Arquivo da tag: blogagem coletiva

Ativando o sucesso na amamentação

Padrão

Sou uma ativista da amamentação? Com meus dois filhos fui. Com eles “ativei” nosso sucesso na amamentação a cada mamada.

Quando, logo após o primeiro parto, perguntei se poderia amamentar e ouvi que não, iria ter muito tempo para isso; quando, deitada na cama hospitalar em que pari, senti náuseas fortíssimas ao tentar ficar sentada e prolonguei o jejum do meu pequeno sonolento por mais alguns minutos; quando o recebi depois no quarto, banhadinho e desperto, e decidi ir ao banheiro “me preparar” para uma solene mamada e ao retornar encontrei-o dormindo tranquilo no bercinho e não o perturbei; quando depois levei uma bronca da enfermeira por não ter aproveitado o momento em que ele teria mamado “super bem”.

Quando expus os peitos gigantes e quentes aos colegas de trabalho do meu marido, que nas visitas insistiam em falar com ele sobre o chefe e sobre futebol, enquanto eu tentava entender a causa daquelas agulhadas, avaliar a pega, marcar os minutos, tomar água sem mudar a posição do Davi e relaxar.

Quando persisti ao descobrir que a dor de cabeça lancinante que me acordou e a febre que eu sentia eram uma mastite aos doze dias de maternidade. Quando lutei sentada na cama, chorando para mãe e esposo, com broche de filho preso a vácuo, a dor nas costas, no períneo e nos mamilos. Disseram-me que então tirasse um pouquinho o nenê dali, para ajeitar melhor. Depois de muito ensaiar, gritei: “assim eu vou cair!” e quatro braços desavisados me ampararam rindo de nós. Quando suportei cada valeta do caminho para o consultório médico, quando, recostada no bebê conforto do filhote no banco traseiro do carro, sentia o balanço do carro chacoalhar duras pedras dentro dos meus pobres peitos, ricos de farto alimento neles preso.

Quando acordei muito mais vezes do que eu previa madrugadas adentro, meses afora, porque nos meus planos meu bebê teria o sono dos anjos.

Quando vivi a companhia solitária de meu filho, vendo a vida acontecer fora do quartinho dele, na minha dedicação exclusiva à livre demanda.

Quando sofri ao não conseguir tirar meu leite para guardar para minhas ausências, ao não conseguir doá-lo para bancos de leite.

Quando esbafori-me ao perceber que havia perdido a hora no mercado, e entrei em casa arrancando a blusa ao encontrar o Davi vermelho de tanto chorar com a mãozinha inteira dentro da boca.

Quando fui exageradamente firme ao proibir que ele recebesse qualquer gota de outro líquido, e quando, na virada dos seis meses, exigi de mim mesma que ele passasse a aceitar o que quer que eu achasse por bem oferecer a ele.

Quando amamentei dia e noite meu baixinho adoentado e inapetente, e quando essa doação integral foi o que eu mais quis.

Quando a frenquencia das mamadas foi diminuindo e só nos aninhávamos uma ou duas vezes por dia.

Quando o ouvi dizer para si mesmo, com dezenove meses, aquele “bô” tão perspicaz, e o vi pegar no sono ao meu lado, na penumbra.

“Ativei” o sucesso da amamentação mais uma vez quando meu caçula, ainda melado de barriga, mamou por quase uma hora enquanto eu tentava acreditar que ele tinha mesmo nascido no nosso ninho.

Quando o amamentei com o irmão no mesmo colo. Quando entreguei o irmão a outro colo para que pudesse amamentá-lo. Quando enfrentei novamente as dores e delícias de viver para aleitar, tendo agora que ler livrinhos, pintar figuras, montar torres e fazer comidinha.

Quando custei a assumir que podia, sim, estar sendo dolorido e difícil de novo. Quando me julguei pouco dedicada, quando me julguei incapaz.

Quando fiz do sling parte de mim e amamentei jogando basquete na quadra, assistindo à missa, almoçando.

Quando li uma biblioteca inteira na poltrona de amamentação, e quando, dela, assisti o Davi pegar no sono enquanto sua miúda mãozinha fazia cafuné na carequinha do Pi que mamava infinito.

Quando nossas noites se tornaram uma prova de revezamento de camas, ou a gincana do “acorde menos gente de uma vez”. Quando chorei deitada no chão do escritório com o Pedro no colo, pelo sono tão interrompido e pela dor de ninar mais do que dormir.

Quando vi meu leite misturado à mandioquinha preencher a boquinha suja do meu Pitoco comilão; quando decidi suspender a comida dele porque fiquei gripada, e topei amamentar mais ainda.

Quando me despi dos prazos que todos e ninguém nos colocavam, e amamentei até estar satisfeita. Quando respeitei meu menininho de vinte e dois meses pular no berço imitando o irmão sem passar pelo meu colo antes disso.

Quando, estes dias, depois de quase um ano, ele me pediu para mamar em “todos” os meus peitos, reclamando porque estão “murchados”, e me mandando cantar “nana” enquanto fechava os olhos falsamente e tentava se encolher ali, fazendo barulhinho de degustação com aquela bocona cheia de dentes aberta e risonha…

“Ativando” o sucesso da nossa história de leite e mel, ativei meu jeito de ser mãe, minhas mil transformações e as mil contradições dessa tarefa tão singular.

 

 

Texto postado por ocasião da blogagem coletiva sobre o tema: “Porque ser ativista da amamentação” (10 a 20 de agosto de 2012).