunda e contrariado, começou a chorar bem alto. E a tossir. E a soluçar. E a gritar. E a chorar com mais força, o que fazia a tosse muita e o grito rouco.
Eu e o avô revezamo-nos nos papéis de policial bom e policial mau, sobrepondo inclusive as mesmas funções, mas ele só fazia atropelar-se no próprio choro. Tentamos até comer em paz, sem olhar para o rostinho surtado e vermelho, dando chance de acalmar-se sem nossa interferência. Até que começou a dizer entre soluços: “eu-não-con-si-go-pa-rá!”.
Então me lembrei de uma ida ao dentista, quando menininha, pouco mais velha que ele, quando era eu quem não conseguia parar de chorar. Empatia.
Mastiguei mais algumas garfadas e deixei o restante da apetitosa comida esperando, no canto do prato, o meu retorno. Peguei um guardanapo limpo e um copo d’água na mão esquerda, e na direita peguei a mão de meu pequeno. “Vem comigo aqui fora”.
Venceu o salão populoso andando e chorando. Escolhi ao ar livre um cantinho de sombra e silêncio, agachei. Já contei que os olhinhos dele esverdeiam sob camadas d’água salgada?
“Olha pra água desse rio”. Mostrei o trechinho de represa marrom quase abaixo de nós. “Ela é água calma. Olha pra ela e pega a calma pra você.” Não enxergou a água, nem o objetivo da conversa. Chorava muito. “Tá vendo essa árvore aqui? Chega mais perto.” Peguei sua mãozinha. Segurou em pinça uma folhinha empoeirada furada por taturana. “Isso, essa folha é calma, pega a calma dela pra você”. Começou a concentrar-se e alguns soluços passaram a suspiros. “Agora segura firme esse tronco de árvore”. Na pontinha dos pés envolveu-o com a mão. “Fecha seus olhos e respira com calma”. Inspirar era ainda muito difícil, mas expirava em sopro, como o ensino a fazer antes de dormir. Repetiu muitas vezes. “Muito bem. Você está se acalmando. Muito bem. Quer água?”. Tomou um gole, me olhou nos olhos e pude convidá-lo: “Agora dá um abraço”. Senti seu corpinho suado junto ao meu e sua alminha lavada também.
“Você viu que está passando?” Piscou assentindo. “Isso que você teve chama crise de birra. Agora já acabou. Eu já tive crise de birra e o vovô também já teve. É normal, todo mundo já teve. Mas agora a sua já acabou e a gente vai voltar lá dentro pra almoçar”.
“E eu vou sentar no seu colo”, disse ele. “Não, você vai na sua cadeira e eu vou na minha”, disse eu, convicta e serena.
Para minha incredulidade, começou a bater os pés na terra e a gritar novamente. Dos seus olhos lindos brotaram lágrimas instantâneas. Perdi a compostura. “Pode parar agora!”. “Eu não consigo”, cantou desafinado. “Aaaaah, consegue sim, pode conseguir!”.
O orgulho que até então sentia de mim mesma deitou naquele chão quente e misturou-se ao pó. Perdi os esses e os erres e minha voz de gralha ganhou garras que apertavam firmemente seus dois braços. Por sorte, partiu dele a próxima iniciativa iluminada. “Então eu quero fazer tudo de novo”.
“Ótimo”. Trouxe-o para perto da mureta pela mãozinha. Tentou olhar a água, pegou sozinho na mesma folhinha judiada e segurou com confiança o tronco da árvore. Soprou a raiva pra fora, cinco vezes, tomou um gole d’água e veio me abraçar. Tivemos mais uma chance. Agachada diante dele tentei um sorriso, interrompido pelo meu próprio dedo em riste. “E ó: nada de ficar com vergonha. Todo mundo aqui já teve uma crise de birra, é normal e já passou. Todos vão ver que você se acalmou e nem vão mais se preocupar”.
Entramos de volta, de mãos dadas. Comemos peixe, batata de bolinha e arroz verde, “que eu gosto muito”. Ouvi novamente sua voz limpa e amigável. E descobri ter também dentro de mim uma voz limpa e amigável.

Lacunas preenchidas

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Lacunas preenchidas

Aproveitei o quadro de avisos que temos na cozinha e deixei ali uma charada inspirada numa charge bonitinha que está rolando no Facebook esses dias.
“O que é essencial na nossa vida?”. Quatro espacinhos começando com a letra A.
O conflito quanto à resposta envolve bem dois temas muito em voga no nosso dia-a-dia: a “água” na escola, o “amor” aqui em casa.
Logo cedo, vi o madrugador mais velho com um sorriso no rosto e a caneta na mão. Preenchera os espaços com as vogais.
Fui apagando e provocando o raciocínio dele, ao ler a pergunta em tom de mistério.
“O que é essencial, mamãe?”
“Essencial é uma coisa muito importante, que a gente não pode viver sem.”
Equilibrado no banquinho, despenteado e pijamento, ele me olhou com ternura e começou a escrever, concentrado.
Letra a letra, comoção avassaladora, tive certeza da resposta mais linda que eu poderia ler.

O universo paralelo do sono

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Uma vez, há alguns anos, imprimia muito cuidadosamente cópias do volume da minha qualificação de mestrado para encadernação no dia seguinte, quando a tinta da impressora acabou. Não tínhamos reserva em casa. Eram dez horas da noite. Mantive a calma, procurei não me taxar de irresponsável e tomei coragem para a atitude mais acertada: pedir socorro para o meu pai, que já devia estar dormindo com os anjos haveria ao menos uma hora.

Telefonei. Ele me atendeu bem humorado, estava mesmo dormindo, mas não via problemas em acordar para me atender, nem em seguir as instruções minuciosas que eu enviaria por e-mail; na manhã seguinte os volumes estariam em minhas mãos. Foi tão solidário e compreensivo, que até brincou comigo: “a tinta da impressora é como os grampos do grampeador: só acabam quando a gente está usando”. Ri, relaxei, confiei.

Na manhã seguinte, aliviada pela conclusão de uma etapa, pisei na garagem de casa uns minutinhos mais tarde do que o comum, e percebi um vulto em frente ao portão. “Você não está atrasada, mocinha?”. Recebi no colo cinco blocos de papel cuidadosamente separados, ordenados e identificados.

O semblante sério de meu pai soou incompatível com a receptividade dele na noite anterior. “Tá tudo bem, Pá?”. “Tudo bem, mas você não acha que arriscou muito em me pedir uma coisa assim tão importante por e-mail, sem nem me avisar? E se eu por acaso não olhasse o computador ao acordar?”.

Agradeci e peguei a estrada; estranhei o mal entendido, repassei todo o evento no longo caminho até a faculdade, não conseguia ligar as pontas. Mais tarde, com os volumes entregues à encadernação, surgiu-me uma hipótese. Telefonei para meu “pai pra toda obra” e descobri que ele não tinha registro mnemônico do telefonema, apenas do e-mail – que acreditou ter lido em tempo hábil por pura sorte. Nesse caso eu tive, realmente, muita sorte.

Recorri aos detalhes emocionais da história, não são eles que fazem a ponte entre os amnésicos e sua própria mente nos lindos filmes? “E não te soa familiar que os grampos do grampeador teimem em acabar única e exclusivamente quando estamos usando?”. Silêncio. Confusão mental. “Alguém me falou isso esses dias”, ele disse encafifado, e completou: “não foi você?”. “Por e-mail?”, eu retruquei. Não, ele sabia que aquelas palavras haviam sido trocadas na modalidade oral, e começou a desconfiar de uma lacuna em sua linha óbvia de raciocínio, e não de uma atipia em minha linha – geralmente confiável – de ação. Até que se convenceu: eu realmente telefonara para ele. Quando ele estava dormindo.

***

Esta semana voltei do clube ao anoitecer com os meninos exaustos, o Pedro adormeceu no carro. Coloquei-o na cama bem cedo, ele ficou. Hora e pouco depois, fizemos barulho demais e ele choramingou. Entrei no quarto abafado e, vendo que estava suado, ofereci água a ele. Ficou de quatro, com os joelhos apoiados no colchão e as mãozinhas no travesseiro, sugando a água do copinho com válvula tão bichinho e tão branco como um hamster.

Tomou meio copo e parou para respirar. Para minha surpresa, tornou a sugar muitos goles. Engasgou e suspendi a água – eu, mãe, não tinha interesse em tanto xixi. Deitou e sussurrei a ele que achei seu boneco (que há dois dias ele procurava pela casa). Muito me espantou vê-lo segurar o Buzz com firmeza –, ele que, diferente do irmão, prefere dormir livre, leve e solto dos bichos e dos amigos.

Ajeitou o corpo do Buzz na mãozinha com muito tato, e… começou a chupar-lhe a mão de borracha. Incrédula, segurei o riso e observei. As sobrancelhas franziam, os sulcos nas bochechas indicavam a força crescente de sucção.  Nada feito. Ainda com os olhos fechados, segurou o boneco com as duas mãos, e fez-lhe rodopiar. Abocanhou um pé, e dá-lhe sugar a botina. Eu sentia os meus olhos espremidos molharem de riso, o abdômen doer, o fôlego faltar. Antes de meter na boca o terceiro membro ele abriu os olhos levemente, mas não registrando o que viu, pôs- se a chupar com esmero a mão esquerda do boneco. Suspeitou do encaixe, chupou-a de costas. Não aguentei e sonorizei um breque da minha gargalhada. Ele abriu os olhos e riu também, uma risadinha social. Aceitou, sem perceber direito, que eu trocasse o Buzz pela água, tomou mais uns ml, deixou o copo ao lado do travesseiro e virou de lado, deitado sobre as mãozinhas. Dormiu até o amanhecer.