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Boa hora

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Veio em boa hora, Quaresma, para que eu ofereça diariamente um terço aos amigos que me pedem orações e àqueles sobre os quais não tenho notícias.
Veio em boa hora, Quaresma, para que eu economize os tostões que me irrita verem em vermelho no extrato bancário e para que pare de empilhar minhas coisas inúteis em torno do meu poluído eu.
Boa hora, Quaresma, para que eu descanse dos enigmas do Facebook e pare de tentar ligar os pontos dos perfis virtuais de quem nunca conheci.
Para que eu possa extinguir novamente o hábito de ocultar os vazios com montanhas de sabor. Detox de corpo e de alma.
Boa hora para que eu encontre o silêncio e escute a essência, para que sinta a água nas mãos e o vento no rosto, o abraço no peito e vozes macias no coração.
Boa hora para que eu viva 40 dias e não 40 anos, para que eu toque o que estiver ao meu alcance e seja apenas tudo o que sou.
Para que as dores doam seu tanto e para que seja possível reluzir lustro no meio delas o brilho do novo.

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O TEMA do brinde

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O TEMA do brinde

“Fala pouco, mas fala bem”, foi o que disseram sobre mim durante o jantar, rindo. E revivi uma sensação antiga, do tempo em que eu era quietinha, certinha, boazinha. A tímida CDF, garantida pelos bons modos.
Esta noite, me vi organizando os pedidos e os pratos. Mas todos sabemos que grandes fatos da vida não são exatamente organizados.
Hoje, eu sabia precisamente onde estava estacionado o meu carro – embora nunca encontre sequer meu celular na bagunça do escritório de casa.
Esta sou eu hoje, tão igual e tão diferente. Eles também, iguais e diferentes.
Nesta noite de reencontro, medi, brincando, o punho da doce bailarina C., cujo diâmetro está mantido desde a quarta série e equivale ao diâmetro do punho do meu caçula de quatro anos.
Vi longas unhas de oncinha, outrora roídas. Vi nos cabelos loiros e lisos de F. as molinhas douradas de ontem, pelas quais a perturbava na época o amigo R., hoje pai experiente de três filhos.
Vi nos olhinhos miúdos e bonachões do amigo G. uma criança escondida atrás da barba de um homem feito: Robin Williams.
Vi na alegria e na sociabilidade fácil uma M. F. agregadora, que venceu brilhantemente o bullying, que naquele tempo não tinha nem nome.
Supuseram que eu não pediria chopp – e não pedi. Taparam meus ouvidos ao verem o rubor que me causaram suas palavras irreverentes.
Arriscaram-se nas provocações, brincando que em algum momento esta amizade precisaria de motivos para acabar.
O que penso é que “esta” amizade não é a amizade da infância. É uma outra amizade, que se soma àquela, através da qual unem-se pessoas muito especiais, ao redor de algo que carregam em comum. Nesta mesa há muitas histórias de perdas profundas e doloridas. Há também histórias de ganhos, que são compartilhados e passam a ser celebrados juntos.
Dissemos esta noite que tudo tem um motivo. As crianças que fomos não podiam imaginar os caminhos que percorreriam até chegar aos 35. As crianças que fomos não temeriam sonhar com a oportunidade de reencontrar-se para comemorar o que primeiro tiveram em comum, antes de viajar pelas estradas misteriosas do futuro.
Brindando o hoje, esta noite, brindamos o ontem que nos apresentou e brindamos cada um dos amanhãs que nos trouxeram até aqui – e que não se esgotam.

Eméritos

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Eméritos

Aos seis meses de gestação o marido a encontrou aos prantos na mesa da cozinha, com o telefone na mão. Assumiu a conversa e descobriu que o que era demais para o humor gravídico da menina mais sensível da turma era na verdade uma boa notícia. Uma notícia tão feliz que a fazia chorar daquele jeito.
Tinha seus motivos. Sempre fora sedenta de companhia e sempre prezara demais as histórias passadas. Saber que morariam a dois andares de si dois amigos de infância era um presente maravilhoso.
Foi ao casamento deles, chorar mais um pouco, já com seu rebento nos braços. Frequentou aquelas bodas com o privilégio de vizinha, e assim passaram a se chamar. Assinou “Vizis”, em nome dela mesma, marido e filhote, num bilhetinho de boas vindas, no retorno da Lua de Mel dos amigos. Bilhete grudado a um pote de biscoitos casadinhos, em formato de coração, que tivera a fineza de fazer com seu bebê de seis meses sentado no cadeirão.
Repetiu a receita alguma vez, mas não conseguiu fazer dela a tradição que desejava. Porém fez tradição compartilhar quitutes – e desastres -, bastava renderem bem e lá estava a sacolinha recheada pendurada à porta do 44.
Era retribuição. Aos interfonemas folgados que pediam ajudas de todos os tipos: o carro que não ligava; o menino dormindo na garagem e muitas sacolas; um ingrediente faltante; uma babá para alguma urgência. Com eles, aprendeu a pedir.
Logo veio outra criança e assim a coroa para a amizade definitiva: deu a seu filhinho padrinhos especiais. Foram juntos caminhando à Igreja da esquina, carregando a oito mãos o bebê que compartilhariam para sempre.
Meses depois recebeu de pijama a visita da amiga trêmula. Abraçou-a confirmando a notícia: mais uma vidinha surgia para incrementar as delícias dessa amizade. Daí em diante compartilharam batas, livros, receitas, angústias, geladeira, secadora, roupinhas, brinquedos, passeios, filhos, manhãs e tardes, o ofício. Tudo igual, não mudava nem o endereço.
A intimidade cresceu, a companhia também, as crianças também. Passaram a sair à noite entre amigas, semanalmente. Mereciam aproveitar das facilidades da garagem comum. E o fizeram com consciência e com reverência.
Ela suspirou com a possibilidade de mudarem dali. E adiou a dor até concretizar-se. Na semana final, contemplou embasbacada a mini vizinhinha que hoje anda, fala, come manga, não usa mais fralda. Pediu abrigo a potes de comida para poder degelar seu refrigerador quebrado. Chegou ao ponto de pegar emprestado o dinheiro trocado para pagar o técnico. E, o mais inusitado, deixou que seus filhos estourassem o horário de dormir assistindo desenho no quarto andar. Voltou para casa moída, mas agradecida.
As mudanças a ferem, as distâncias a ferem, mas há algo que ela admira a ponto de fechar as feridas: pessoas que se amam e que se unem para ir atrás do que desejam. Que os deixasse partir. Que agradecesse eternamente as escadas saltitadas em minutos, as portas abertas, as chaves emprestadas, as refeições compartilhadas, as caronas abundantes, a segurança de ter com quem contar. Pode ter esses luxos na fase mais puxada da vida. Tratarão de manter os laços a alguns poucos quilômetros de distância. Sabem bem, as duas, a penas duras, que nem as distâncias multiquilométricas ameaçam os laços verdadeiros.
Amigos de infância, compadres, fraternos… “Vizis emértitos”. Nunca mais o deixarão de ser. Vão com Deus e voltem sempre. O caminho vocês não esquecerão. E dificilmente perderão o título de família que mais nos viu de pijama em toda história!