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Pega de calças curtas

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Está calor há dias e eu cansei de ser prisioneira da calça comprida. Combinei de deixar os meninos com meu pai e ir à depilação.

Meio-dia, malas arrumadas, todos almoçados, não fiz ninguém dormir com a intenção de que durmam no carro. Vamos embora.

“Para onde, mamãe?” pergunta o mais velho. Respondo só nomes de ruas, para não excitá-lo com o destino verdadeiro, onde os chocolates, grampeadores e permissões gerais são uma diversão.

Repenso a minha decisão – não saber o destino correto pode ser em si excitante, então completo: “mas a mamãe esqueceu de dizer que é muito longe e vocês vão dormir no carro”. Decido que foi a frase final, a partir de agora só o rádio funcionando como sonolento ruído de fundo.

“Ai, as comidas!” Nada feito, esqueci os jantares dos dois, que passei a manhã preparando. Telefono para a empregada, dou as instruções, reformulo duas ou três vezes cada frase e respondo duas perguntas. Deverá dar certo.

Fazemos o retorno e começam os porquês. O caçula se agita com a voz do irmão. Será que vão dormir? A empregada traz a térmica conforme o combinado, podemos continuar. Foi previdente não marcar horário na depilação.

A gasolina entra na reserva. Ótimo, vamos abastecer e, enrolando mais um pouquinho os bichos, quem sabe o sono vem. O frentista lava o parabrisa, o Davi se esquece do vidro e ri ao imaginar a água molhando a mãe. Respondo mais perguntas. Paciência se ele não dormir, o mais importante é o sono do bebê.

As perguntas param, o Pedro toma o turno com sua cantoria. Olho para trás e confirmo: o Davi dormiu. Ok, só falta um.

Telefono para o vovô descer e me ajudar a carregar os filhos e as bagagens via elevador. O ruído dos talheres ao fundo me faz suspeitar: ele estava almoçando fora. Devia ter dito que “mal combinei de deixar os meninos com meu pai”. Decido dar mais voltas com o carro, quem sabe o Pedro pega no sono. O choro começa. Vai acordar o irmão! Decido voltar, me perco pelas ruas sem saída do bairro, como sempre.

Lágrimas e gritos depois, chegamos à garagem – excepcionalmente eu trouxera o controle do portão! Subir até o apartamento era impossível, então enquanto esperávamos, o Pedro mamaria/pararia de chorar e pegaria no sono. Quando o avô chegasse estudaríamos o que fazer, de acordo com os tempos-base que eles costumam dormir. Mas o Pedro acha que estar no carro fora do bebê conforto é como estar em um parque de diversões, nem mama, nem – muito menos – dorme. Preciso de outro plano: andar de carro um pouco mais. Vamos para a casa da minha mãe, onde não tem elevador para complicar.

Chegando lá descubro que ela está em casa, tem tempo para fazer o Pedro dormir, pode tomar conta do Davi até que acorde. Posso sair com o carro dela, assim não precisamos mexer no dorminhoco, que a essa altura certamente acordaria. Aviso meu pai de que não temos hora para ir. Tarde demais, ele já está indo para casa, pediu para embrulharem o almoço.

Apresso-me em sair para a depilação. Mas… o barulho do portão abrindo acorda o Davi, que me vendo através dos vidros dos dois carros choraminga: “mamãe, quero ficar com você!”.

Despeço-me da vovó, seria inviável fazer um dormir com o outro acordado e manhoso. Retomamos o plano anterior e voltamos para a casa do vovô. Quase chegando, decido investir em dar mais voltas pelo caminho, funciona: o Pedro, depois de chorar e de cantarolar já entregue, adormece.

O carro do vovô está na vaga da frente, ele não acreditava mais na visita dos furões. Enquanto manobro os dois carros o Davi se aflige e fica mais reclamão. Quer descer sozinho da cadeirinha. Quer saber porque tem uma placa com o menino descendo a escada. Tudo isso com a mamãe pedindo o impossível silêncio. Brigamos ao entrar no elevador. Ele chora alto, o irmãozinho abre os olhos. Penso em sentar no chão e chorar também eu, mas aproveito um sopro de inspiração e decido balançar o bebê conforto do Pi, ele fecha novamente os olhinhos. Pego Davi no colo, desculpa filhinho.

Chegamos ao apartamento, o vovô, que já terminava de almoçar, leva um susto. Tiro os telefones da tomada, fecho as cortinas, deixo o pequeninho em paz no quarto. O Davi pode comer quantos chocolates quiser, volto em uma hora.

Quarenta minutos depois estou de volta, não tinham horário para a sobrancelha. Mas minhas pernas finalmente me permitem usar calorentos vestidos. Embora, a propósito, o tempo tenha virado hoje e por mais uns dias as calças devam ser a mais sensata opção.

 

Escrito em setembro de 2010. Postado com meus agradecimentos ao Vitor, à Maluca e à Nayroca, que com este texto começaram a pedir o blog. 😉

Rebimboca da parafuseta

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Esta tarde dormi logo uns sete minutos ao lado do Pedro na casa do meu pai até que o telefone tocou. O bebê surpreendentemente manteve-se dormindo, mas eu não tenho certeza sobre mim… A impressão que tive foi de estar acordada, mas deve ter sido um sonho, daqueles mais malucos. Ouvia nomes estranhos, uma conversa sem pé nem cabeça…

Um empresário do ramo de transportes de veículos, da sala de sua casa, tenta localizar seu motorista num telefone público do Mato Grosso. O neto de três anos assiste televisão no sofá, ao lado. Alguém num posto de combustível de beira de estrada de prefixo 65 atende. Que fizesse o favor de procurar um rapaz pequeno, franzino. Não, não é criança, é pequeno; não, não é fortão, é franzino. Franzino é magrinho. Alguém tem a brilhante ideia de perguntar o nome do cidadão. Que ele retornasse a chamada a cobrar. O telefone toca novamente. Mas porque raios não atendia o celular? A linha cai. O cartão telefônico em Campo Grande está prestes a esgotar. Mas não já tinha sido avisado que era para ligar a cobrar? Três telefonemas e quatro bufadas descontroladas depois, tem início uma conversa detalhada sobre mecânica de caminhões. A flange ou a tampa? A peça é algo como um copo sem fundo. (Não deveria ser algo como um tubo?) Redonda ou cilíndrica? A flange não quebra. O retentor não se encontra em fornecedor nenhum, mas o sensor de velocidade já está em mãos. A flange ou a tampa? Mas a flange não quebra. A Mercedes Benz só trocou a flange de um caminhão em toda sua história no Brasil uma vez, no Rio Grande do Sul.  A F L A N G E O U A T A M P A? Alguém tem a brilhante ideia de fotografar a peça. A foto chega por e-mail. Novos telefonemas. Contatam-se fornecedores, amigos de motoristas, mecânicos, comerciantes do mercado paralelo. Alguém pergunta se o empresário está passando bem, não é comum que ele fale assim tão baixo. (Oi?) Ele imbui-se do mais minucioso espírito descritivo e começa: é como um relógio, no sentido anti-horário, tem um parafuso às dez horas da noite, um às sete horas da noite (e se fosse às dez ou às sete da manhã?), um às cinco da tarde; são seis ou sete parafusos, não se sabe ao certo, afinal a peça está quebrada. Mas não era a flange que era impossível de quebrar? Alguém tem a brilhante ideia de encaminhar ao vendedor a foto por e-mail. Sim, a peça foi localizada. Começa a série de telefonemas e anotações obsessivas numa folha de papel para organizar a obtenção das peças. Centenas de reais por pedaços de ferro. Ferro não, alumínio fundido.  FuNdido! Uma hora e vinte e cinco minutos de passeio pela cidade atrás das peças, pequenos pacotes, apertos de mãos, uma caixa em consignação, uma peça com 90% de desconto, outra entrega no final do dia. Tudo cabe numa sacolinha que sairá de viagem às 3:30h. da manhã e andará 1000 Km até seu destino, o tórax de um cavalo de um MB quatro dígitos quaisquer.

No dia seguinte o menino de três anos, neto do empresário em questão, brinca no quintal. Uma nuvem encobre o sol, ele exclama: “Ah, vai chover, putz América!”

 

Escrito em fevereiro de 2011.

Passeio pela vizinhança do vovô

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Passamos o dia no apartamento do meu pai. À tarde resolvi levar os meninos para um passeio.  O Davi queria ir “naquela padaria perto da casa do vovô. Como chama aquela padaria mesmo?” “Miami?” “Não!” “Mou Mousse?” “Não, aquela padaria que começa com a letra BU”. “Ah, filho, o Burger King?” “Éee!”

Então fomos. Talvez tenha sido o primeiro passeio oficial com o Pedro andando. “Mão”, ele pedia. Ufa, bem que pensei que ele fosse sair fugindo, sem mão nenhuma, morro acima e morro abaixo.

Passamos por muitas pessoas. É impressionante como meu par de meninos caprichados chama a atenção.

Na ida passamos por trabalhadores de um depósito vizinho ao prédio do vovô. Um caminhão – daqueles que misteriosamente se enfia todos os dias numa ruazinha sem saída e ainda supõe que os carros vão transitar normalmente – sendo descarregado.

O Davi comentou que aquele é o mesmo trabalho do vovô. Apontei que sim, a diferença é que ao invés de caixas de madeira o caminhão do vovô leva carros. E ele: “Nossa, precisa de muita gente, porque carro é muito pesado!”. Ri alto e respondi praquela cabecinha inocente que alguém dirige os carros para dentro do caminhão, sem precisar carregá-los. Será que eu deveria mesmo ter dito isso e jogado um balde de realidade nas idéias do pequeno?

O Pi era içado por mim a cada degrau da calçada,vinha sempre a reboque, o último da fileira dos três de mãos dadas. Quando a subida tornou-se descida, dei apenas o suporte para que ele fizesse sozinho a ginástica nos degraus. Eis que um cachorrão preto, baforento, babão e maior que meu pequenoio, rosnou de dentro de um portão. Trememos os três, arranquei o Pi do chão e guardamos bem o endereço para não cometermos o mesmo erro na volta. No restante do passeio até nosso destino o Pi foi soltando “auau”.

Chegamos ao Burger King. O Davi não queria comer nada, só queria “ir no brinquedão”. Eu expliquei que para usar o brinquedão a família tem que comprar alguma comida. Então ele pediu frios. Achou mesmo que fosse uma padaria…

Na volta, devidamente brincados e recheadinhos com milk shake e batatas fritas, os dois foram elogiados por uma moça que passou por nós, torceu o pescoço e não desistia de olhar.

O Davi me perguntou o que “aquele moço”, um catador de papelão, estava fazendo. Eu respondi que ele estava recolhendo papelão para reciclar e fazer outras caixas.

Perto do farol, um menino malabaristas de bastões pediu se eu tinha uma moeda. Respondi que não. Um pouco porque não quis soltar a mão de um dos meninos para pegar, outro pouco porque não quis abrir meu portaniqui na frente dele e o terceiro pouco porque não quis incentivar sua carreira de pedinte. Mas ele nem bem ouviu meu não, estava era interessado no “nenê”. Perguntou o nome do Pedro, disse que ele era bonitinho, acenou, sorriu, ao que o Pedro acenou, mas não sorriu.

Perguntei o nome dele: Weverson. Ele perguntou o nome do Davi, que não respondeu – e depois me informou que estava prestando muita atenção no caminhão para não sermos atropelados e por isso não pode falar. 

Weverson chamou o amigo Gabriel, que acenou e sorriu, ao que o Pi acenou, mas não sorriu. Então o Pi aproveitou para acenar sem sorrir para o passageiro de um caminhão, que acenou e sorriu muito.

Voltamos morro acima, um pouco de colo para meu loirinho popular, especialmente no trecho do cachorro.

Expliquei para o Davi o que é uma esquina. Ele disse “sim“. Retornamos à rua do vovô. Passamos novamente pelo caminhão dono da rua, o Davi espiou dentro do depósito e me perguntou o que é que tinha lá. Eu disse que não sabia. Ele insistiu. Um funcionário passou por nós, sorriu, eu aproveitei: “Davi pergunta para esse moço”. O rapaz disse: ”Aqui tem carrinho. Cê gosta de carrinho. Cê quer um carrinho?” O Davi mudo (pela manhã, na saída da natação, ele me disse que estava com tanto frio que sua língua congelada não conseguia falar. Teria acontecido algo assim também agora?)

O rapaz, todo sorriso, pediu para esperarmos. Demorou um pouco, eu já em dúvida se havia entendido certo. O Pi querendo prosseguir viagem, o Davi mudo chupando o dedo. O moço reapareceu com dois pacotinhos. Imediatamente peguei o Pi no colo e comecei a agradecer. O moço perguntou de qual o Davi gostava mais, ele pulou em cima do azul, o Pi ganhou o vermelho, agarrou com as duas mãos – agora, além de não sorrir, também não acenaria.  

Pedi para o Davi agradecer. Ele mudo. O moço perguntou o nome dele, sem resposta. Peguei-o no colo – dois filhos e dois carrinhos, sorte que não levei a bolsa – e determinei que respondesse e agradecesse. Ele, com a vozinha mais doce, o fez. Ainda apertou a mão do moço, que comentou que nos viu subindo, na ida, e que achou a cena engraçada.

Mais alguns agradecimentos depois, terminamos de descer a rua e entramos no prédio, cada um segurando seu carrinho. O Pi disse “auau”, desconfiado,  e acenou sem sorrir para uma pedra do jardim.

Chegando ao apartamento, brincaram com / brigaram muito pelos carrinhos. Banhados, jantados e cansados recolhemos nossas coisas para irmos embora. Foi um pouco trabalhoso apanhar todas as roupas sujas, calçados espalhados e brinquedos emprestados da casa do avô, mas a mais árdua tarefa foi encontrar o carrinho azul – que obviamente precisaria passar a noite ao lado do Davi. Já depois de encerradas as buscas, o Pedro resolveu localizá-lo, com toda naturalidade: dentro do forninho elétrico. Viemos para casa.

Escrito em março de 2011.

 

Para a vovó

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Vovó Neusa querida

Somos seus dois brilhantes

Que nas conquistas da vida

Seguem contigo adiante

 

Professora de tantas crianças

Sempre dedicada a ensinar

Enriquece a nossa infância

Ensinando-nos a amar

 

Reluz nosso coração

Diante do teu amor de avó

Receba nosso abração

E um beijo apertado que só

 

Para minha sogra. Escrito ontem.

Acompanhou um par de brincos com strass, uma gargantilha de corujinha e uma pulseirinha com pingente de coração.

“Seis anos!”

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Ao chegarmos em Bofete, o Davi foi logo perguntando: “onde está o pomar de laranjas?”. Soubemos e vivenciamos pelo paladar que não é época de laranjas, que as mangas preparam-se para abundar em dezembro, que as pitangas e amoras estão no auge de sua lúdica safra e o principal: que existem os ingás. Como eu pude passar 31 anos de minha existência, e tantos deles jogando stop, sem conhecer o ingá? 

Hoje pela manhã fomos passear no pomar. Minha sogra ontem nos contava que quando criança tinha uma tartaruga à qual montava e que era tão moleca que fazia as tarefas da escola em cima de uma árvore. Esta manhã, com seus sessenta-e-sejamos-discretas-mas-parece-muito-menos, demonstrou ao Davi e a quem mais quisesse ver como se sobe numa árvore. Os primeiros passos e braçadas foram realizados, os demais, indicados.

O Davi e o Pedro têm, no pomar, uma mangueira cada um. Aos pés de cada árvore existe, respectivamente, uma plaquinha com uma joaninha e outra com uma tartaruga. Fixamos nossos esforços alpinistas na mangueira do Pi. Depois de dar as instruções, e já começando a ouvir alguns protestos entre excitados e apavorados, a vovó acalmou o Davi dizendo que ele só subiria na árvore quando tivesse uns cinco ou seis anos.

 A psicologia reversa foi muito efetiva e o baixinho começou com os porquês e com as contrapropostas. Então coloquei-o num galho confortabilíssimo, a cerca de um metro e meio de altura, com locais demarcados para assento e para apoio de cada uma das mãos. Logo começaram os gritos de súplica: “seis anos! Seis anos!”…

Já em terra firme e mais calmo, ele alegou que era muito duro para o bumbum. Se sentar no penico já é um problema para suas carninhas até então acostumadas com o fofo da fralda, que dirá um galho d’árvore.

Há pouco ocorreu outro episódio intestinal. Ou melhor, não ocorreu. Mas o Davi garantiu que quando tiver vontade de novo ele vai chamar “o papai, ou a mamãe, ou o vovô, ou a vovó, ou o Pedro. Porque o Pedro não? Porque ele não pode me ajudar?”

Escrito em dezembro de 2010.